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sexta-feira, 19 de março de 2021

O primeiro álbum de Bob Dylan foi lançado há 59 anos


A 19 de Março de 1962, um jovem músico de seu nome Robert Allen Zimmerman, conhecido hoje por Bob Dylan, um dos músicos mais influentes da música folk, country, blues e até rock, lançava o seu primeiro álbum de estúdio intitulado com o seu nome artístico. Celebrando-se hoje, além do dia do pai, os 59 anos deste álbum, nada melhor do que uma abordagem à obra que apadrinhou todo um vasto trabalho musical, lírico e literário daquele que foi o pai de uma geração de artistas, desde os que surgiram durante a sua afirmação como músico, até àqueles que procuram afirmar-se nos dias de hoje. Tudo se deve ao engenho de moldar poemas e textos em canções e melodias, e a um extenso leque de combinações de acordes de guitarra acompanhados pelo constante timbre estridente da sua harmónica, características que só um músico como Bob Dylan possui.

O álbum Bob Dylan não é propriamente um álbum “à Dylan” como geralmente se conhece, com letras e acordes de guitarra de uma identidade extrema. Trata-se de um álbum maioritariamente composto por covers curtos de temas da música folk e blues, desenvolvidos em anos anteriores, e com alguma exploração de novos conteúdos. A interpretação de “House of  The Risin’ Sun“, anterior à versão mais célebre de 1964 por parte dos britânicos Animals, é a música mais longa e talvez a que mais se destacou numa altura em que Bob Dylan não passava de um jovem músico que passeava com a sua guitarra e harmónica à procura de uma carreira musical como tantos outros jovens no início da década de 60. Porém, as músicas neste álbum compostas pelo próprio, “Song to Woody“ e “Talkin’ New York“, mostram que Bob Dylan poderia ser uma promessa na música e na composição de letras. E, na verdade, é que, até agora, Bob Dylan lançou 38 álbuns de estúdio, escreveu mais de 400 canções, venceu 13 prémios grammy (e é o artista que até hoje foi nomeado em maior número de categorias), um Óscar da academia e um Globo de Ouro para melhor canção original para o filme Wonder Boys e, mais recentemente, o Prémio Nobel da Literatura pela criação de modos de expressão poética na música americana. Falar hoje no primeiro álbum de Bob Dylan é falar da primeira obra de uma figura que à medida que o tempo avança se aproxima do estatuto de génio, tornando-se numa figura espiritual no mundo da música e da arte. Contudo, é importante realçar que o início da carreira de Bob Dylan foi repleto de obstáculos, até porque, de acordo com a crítica da época, o seu primeiro álbum não fora nada do outro mundo.

A aventura musical de Bob Dylan começa em 1959 quando, o ainda Robert Allen Zimmerman, partiu para Minneapolis para estudar na universidade de Minnesota. Foi aqui que o seu interesse inicial pelo rock n’ roll, que fizera um enorme sucesso durante a década de 50, começou a tender para o folk e também para o country. Durante o tempo que passou em Dinkytown, adoptou o tão ilustre nome artístico Bob Dylan, inspirando-se no seu poeta preferido, Dylan Thomas. Contudo, Bob Dylan abandonou a universidade logo após o seu primeiro ano e no início de 1961 viajou para Nova Iorque com a esperança de ver um dos seus ídolos musicais da música folk, Woody Guthrie, que estava internado no hospital psiquiátrico de Greystone Park devido ao agravamento da doença de Huntington que lhe fora diagnosticada. As visitas constantes deste ainda jovem músico a uma das suas grandes referências musicais foram suficientes para criar inspiração e alimentar um desejo ainda maior pelo ingresso numa carreira musical. A própria música “Song To Woody“ é inspirada em Woody Guthrie, assim como “Talkin’ New York” é inspirada na cidade que o acolhera musicalmente.

