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segunda-feira, 6 de novembro de 2017

JANIS JOPLIN (1943 - 1970)

Estamos em 1943, na cidade texana de Port Arthur quando nasce Janis Lyn Joplin. Sensível e solitária, de baixa auto-estima, esta rapariga de grande propensão artística marcou a história da música e é hoje relembrada, muitos anos depois da sua morte, pelo estilo ousado que tanto destoava do dos seus colegas. Com uma atração visceral pela cultura negra, Janis Joplin chegou a ser apelidada de nigger lover (‘amante de negros‘). O seu fascínio veio da leitura de autores beats como Jack Kerouac e Allen Ginsberg. E também por parte de um colega, outro desajustado socialmente, que lhe apresentou alguns discos alternativos, coisas que não tocavam nas rádios locais. Foi assim que Janis Joplin conheceu o blues, blues de raiz, tipo Leadbelly e a voz de Bessie Smith (1894-1937). O desejo e a certeza de que seria uma cantora de blues começa então a florir por esta altura. Depois de uma adolescência também solitária, dentro do quarto ouvindo discos de Bessie e de outras divas do blues, ou fazendo selectas e peculiares amizades com jovens negros da área, principalmente músicos, Janis Joplin deixa a família e faz-se à estrada. Em bares começa a cantar em troca de bebidas e de outras substâncias alucinógenas, a que já se tinha habituado.
No início da década de 60, muda-se para Los Angeles, encontrando os seus pares na cena beatnik local: músicos, poetas e artistas underground. Começa a cantar rock encharcado de blues, ou vice-versa e a criar a sua reputação. Em 1967 teve sua grande hipótese de brilhar no Primeiro Festival Pop de Monterey – o mesmo que catapultou Jimi Hendrix às estrelas – e cantou um dilacerante e obscuro blues da gaitista, baterista e cantora negra Willie Mae, “Ball and Chain”. Até então, provavelmente ninguém jamais tinha ouvido uma rapariga de origem caucasiana cantar com tanta sofreguidão e sensualidade um blues. Seguem-se álbuns, concertos e festas. Rica e famosa, sempre rodeada de pessoas, Janis Joplin continuou a exorcizar/cantar blues, trocando de bandas e amantes. Tinha uma terrível e angustiante instabilidade emocional, reforçada por doses cavalares de álcool, erva, anfetaminas, ácido, tabaco, cocaína, metadona e heroína, aquele que foi o seu vício mais nocivo e o passaporte para o fim precoce. Em 1970, passou um inusitado, exótico e até então pouco conhecido período no Brasil, mais precisamente no Carnaval do Rio de Janeiro. Este foi também o ano que marcou uma fase de amadurecimento profissional no meio do caos. Janis Joplin criou uma nova banda, sugestivamente intitulada Full-Tilt Boogie, que faria um ”loud electric funky country blues”, e preparava-se para dar à luz o seu melhor trabalho, Pearl, lançado postumamente, em 1971.

Janis Joplin: o funeral que foi uma festa

No dia 4 de outubro de 1971, foi encontrada morta e sozinha, vítima de uma overdose de heroína num quarto de hotel em Los Angeles. Tinha 27 anos. No seu testamento, deixou mais de 2500 dólares para serem gastos pelos seus amigos numa homenagem fúnebre, num bar noturno que reuniu cerca de 250 pessoas, que tinham em mãos convites a dizer: “Bebidas por conta de Pearl”. Pearl, para quem não sabe, era a alcunha pela qual a artista era conhecida entre os amigos. A voz de Janis Joplin é quase um regresso ao grito negro dos primórdios do blues. Uma estranha e bela herança musical: uma branca que cantava e que teve um estilo e um final de vida como os trágicos negros do blues. Pouco antes de morrer, Janis mandou ainda construir um túmulo de mármore negro para Bessie Smith, a imperatriz do blues e a sua maior heroína, que morreu na sequência de um acidente de aviação que gerou polémica, especialmente porque acredita-se que a artista poderia ter sobrevivido se tivesse sido admitida num hospital reservado apenas a brancos. No novo túmulo da cantora negra, enterrada num cemitério em Filadélfia, Janis Joplin mandou escrever: “A maior cantora de blues do mundo jamais deixará de cantar”. Um epitáfio justo que tão bem se aplica à própria Joplin.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Janis Joplin - Summertime (1968)

Uma nova versão de um clássico pode tornar-se num clássico em si mesmo… Uma canção de embalar pode converter-se num mega-hit de rock and roll… E mesmo no pico do Inverno podemos sentir o calor de um campo de algodão do sul negro dos E.U.A…. Tudo isto, e muito mais, em Summertime, a ária-folk transformada pelo toque de génio de Janis Joplin.

Baseado no texto original de DuBose Heyward, Porgy and Bess é a ópera-folk que resultou do trabalho conjunto de George e Ira Gershwin - irmãos, compositor e letrista - em colaboração com Heyward, co-autor das letras. Nesta obra harmonizam-se  na perfeição os sons afro-americanos  do jazz, blues, gospel e soul com um estilo cénico mais musical. Levada à cena pela primeira vez em 1935, as estreias, em Boston e Nova Iorque, não obtiveram grande sucesso - nem perante a crítica, nem no que respeita a vendas de bilheteira.

A peça só conquistou o grande público a partir de 1959, após a adaptação cinematográfica que contou com um elenco de luxo, de onde se destacam os nomes de Sidney Poitier e Sammy Davis Jr.. A partir daí, o sucesso disparou e os temas de Porgy and Bess tornaram-se conhecidos de todos.

"Summertime", a canção de embalar cantada no acto I, e repetida mais algumas vezes ao longo da peça, acaba por ser a ária mais emblemática de toda a obra. Conhecem-se mais de 23.000 diferentes versões deste tema: desde instrumentais, como a obrigatória versão de Miles Davis, em que a letra cantada é substituída pela “voz” do trompete do mestre, às muitas tonalidades de vocalização, das quais sobressaem nomes tão grandes quanto os de  Billie Holiday (a primeira a chegar aos tops), Nina Simone, Sam Cooke, John Coltrane, Frank Sinatra e Janis Joplin.

 Na voz de Janis, Summertime parece ganhar asas e voar com vida própria, quase um improviso, todo ele alma, todo ele soul e blues, com uma guitarra que lembra uma peça clássica, quase um barroco, e uma outra a solar com distorção… Tudo isto com um “groove” próprio de uma grande banda de rock – como de facto o era a Big Brother and the Holding Company.

Editado em 1968 pela Columbia Records, Cheap Thrills é o último álbum de Janis com os Big Brother. A editora vetou tanto a capa como o título originais propostos pela banda, decerto em nome dos bons costumes que os americanos tanto prezam.

Em causa estavam um desenho de Robert Crumb, cartoonista, onde todos os elementos da banda apareciam nus numa cama, e o inspirado título “Sex, Dope and Cheap Thrills” (Sexo, Narcóticos e Emoções Baratas). A pedido de Joplin a capa acabou mesmo por sair da pena de Crumb, e foi considerada pelos leitores da Rolling Stone, como uma das dez melhores capas de disco de sempre.

"Summertime" foi um dos temas com que Janis encantou no festival de Woodstock. Foi também a última música do último espectáculo que os fãs puderam ver e ouvir ao vivo, em Agosto de 1970. Em Outubro desse mesmo ano, a rainha do rock/folk/blues psicadélico partiria na sua última viagem de heroína, da qual não iria regressar com vida…