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quarta-feira, 1 de março de 2023

“The Dark Side of The Moon”: a obra-prima dos Pink Floyd celebra 50 anos

Capa do disco “The Dark Side of the Moon” da autoria de Storm Thorgerson e George Hardie

No dia 1 de Março de 1973, os Pink Floyd lançavam o trabalho de originais que viria a revolucionar uma era musical. The Dark Side of The Moon, seria assim o nome do oitavo álbum de estúdio do conjunto britânico que teve um impacto gigantesco. Com recordes de vendas quebrados em todo o mundo, estimando-se que tenham sido vendidas cerca de 45 milhões de cópias até hoje, The Dark Side of The Moon é muito mais do que um álbum de música que projectaria os Pink Floyd para um patamar estratosférico. Trata-se também de uma explosão musical com letras fortes que abordam temas profundos como tempo, dinheiro, ambição, depressão, loucura e morte. O rock progressivo, com uma forte componente psicadélica e inovadora, envolvendo outros estilos musicais, veio a demonstrar na perfeição o potencial do conjunto. Esta combinação resultou numa das maiores obras-primas musicais alguma vez produzidas até hoje, sendo ainda uma referência meio século após o seu lançamento.

Na altura os Pink Floyd contavam com o quarteto já bem conhecido desde alguns anos, constituído pelo baixista Roger Waters, o guitarrista David Gilmour, o teclista Richard Wright e o baterista Nick Mason. Já sem Syd Barrett, o mentor e fundador da banda que fora afastado dado os seus problemas com o LSD, apresentado uma saúde mental completamente deteriorada pelo seu consumo excessivo, o conjunto procurava insaciavelmente o álbum que viesse a dar o clique na sua carreira. Potencial e talento não lhes faltava, e já eram reconhecidos como uma banda promissora. Porém, as vendas dos álbuns anteriores pouco rendiam, nunca passando do meio das tabelas de vendas. Nos concertos apareciam maioritariamente fãs fiéis ao estilo da banda, embora na altura já tivessem um número de seguidores bastante considerável. 

Faltava qualquer coisa aos Pink Floyd para que se pudessem finalmente afirmar como uma das maiores bandas do momento. O trabalho árduo do conjunto, que lançava álbuns de originais todos os anos, não era suficiente. O rock psicadélico, que com o tempo e com a adição de outras nuances viria a transcender para um rock progressivo, captava a atenção de um grupo restrito de apreciadores do estilo. Era necessário algo mais, e estava difícil de encontrar uma fonte de inspiração capaz de os projectar para patamares nunca antes vistos. Porém, foi mesmo no lado negro da lua, onde os Pink Floyd finalmente encontrariam inspiração para o trabalho que teria esse mesmo nome: The Dark Side Of The Moon. O título inspirador advém do facto do movimento de rotação e de translação da Lua em torno da Terra coincidirem, sendo ambos 28 dias. Deste modo apenas conseguimos ver uma das faces iluminada pelo Sol, sendo que a outra é designada por lado escuro ou lado negro da lua.

Para além desta conotação ao espaço, com enorme foco no nosso satélite natural, outro elemento científico também surge. A capa, feita pelo designer gráfico Storm Thorgerson, exibe um triângulo num fundo negro, inspirado nas pirâmides do antigo Egipto, representado um prisma onde a luz branca é difractada nas diferentes cores que a compõem. Esta experiência foi realizada pela primeira vez por Isaac Newton, conhecido físico britânico que deixou um enorme legado na ciência, havendo assim uma alusão aos efeitos de luz que já eram bastante característicos dos concertos dos Pink Floyd, e também à diversidade da banda. A imagem, embora simples mas extremamente carismática, tornou-se num sucesso de marketing, não só com o álbum, mas também com t-shirts, posters, e os outros acessórios com a imagem exposta. Durante vários anos existiu uma teoria de que a grande inspiração de The Dark Side of The Moon terá sido cinematográfica, nomeadamente com O Feiticeiro de Oz  (The Wizard of Oz), filme de 1939 que ficou para sempre na história da sétima arte. Se passássemos o filme em simultâneo com o disco, havia cenas do filme que coincidiam com passagens das canções, efeito que ficou conhecido como Dark Side of The Rainbow. Esta história terá sido desmentida pelos membros do conjunto, não passando de coincidências que, por ordem do acaso, aconteceram.

O álbum viria a ser gravado nos estúdios Abbey Road, pela editora Harvest Records entre Maio de 1972 e Fevereiro de 1973, e em parceria com o engenheiro de som Alan Parsons e com a editora norte-americana Capitol Records. Os estúdios Abbey Road foram sempre fortemente associados aos Beatles pois foi o local onde gravaram a maioria dos seus trabalhos originais, para além de também ser o título de um dos seus álbuns de estúdio, o que também viria a impulsionar o sucesso deste trabalho dos Pink Floyd. Nunca fugindo à grande inspiração do quarteto naquele que foi o seu grande mentor, Syd Barrett, algumas das letras das canções de The Dark Side Of The Moon retratam a loucura e a depressão que lhe foram diagnosticadas. Já praticamente afastado da música, após a sua saída da banda e de uma carreira a solo de pouco sucesso, Syd ficaria sempre como o grande inspirador dos Pink Floyd e o sucesso do conjunto jamais faria com que isso fosse esquecido. A sua verdadeira homenagem viria dois anos mais tarde com Wish You Were Here, um álbum inteiramente dedicado a Syd Barrett, o tributo merecido após o sucesso de The Dark Side Of The Moon.