Foi então em Nova Iorque que Bob Dylan começou a tocar em vários clubes do bairro de Greenwich Village, ganhando alguma visibilidade e reputação graças a um artigo publicado no The New York Times sobre as suas actuações, durante uma reportagem sobre o Gerde’s Folk City, o clube onde grandes nomes da música passaram de forma a obter a sua afirmação. Dylan suscitou interesse musical por parte da cantora Carolyn Hester que o convidou a tocar harmónica na gravação do seu terceiro álbum, o que levou a que o seu talento chamasse também à atenção do produtor John H. Hammond que contratou Dylan para a prestigiada editora norte-americana Columbia Records. As interpretações incluídas neste seu primeiro trabalho para a Columbia resultariam no seu primeiro álbum composto essencialmente por material de música folk e blues, juntamente com os tais dois originais de sua autoria. O sonho de lançar um trabalho musical estava então concretizado, no entanto o fraco sucesso comercial do álbum, que apenas vendera pouco mais de duas mil cópias no primeiro ano, foi o suficiente para que o seu talento começasse a ser posto em causa. Bob Dylan começou a ser visto como uma aposta fracassada para a editora americana, tendo mesmo sido posta em cima da mesa a hipótese de rescindir o seu contrato. Apesar de tudo, o produtor John H. Hammond fez questão de defender Bob Dylan perante as dúvidas da editora, contando também com o apoio de outro grande nome da música country que havia assinado pela Columbia meses antes, o ilustre Johnny Cash. A aposta em Dylan em pouco tempo passaria de um tiro no pé para uma jogada de mestre: a Columbia teria lucros extraordinários graças ao progresso comercial explosivo dos álbuns de Bob Dylan que surgiam espontaneamente ano após ano.

Este foi então o primeiro degrau numa escadaria de sucesso que é a carreira de Bob Dylan. Só no decorrer da década de 60, os degraus seguintes foram compostos por álbuns de êxito gradual, nomeadamente The Freewheelin’ Bob Dylan (1963), The Times They Are a-Changin’ (1964), Another Side of Bob Dylan (1964), Bringing It All Back Home (1965), Highway 61 Revisited (1965), Blonde on Blonde (1966), John Wesley Harding (1967) e Nashville Skyline (1969), todos eles repletos de canções que ficaram para a história da música norte-americana e internacional. Apesar de um início um pouco obstinado, os tempos mudavam e a carreira de Bob Dylan rolava gradualmente para o sucesso como uma pedra rolante, chegando mesmo a bater às portas do paraíso, soprando ventos e até tornados musicais que inspirariam outros tantos músicos. Hoje falamos deste álbum como a primeira obra daquele que é um dos mais influentes artistas sempre. O álbum que, apesar do seu fraco sucesso de vendas, foi a primeira obra-prima do mestre Dylan, uma pérola musical e até poética que representa o melhor que um jovem em ascensão artística conseguiu alguma vez produzir.

sábado, 5 de dezembro de 2020

BOB DYLAN, o sociólogo da música

 

Bob Dylan. O nome fala por si. Trata-se de um dos maiores nomes da história da música e um dos mais influentes desta modalidade artística. Com uma atitude muito sui generis e pioneiro tanto ao nível instrumental como lírico, o norte-americano conquistou de forma galopante os seus contemporâneos e coleciona mais de cinco décadas de êxitos e de virtude escrita. Para além do artista, a sua componente humana saltou à vista enquanto promovia uma música intervencionista, esta que refletia a postura do seu autor e que se opunha aos conflitos que deflagraram nos anos 60 e 70. Mais do que sua música, exalta-se a proeminência de uma referência na sociedade global.

Robert Allen Zimmerman nasceu a 24 de maio de 1941 no estado do Minnesota, nos Estados Unidos da América. Por fruto da ascendência báltica dos seus avós, o pequeno Robert teve uma educação judaica dada pelos seus pais no seio de uma pequena comunidade. Foi desde cedo (sete anos) que a sua paixão pela música nasceu, ouvindo com regularidade estações de rádio que passavam blues e country. Na sua adolescência, fez parte de várias bandas que produziram covers de nomes prestigiados como Little Richard e Elvis Presley. Da cidade que o viu nascer, Duluth, migrou para Minneapolis para ingressar na universidade. Foi neste período que focou a sua música no folk, fundamentando essa escolha pelo maior sentimento que recaía no mesmo. Enquanto atuava em vários eventos de folk, Robert definiu arbitrariamente, como seu nome artístico, “Bob Dylan”. O apelido deriva de uma inspiração do músico, sendo esta o poeta Dylan Thomas, este que viria a influir a criação das suas letras.

