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quarta-feira, 21 de novembro de 2018

QUEEN: A Night at the Opera [21 de novembro de 1975]

Há 43 anos, os Queen lançavam o álbum "A Night at the Opera".

O título foi "roubado" a uma comédia delirante dos irmãos Marx, que tem apenas uma coisa em comum com o álbum: a loucura e o espírito irreverente e desejoso de quebrar todas as convenções possíveis e imagináveis. O epíteto surgiu depois dos quatro terem visto o filme num dia de gravações, mas é completamente diferente, a "ópera" dos QUEEN: um misto de poesia, alucinações, drama, tragédia, comédia e farsa, que se tornou, à época, no disco mais caro de sempre, no que diz respeito ao seu budget. Mas os custos elevados foram recompensados: a obra foi um sucesso de público e de crítica, e hoje permanece, para a opinião especializada, como um dos trabalhos mais originais da banda. E com toda a razão. «A Night at the Opera» é um grandioso "vulcão em erupção", e um dos momentos mais fervilhantemente criativos de inspiração do grupo. Desde o princípio até ao fim que os QUEEN revelam outras máscaras do seu imaginário, elaborando ligações complexas com os álbuns anteriores, criando elos para o futuro e demarcando novas etapas artísticas que só ficariam registadas neste disco. O êxito percorreu os dois lados do Atlântico: tanto no Reino Unido, onde os QUEEN ganhavam um culto crescente, e nos EUA, num número de vendas que lhes proporcionou o primeiro disco de platina no país, as novas histórias e mensagens da banda chegavam aos fãs e a novos ouvintes que se deliciaram, pela primeira vez, com o estilo único e sempre surpreendente que caracteriza cada uma das 12 faixas do disco. Entre rock mais ou menos ligeiro e orquestral, e o pop de tendências mais ou menos surreais, surge um espectáculo operático como nunca se ouviu antes nem depois, misturado com baladas, danças e filosofias. Ouvimos melhor o talento de cada um dos quatro membros do grupo, já que existe uma maior diversidade na autoria das canções e não uma centralização mais notória na dupla May-Mercury.

«Death on Two Legs (Dedicated to...)» é uma música com uma intenção (pouco) subliminar, que os primeiros segundos em piano tentam esconder - mas que rapidamente desaparecem para dar lugar a outra tonalidade melodiosa. Percebemos que Freddie Mercury está a insultar alguém, com toda a mistura de sons, vozes e instrumentos que escutamos ao longo da canção, contagiante. É uma música surpreendente em que os artistas se vingam dos managers dos quais se tinham finalmente libertado, que trouxeram alguns problemas económicos e angústias aos QUEEN. Segue-se-lhe uma música completamente diferente (e neste álbum, cada tema pouco ou nada tem em comum com os que se lhe antecedem), «Lazing on a Sunday Afternoon», um tema com um certo toque vintage que faz lembrar certos divertimentos do mundo do espectáculo burlesco do século XX. «I'm in Love with My Car» é mais uma grande amostra do rock de Roger Taylor, e «You're My Best Friend», de John Deacon, é não só um dos temas mais emblemáticos do álbum como também um dos mais alegres e orelhudos. «'39», de Brian May, é uma música fabulosa, um hino que segue os moldes do estilo skiffle (proeminente nos EUA em inícios do século), com elementos espirituais e filosóficos, totalmente fora das "convenções" que os QUEEN criaram no seu estilo e que as pessoas imediatamente caracterizam - quem diria que esta música é dos mesmos fulanos que fizeram o «Killer Queen», perguntariam os ouvintes de 75?
Depois temos ainda espaço para os (grandes) divertimentos proporcionados por «Sweet Lady» e «Seaside Rendezvous», de May e Mercury respectivamente, que reflectem ideias menos desenvolvidas anteriormente com uma nova frescura e abordagem. Mas há dois épicos no disco: um deles é o mais notável (e já lá chegaremos), e o outro é o mais esquecido «The Prophet's Song», uma música de May com algo de  rock progressivo, apocalíptico e sci-fi que os múltiplos coros e a voz-protagonista de Mercury acentuam de uma maneira espectacular, com uma história própria e uma comparação notável entre as várias fases da mesma, flutuando entre o desespero da Humanidade e a esperança e a salvação trazida pelo tal profeta da cantiga. Uma canção brilhante e excepcional, que estabelece ligação com a melodia mais bonita do álbum: «Love of My Life», o tema de todos os apaixonados, ontem, hoje, e amanhã, uma poética composição de Mercury que reflecte as desilusões e contradições do amor e das relações humanas - e que se revelou num enorme êxito nos concertos da banda. Depois, há mais um tema "folião" e divertido, «Good Company», uma composição simples, mas não menos interessante, inspirada e encantadora, de Brian May, ao som de um ukulele.