As letras foram todas escritas por Roger Waters, tornando-o à época no principal mentor dos Pink Floyd que, ao combinar com a excelência de cada um dos membros, fez com que a banda britânica voasse para um estatuto lendário na música rock. As canções já teriam sido compostas há algum tempo e a tour do álbum iniciar-se-ia logo no início de 1972, numa altura em que a gravação em estúdio ainda nem sequer tinha começado. Tal tour, intitulada “The Dark Side of The Moon – A pieced for assorted lunatics“, viria a ser uma espécie de primeiro ensaio ao álbum que estava prestes a ser editado. As canções apresentavam-se ainda num estilo embrionário, mas captariam a atenção do público que ansiava pela gravação de um álbum de originais com o material apresentado em palco. Assim, viria a surgir The Dark Side of The Moon, um álbum que marcaria a década de 70 e que se manteria bem vivo nos anos vindouros. Sobreviveria a toda uma conjuntura de novas variantes no rock que acabariam por dominar as décadas seguintes após o seu lançamento, continuando ainda a ser uma referência musical nos dias de hoje.

Embora em pleno século XXI este seja um álbum audível em qualquer serviço de streaming, em 1973 foi gravado e comercializado em disco vinil. Começando pelo lado A do disco, Speak to Me é a faixa que dá início a The Dark Side of The Moon, tendo sido composta pelo baterista Nick Mason. Trata-se de uma mistura de diversos sons iniciando-se com um batimento cardíaco que rapidamente se mistura com tiquetaques de relógios, efeitos de máquinas registadoras, hélices e risos, introduzindo alguns dos efeitos presentes nas canções futuramente apresentadas. Terminando com um grito interpretado por uma voz feminina, Speak to Me encerra com uma espécie de Big Bang musical, dando a indicação de que uma origem foi assim encontrada.

Essa origem surge com a canção Breathe (In The Air), marcado por um tom calmo, conjugando uma mistura harmoniosa entre os instrumentos da banda. No seio dessa harmonia surge a voz de David Gilmour ao cantar os versos “Breathe in the air / Don’t be afraid to care”, que acaba assim por dar o título a esta canção. Com uma letra simples mas bastante marcante, Breathe (In The Air) acaba por iniciar uma obra musical que prometeria ter tudo para dar certo, revelando um enorme equilíbrio entre os quatro membros do conjunto. Embora o rock progressivo com a forte matriz psicadélica estejam presentes, Richard Wright admitiu que ter-se-á inspirado no álbum Kind of Blue de Miles Davis, quando estava a compôr a canção.

On The Run, terceira faixa, é puramente instrumental, envolvendo sons electrónicos gerados por dois sintetizadores (um Synthi e posteriormente um VCS 3) em modo acelerado, que juntos criam uma espécie de efeito de doppler. Este fenómeno físico ocorre quando ocorre quando uma fonte de onda (neste caso o som) e o observador estão em movimento um em relação ao outro. Toda a faixa dá a sensação de movimento, como se a fonte de som se afastasse e aproximasse do ouvinte, dando a sensação de que se trata eventualmente de uma viagem espacial. Inicialmente denominada por The Travel Sequence, apresentando-se numa versão bastante diferente, esta tratava-se de uma melodia mais progressiva e não tanto electrónica como a versão hoje conhecida. São também audíveis sons de hélices, risos e frases soltas, assemelhando-se a um passageiro em pleno aeroporto. A canção termina com uma gargalhada e com o estrondo de um avião a despenhar-se.

De seguida ouvem-se tiquetaques que passado alguns segundos se elevam para o som de despertadores e campainhas de relógios em sintonia, que surgem com Time. O baixo de Roger Waters acaba por gerar um compasso dos segundos, que acompanha uma percussão fabulosa de tambores, executada por Nick Mason durante os primeiros minutos. Quando a percussão passa subitamente dos tambores para a bateria, David Gilmour volta a projectar a sua voz numa das canções mais emblemáticas no álbum, com um dueto feito a meias com Richard Wright. Após o dueto, um magnífico solo de guitarra de David Gilmour acompanhado pelos restantes instrumentos e pelos coros de apoio toma conta desta canção, vislumbrando o potencial musical do conjunto britânico. Voltando novamente a um registo igual ao do dueto inicial, com as duas vozes a dar continuidade a canção, Time termina com a continuação de Breathe (designada por Reprise). Aqui, a voz de David Gilmour começa por entoar “Home, home again / I like to be here when I can”, terminando da mesma forma que a versão original de Breathe (In The Air).