Em 1960, Bob desiste da universidade e decide viajar para Nova Iorque, onde contacta com o seu ídolo Woody Guthrie, alguém que o consciencializou para a importância de expressar o que é humano na música e para a ressalva do espírito americano. Nesta sua itinerância, contacta com vários indivíduos de renome no panorama do folk e inicia a sua nacionalização, atuando em diversos pontos do país. Um destes concertos acabou por ser analisado por um crítico no emblemático periódico “The New York Times” e os convites por parte de produtoras começaram a surgir. A introdução da harmónica no seu perfil artístico foi também marcante nesta revelação de prospeção. Assinando pela Columbia Records, o norte-americano veria o seu primeiro álbum a ser lançado em março de 1962, simplesmente denominado por “Bob Dylan”. O estilo do mesmo não fugiu ao diapasão dos seus concertos e consistiu essencialmente num álbum de folk e blues com algum gospel à mistura. Em paralelo, não hesitou em cooperar com outros artistas, nomeadamente tocando harmónica e nos vocais de suporte. Duas decisões importantes no seu futuro seriam tomadas nesse mesmo ano, sendo elas a alteração do nome para Robert Dylan e a assinatura de um contrato com o agente Albert Grossman. No final de 1962, viajou para Inglaterra e atuou em diversos bares de folk da capital britânica, iniciando nesta etapa a sua carreira internacional. No ano seguinte, lançou o seu segundo álbum, um bem mais personalizado no que toca à criação e edição das mesmas. Todas as composições foram originadas por Dylan e o protesto social começou a dar tons e melodias. Neste álbum (“Freewheelin’”), a música “Blowin’ in the Wind” ganhou contornos mediáticos pela problematização do status quo sócio-político. Diversas circunstâncias, tais como a crise dos mísseis de Cuba, o movimento crescente a favor da igualdade de direitos civis e o desarmamento nuclear, motivaram uma expressão pungente e iminente por parte do músico. Também a peculiar voz nasalada que ostentava motivou uma atenção redobrada por parte dos seus homólogos músicos, que viam na sua genialidade o complemento ideal nesta vaga que originaria a contracultura.

O terceiro álbum, lançado em 1963 e designado “The Times They Are a-Changin’’” dissipou quaisquer dúvidas sobre o pendor ativista da produção do autor, produzindo analogias entre vários episódios sociais e as suas composições. No entanto, em 1964, produziu uma série de canções relativas ao amor e às suas contingências, para além de algum descontentamento perante o seu trabalho transato. Neste sentido, entre 1964 e 1965, Bob inicia uma transição para um folk-pop-rock e retoca a sua aparência, não descartando o uso de instrumentos eletrónicos nos seus trabalhos consecutivos. Esta mudança de atitude gerou alguma controvérsia e até animosidade por parte dos que associavam o norte-americano ao ressurgimento do folk americano clássico. Contudo, composições como “Mr. Tambourine Man”, “It’s All Over Now, Baby Blue” e “It’s Alright Ma (I’m Only Bleeding)” são consideradas como três das mais relevantes músicas do repertório do artista e foram todas elas criadas neste período. Em 1965, outro dos principais singles da carreira de Dylan foi produzido, sendo este “Like a Rolling Stone”, nomeada uma das 500 melhores de sempre para a conotada revista Rolling Stone, consolidado pelo álbum “Highway 61 Revisited”. Secundado pela The Band, realizou o álbum “Blonde on Blonde” (1966), onde fundiu a vertente hipster de Dylan e o tradicionalismo proveniente de Nashville e da supracitada banda. Nesse mesmo ano, viaja para a Austrália e expande-se na Europa, fazendo a reconciliação com a sua massa de fãs e retomando, nas primeiras partes dos seus concertos, o uso da harmónica e da guitarra acústica. Contudo, a sua vida e obra são apanhados numa emboscada e quase acabados de forma abrupta.
Self Portrait (1970), de Bob Dylan, capa do
álbum homónimo que despoletou críticas negativas.