E eis que chegámos ao "outro" épico deste disco, e a música mais marcante, a nível cultural, social e popular, de «A Night at the Opera». O que se pode dizer sobre esta epopeia de dimensões cósmicas que não tenha já sido referido em milhentas outras ocasiões? É uma música que tem tudo e mais alguma coisa, e permanece uma das peças-chave do repertório dos QUEEN. É uma delícia para os ouvidos e uma viagem de descoberta "ultimate" pelas alucinações e devaneios de Freddie Mercury. Deu ao grupo prémios, honrarias e aclamações que ainda vão durar mais umas quantas décadas, influenciou muita gente e foi alvo de diversas "homenagens" (a mais popular da actualidade será a formidável recriação do videoclip original pelos Marretas). E por fim, temos «God Save the Queen», uma impecável versão rock instrumental do hino da Grã-Bretanha, que fecha uma saga de acontecimentos históricos e musicais maiores que o mundo... mas couberam todos num único disco.

Freddie Mercury dissera mais tarde que, em «A Night at the Opera», os QUEEN tiveram espaço para fazer coisas que não puderam concretizar em «QUEEN II» e «Sheer Heart Attack». "Fizemos coisas com a guitarra e com as vozes como nunca havíamos feito antes. Não houve qualquer limitação". A isto se juntou a inspiração elevada do grupo, que deu origem a várias composições - muitas delas presentes neste disco, e que são das mais refinadas da sua discografia, e outras acabaram por originar êxitos de álbuns posteriores (Mercury começava a pensar nessa altura num certo tema intitulado «We Are the Champions»). Foi o disco que trouxe à banda a grandiosidade, e definiu-os de uma vez por todas como uma das figuras mais marcantes da sua época na música. E todas estas condicionantes se reflectiram num álbum maravilhosamente construído, equilibrado, original, inovador e intemporal, que felizmente, continua tão forte, vivo, audaz e irresistível como há 43 anos. Nessa altura, todos estavam muito inspirados e contribuíram para este álbum genial de igual maneira. Surpreende a cada canção e a cada criação que os QUEEN transformam e retransformam em mil e uma metamorfoses, contradizendo-se constantemente nos seus temas e nas intenções de cada um - e isso, aqui, é algo muito importante, e incrível. Um disco imparável e excepcional, que marca o topo da primeira década de actividade dos QUEEN.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Freddie Mercury tinha uma voz inigualável. Quem o diz agora é a ciência.

Freddie Mercury é, para muitos, o maior vocalista de sempre - tanto, que mesmo quem não seja fã dos Queen o consegue reconhecer. E, agora, um estudo científico da sua voz parece dar-lhes razão.
Um grupo de investigadores austríacos, checos e suecos passou os últimos anos a analisar a voz de Freddie Mercury, tendo reunido as suas descobertas e conclusões num trabalho entretanto publicado no Logopedics Phoniatrics Vocology, jornal oficial da British Voice Association.
Uma das suas descobertas foi a de que Mercury, apesar de ser reconhecido como tenor, era provavelmente barítono, tendo para tal analisado seis entrevistas do músico e descoberto uma frequência média de fala de 117.3 Hz.
Não só isso, como ainda contrataram um vocalista profissional, Daniel Zangger-Borch, para imitar a voz de Mercury, de forma a poder filmar a sua laringe e observar exactamente como o vocalista dos Queen criava a sua voz.
Este trabalho de investigação só confirma o que todos já sabiamos: Freddie Mercury possuía uma voz única.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