Para combater o cansaço acumulado, o artista tomou substâncias ilícitas que lhe viriam a ser danosas. Para além disso, a 29 de junho do ativo ano de 1966, Bob Dylan tem um aparatoso acidente com a sua moto, partindo várias vértebras no seu pescoço. Na sucessão deste episódio viriam oito anos sabáticos sem quaisquer concertos dados. Todavia, nesse prolongado hiato, permaneceu na produção lírica, criando a mítica “All Along the Watchtower”, celebrizada pelo guitarrista psicadélico Jimi Hendrix; e a lançar música mais consonante com as suas origens. Célebres também se tornaram as frequentes colaborações com Johnny Cash e a sua omissão do festival Woodstock, de 1969. Os anos 70, por sua vez, assistem à ressurgência de Bob Dylan aos palcos e aos êxitos, começando por “Knockin’ on Heaven’s Door”(1973), que se tornaria numa das músicas a ter mais covers de sempre. Para além disso, desenvolveu também a sua componente de desenhista e de pintor, aventurando-se em autorretratos, aguarelas, guaches, lançando seis livros desde 1994 e até expondo nos quatro cantos do mundo. Um ano profícuo em parcerias e em concertos por todo o mundo, destacando-se 1978 pelos 114 existentes entre Ásia, Europa e EUA. O seu legado, mais do que afirmado e assegurado, seria consolidado em mais álbuns, apesar dos altos e baixos que a exigente e divergente tendência musical implica. Os mesmos apresentam-se a seguir:
  • Blood on The Tracks (1975)
  • Desire (1976)
  • Time out of Mind (1997)
  • Love and Theft (2001)
Entre onze Grammy Awards, um Academy Award e pelo reconhecimento no Rock n’ Roll Hall of Fame, há muito mas muito mais que se pode contar sobre Bob Dylan e a orla de influência que construiu desde os anos 70. A sua escrita cruzou a poesia com a música, sendo um dos pioneiros, ao lado de Jim Morrison, na sua fusão e no tratamento de ambas como uma só. Esta proeza lírica valeu-lhe o Prémio Nobel da Literatura em 2016, precisamente devido a um legado na composição musical que se equipara, também, ao de Leonard Cohen. Instrumental e melodicamente, revelou-se o salvador do folk que se ia camuflando graças à emergência do profundo jazz e ao grito de revolta do rock.

A força da palavra que transmitia com a sua vigorosa melodia, para além da temática incisiva e profunda, permitiu que o reerguimento do folk decorresse de forma subtil mas natural. Não obstante o seu caraterístico estilo, não se esqueceu de provar de tudo que havia para provar. Country, gospel, blues, R&B e rock n’ roll. Por esta versatilidade, nomes como Neil Young, Nick Cave, David Bowie, Syd Barrett, Tom Waits, Patti Smith, Joni Mitchell e os quatro Beatles de Liverpool louvaram o seu papel na formalização espontânea da música. Esta como instrumento de sátira, de crítica e de reflexão mas também de sentimento e de comprazimento. Tudo passou pela mente e pelo coração de um referencial musical, o mesmo que às palavras deu verdade e à música uma renovada felicidade.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Bob Dylan galardoado com o Nobel da Literatura

Há mais de cinquenta anos que Bob Dylan batia à porta do céu com músicas e letras brilhantes como Like a Rolling Stone, Mr. Tambourine Man, Knockin´on a Heaven´s Door, Blowin´in the Wind, Don´t Think twice – It´s All Right, mas não podia ganhar prémios porque fumava umas “coisas esquisitas”, apesar das muitas coisas acertadas que as suas músicas «diziam».
Os anos foram passando e Dylan entrou no Olimpo dos grandes criadores onde assistia ao longo cortejo da mediocridade. De tempos a tempos, a velha lenda do rock americano lá se saía com mais uma música/letra incomodativa como “Things Have Changed”, em 2000, arrebatando o Globo de Ouro para melhor canção original do filme que lhe encomendou a banda sonora. No dia 13 de Outubro de 2016, aos 75 anos, a Academia Nobel resolveu usar Bob Dylan para dar um forte abanão num prémio – o Nobel da Literatura - que corria o risco de cristalizar e se institucionalizar. Finalmente a Academia Sueca percebeu que a grande literatura está muito para além dos livros. Muitos letristas e compositores de músicas foram e são grandes poetas. Mais revolucionários e interventivos na sociedade que tantos escritores clássicos.
A escolha de Bob Dylan para Prémio Nobel da Literatura simboliza essa mudança de paradigma. Por isso, este foi um dia importante para a literatura, para a poesia, para a música, para o próprio Prémio Nobel. Dylan foi usado como uma verdadeira pedrada no charco em que ameaçava cair este prestigiado prémio. E talvez seja esse o seu grande contentamento. Por uns tempos, vamos ouvir Dylan e prestar atenção à sua mensagem. Não vamos pensar nas coisas que ele fumava, mas nas coisas que escrevia e cantava. Podia ter sido outro? Podia. Podia ter sido, por exemplo, Chico Buarque, mas Dylan é americano e todos nós sabemos que uns são mais iguais que outros, como há «armas» que acertam melhor no alvo que outras.
Sobre Bob Dylan, despeço-me com o refrão de Things Have Changed
People are crazy and times are strange
I´m locked in tigth, I´m out of range
I use to care, but things have changed
Na verdade, as coisas mudaram, mas ele nunca deixou de se importar. Ainda bem para nós. 

terça-feira, 16 de junho de 2015

‘Like a Rolling Stone’: meio século de um marco na música popular

Bob Dylan gravou a sua canção mais célebre há 50 anos, e marcou um antes e um depois.

Uma baqueta cai com força sobre uma caixa e ao mesmo tempo um pé pontapeia um bombo. É o que detona. Imediatamente se abre todo um universo, criado por uma absorvente atmosfera eléctrica e com um órgão colossal de fundo. Passam-se apenas alguns segundos até que uma voz circense diga quatro palavras mágicas, as quatro primeiras de um relato divino: “Once upon a time...” Como nos contos. “Era uma vez....”. É o começo de Like a Rolling Stone, a melhor composição da história do rock, segundo boa parte da crítica especializada, a canção com que Bob Dylan mudou definitivamente o curso da música popular no mundo, o tema que acaba de cumprir meio século desde que foi gravado, entre 15 e 16 de junho de 1965. Como disse o poeta norte-americano David Henderson, não se tratava de uma canção, mas de “uma epopeia”. Uma epopeia que narrava as emoções incontroláveis do seu autor, mas que também afectou para sempre a visão do rock e a alma de toda uma nação.
Em 1965, os Estados Unidos encontravam-se num dos períodos mais agitados da sua história, enquanto Bob Dylan começava a distanciar-se do seu papel de porta-voz geracional da música folk, que via como uma camisa de forças que o oprimia. Tinham-se passado apenas quatro anos desde a sua vinda do seu povoado de Minnesota em busca de Woody Guthrie, tinha começado a tocar nos clubes de Greenwich Village com os pilares do movimento folk nova-iorquino, como Pete Seeger, Ramblin' Jack Elliott e Dave Van Ronk. Tinha passado pouco mais de um ano desde o lançamento de The Times They Are A-Changin' e os tempos começavam a mudar para todos, incluindo Dylan, que, fascinado pelo vibrante aroma juvenil e descontraído que os Beatles e os Rolling Stones desprendiam, decidiu fazer o contrário do que se esperava dele.
O primeiro passo (enorme artisticamente) foi Bringing It All Back Home, divulgado algumas semanas antes da gravação de Like a Rolling Stone. Com essa dupla face, uma acústica e outra eléctrica, Bringing It All Back Home, uma obra-prima datada de março de 1965, foi o disco que inaugurou a mudança de Dylan, uma esplêndida fenda pela qual se divisava algo muito diferente do que se conhecia do autor de Blowin’ in the wind. E esse algo era isso que Dylan na época descrevia com estas palavras: “É esse som mercurial selvagem e fino. É metálico, dourado e brilhante”. Bringing It All Back Home foi a primeira parte do que se conhece como a trilogia mercurial de Dylan, formada também pelos álbuns Highway 61 Revisited e Blonde on Blonde. A trilogia do antes e do depois, pela qual se deu o caminho ao contrário: os Beatles, os Rolling Stones e, em definitivo, todos, se fixaram então em Dylan para saber por onde iriam os novos tempos. E Like a Rolling Stone foi, e continua a ser o máximo expoente desse som.