QUEEN – Bohemian Rhapsody

Bohemian Rhapsody é, para mim, aquela que poderia ser considerada, simplesmente, a “mãe” de todas as músicas, por tudo aquilo que a torna única: primeiro, porque “mãe há só uma” e Bohemian Rhapsody também =P; segundo, por ser uma obra-prima como mais ninguém conseguiu fazer (nem mesmo os próprios Queen conseguiram repetir o feito); e, por último, a intemporalidade da música, que ainda hoje ouvimos sem achar “antiga”… ou melhor, reconhecemos que é “antiga”, mas não desactualizada.
Foi em 1975 que o quarteto britânico lançou A Night At The Opera, já em si um primor de produção, de onde se destacou, precisamente, Bohemian Rhapsody, a par da balada Love Of My Life e outros êxitos (a título de curiosidade, é de lembrar que os Queen continuam a ser a única banda até agora em que cada um dos membros escreveu pelo menos um “hit”).
O que torna esta música tão especial é o facto de parecer uma autêntica “manta de retalhos” em que cada bocado foi habilidosamente ligado ao seguinte, sendo o resultado obtido uma mistura de estilos musicais extremamente bem conseguida em que tudo parece estar no sítio certo. As passagens do pop/rock inicial em ritmo de balada para o estilo ópera a meio da música e, depois, deste para a batida mais heavy que termina com o regresso aos ritmos mais calmos foram de tal forma executadas que a sensação que nos dá é a de que “só podia ser mesmo assim”, aquelas passagens fazem sentido, não haveria outra hipótese de o fazer. A magia desta música encontra-se precisamente aí, na forma como os Queen conseguiram aquilo que, mesmo para os produtores que trabalhavam com eles na altura, parecia um falhanço garantido. Como hoje se sabe, estavam enganados.
Para terminar, é de referir o facto de esta música ter sido das primeiras (se não mesmo a primeira) a ter um vídeo promocional especificamente feito com esse propósito, o que também ajudou muito no sucesso desta obra-prima.

domingo, 9 de março de 2014

FREDDIE MERCURY... Insinuação, alusão...

Freddie Mercury (cujo nome verdadeiro era Farrokh Bulsara, nascido em 1943 em Zanzibar) morreu a 24 de Novembro de 1991. A notícia surpreendeu toda a gente, sendo de todo inesperada a morte de alguém que, goste-se ou não, tem o seu lugar cativo na história do rock.

Todavia, e no que à surpresa causada concerne, se é certo que Mercury não divulgou a sua doença, diagnosticada ainda nos anos 80 – apenas o tendo feito na véspera do seu decesso – não menos certo é que já o tinha anunciado, alto e bom som, através do álbum “Innuendo”, lançado pelos Queen em Fevereiro de 1991.

E de que modo o fez?

Ora, quer o álbum, quer a primeira faixa do mesmo, têm como título “Innuendo”, o que em inglês quer dizer insinuação, alusão. Imediatamente a seguir à canção “Innuendo”, como que materializando a insinuação que se pretende fazer, surge a faixa “I’m going slightly mad”, em que Mercury, consciente da fase final da doença em que se encontrava, canta “I’m one card short of a full deck, I’m not quite the shilling, One wave short of a shipwreck, I’m not my usual top billing, I’m coming down with a fever, I’m really out to sea, This kettle is boiling over, I think I’m a banana tree. Oh dear”, rematando a canção com a frase “And there you have it”. Prossegue o caminho, e na autobiográfica faixa “These are the days of our lives”, Mercury canta “Cause these are the days of our lives, They’ve flown in the swiftness of time, These days are all gone now but some things remain, When I look and I find no change.”
O recado a quem fica é deixado para o epílogo, “The Show Must Go On”. Ninguém reparou…