O crítico musical norte-americano Greil Marcus, um dos maiores estudiosos da obra de Bob Dylan, chama-o de “som total”. Um som que nasce do blues de Robert Johnson, mas que se expande em muitas direcções, como se contivesse um big-bang da música norte-americana dentro, entre os traços da guitarra rítmica e o baixo, a alta temperatura do órgão Hammond de Al Kooper, os potentes rastos da harmónica e a voz incisiva e desafiante de Bob Dylan. Como antes tinha acontecido com o canto apaixonado de That’s All Right de Elvis Presley, o som estridente de Tutti Frutti de Little Richard ou o riff de Johnny B. Goode de Chuck Berry, bastava essa estranha explosão sonora, essa conjunção de elementos vindos de todas as partes e de nenhuma, para reconhecer o inexplicável. Era uma forma de olhar para a frente sem esquecer os rastos deixados. Era inovação. Poderosa inovação com um mundo emocional próprio, mas também universal.
A sua avalanche sonora arrasta o ouvinte. Sem fôlego. Obriga a tomar partido. Like a Rolling Stone não é uma canção que se possa simplesmente ouvir. Não está concebida para ouvintes preguiçosos nem para turistas musicais. Convém recordar: uma baqueta cai sobre uma caixa e ao mesmo tempo um pé pontapeia o bombo e.., ¡boom! “Era uma vez…”. Como nos contos, o ouvinte é obrigado a adentrar o seu mundo, se não a canção expulsa-o. Como as grandes fábulas expulsam aqueles que só podem ver aquilo que os seus olhos alcançam.

Essa epopeia chamada Like a Rolling Stone, gravada nos estúdios da Colúmbia em Nova York, era um desafio para o ouvinte, mas também para a época. Os seus seis minutos de duração, com essa enxurrada instrumental, rompiam os esquemas das emissoras de rádio. Era a antítese do single, mas era de tudo ao mesmo tempo. Porque a canção mais pop de Dylan até então, era o menos pop de 1965. O seu criador dava passagem, com essa composição, a toda uma marca pessoal de canções que começaram no alto. Ou seja, aos primeiros compassos, já toda a banda estava no ápice sonoro e a partir daí não havia nem um respiro nem um passo em falso nesse fluxo incontrolável, até que se desvanecia. Isso aconteceria noutra canção célebre, como Hurricane e em várias outras. Como afirmou Greil Marcus, Dylan procurava com Like a Rolling Stone conquistar um território. E conseguiu. Era o território artístico e sentimental dos agitados anos sessenta, da ruptura geracional e do rock’n’roll. Quando a canção foi gravada nos Estados Unidos, embevecidos pelo beat dos Beatles e demais seguidores, fervilhavam todo o tipo de revoltas e confrontos. Em pleno conflito bélico no Vietname, a paranóia da Guerra Fria e corrida espacial com os russos, havia ocorrido o célebre Domingo Sangrento em Selma, depois das investidas policiais contra os manifestantes pelos direitos civis, e Martin Luther King tinha passado pela prisão enquanto o presidente Lyndon Johnson tentava mitigar tudo com a base para a lei que daria o voto aos negros. E a mídia não perdia um detalhe do processo contra Richard Hickock e Perry Smith (protagonistas do livro A Sangue Frio, de Truman Capote), presos por assassinar quatro membros da família de Herbert Clutter em Holcomb (Kansas), que acabaram enforcados. E em 1965 todos, e não só a rapariga da canção que antes se vestia tão bem e falava bem alto, pareciam pedras rolando na encruzilhada de sua própria história. Todos pareciam fazer-se a mesma pergunta do refrão: “How does it feel? (Como se sente?)”. Também Dylan, que estava imerso no seu próprio turbilhão de acontecimentos e problemas sentimentais.
Like a Rolling Stone completa meio século. Com toda a urgência e o seu orgulho ferido, a canção foi um marco. E continuará sendo. Porque, muitos anos depois da sua criação, já em outro século, continua a ser abrasiva. O seu fogo está intacto depois de se ouvir como aquela baqueta cai e um pé pontapeia um bombo. Howard Dounes conta na sua biografia sobre Bob Dylan, uma história ilustrativa a respeito. Durante esses dias de gravação, Dylan esteve numa festa e a cantora e compositora Maria Muldaur convidou-o a dançar quando o viu sentado sozinho a um canto, com as pernas cruzadas a mexer-se com nervosismo. Já lhe começavam a chover críticas na comunidade folk pela sua experimentação sonora, e por isso receberia o apelido de “Judas”, enquanto outros viam nele um Messias político que solucionaria todos os desajustes do país. Diante da proposta de Muldaur para dançar, Dylan levantou os olhos na direcção dela e respondeu: “Dançaria contigo, Maria, mas as minhas mãos ardem”. Essas mãos foram as mãos que criaram Like a Rolling Stone, uma canção para a história.