The Great Gig in The Sky surge com um piano tocado por Richard Wright, com os instrumentos a emergirem levemente, seguindo-se da frase entoada por Gerry O’Driscoll, o porteiro dos estúdios Abbey Road “And I am not frightened of dying. Any time will do, I don’t mind. Why should I be frightened of dying? There’s no reason for it – you’ve got to go sometime”. Após estas palavras, uma explosão musical ocorre com a poderosa voz de Claire H. Torry projectada em forma de cântico, sendo esta uma canção que não apresenta qualquer conteúdo lírico por detrás. Inicialmente denominada por “The Mortality Sequence“, numa versão sem vocais, e depois para “The Religion Song“, The Great Gig in The Sky remete para um cântico religioso ou até mesmo fúnebre. Na segunda metade da canção apenas são audíveis o piano de Richard Wright e a voz de Claire H. Torry, sem quaisquer outros instrumentos, terminando o lado A do formato vinil de The Dark Side of The Moon.

O lado B começa com o som de uma máquina registadora antiga que se mistura com o som de moedas a cair, dando início a Money. O compasso marcado pelo baixo de Roger Waters torna-se também numa imagem de marca da sexta faixa de The Dark Side of The Moon, provavelmente a mais emblemática do álbum. Interpretada pela voz de David Gilmour, exibindo uma letra que lança fortes críticas ao capitalismo e à sociedade de consumo, visível logo nos versos iniciais “Money, get away / You get a good job with more pay, and you’re okay”, esta tornou-se numa das mais poderosas canções de toda uma era musical. Após a primeira parte vocal, surge um solo de saxofone interpretado por Dick Parry, músico que viria também a colaborar com os Pink Floyd em trabalhos posteriores, e que daria também um grande contributo a este álbum. A sua performance termina com a bateria acelerada de Nick Mason que dá início a uma sinfonia efervescente, conjugando os diferentes instrumentos, com especial destaque para o solo de guitarra de David Gilmour. Voltando novamente à parte vocal de Gilmour, a canção termina com uma conversa e com frases soltas. Ironicamente, Money viria a ser a canção que tornaria os Pink Floyd milionários, sendo uma das canções mais efusivas de todo o repertório da banda que gerou furor sempre que passava nas estações de rádio e sempre que era exibida nos concertos.

Num registo mais suave, e introduzida por um órgão tocado por Richard Wright, surge a canção Us and Them que conta também com o saxofone de Dick Parry bem assente. Esta canção fora inicialmente denominada por The Violent Sequence quando foi composta por Richard Wright para o filme Zabriskie Point (Deserto de Almas), realizado por Michelangelo Antonioni em 1970. Com uma letra que descreve a natureza das consequências da guerra, criticando o materialismo e o consumismo, Us and Them consegue envolver o rock progressivo dos Pink Floyd com uma forte componente de jazz. A canção é novamente interpretada pela voz de David Gilmour, tendo no refrão o contributo da voz de Richard Wright. Antes do solo de saxofone, surge um diálogo interpretado por Roger Meinfold, um roadie que acompanhou a banda durante as tours dos anos 70. Seguem-se os coros vocais e os instrumentos em enorme harmonia, voltando novamente à componente vocal que encerra a canção mais longa do álbum com quase oito minutos de duração.

O rock psicadélico inerente nos Pink Floyd torna-se evidente com Any Colour You Like, uma faixa puramente instrumental cujo título remete para as cores do espectro de luz difractado na capa. Trata-se de uma harmoniosa conjunção dos instrumentos do conjunto, onde o sintetizador VCS 3 tocado por Richard Wright toma conta da primeira metade da canção enquanto que a segunda metade é dominada pela guitarra de David Gilmour. Acaba por ser uma mistura de rock psicadélico com jazz, funk e electrónica, dando também corpo ao álbum.

Após esta envolvente surge Brain Damage, canção interpretada pela voz de Roger Waters. A canção fora inicialmente denomida por “Lunatic” devido aos versos que decorrem ao longo da melodia “The Lunatic is on the grass […] The Lunatic is in my head”. É aqui que também surge o nome do álbum, com cada quadra a terminar com a frase “I’ll see on the Dark Side of The Moon”, nesta alegre melodia que acaba também por deixar uma marca forte neste trabalho. Durante a melodia são audíveis várias gargalhas de Peter Watts, pai da actriz Naomi Watts, o engenheiro de som que trabalhou nas gravações deste álbum, sendo esta uma canção que retrata a loucura no sentido literal da palavra.

O álbum não poderia deixar de terminar sem um fenómeno astronómico, neste caso com um eclipse. Eclipse é décima e última faixa do álbum e dá continuidade a Brain Damage. Novamente interpretada pela voz de Roger Waters, esta canção trata-se de uma espécie de lengalenga que se inicia com “All that you touch / All that you see / All that you taste or you feel” e que segue sempre com a palavra “All” no início de cada verso. Aumentando de intensidade com o tempo, onde os instrumentos e os coros de apoio vão ganhando notoriedade, esta canção termina com uma espécie de premissa filosófica: “And everything under the sun is in tune, but the sun is eclipsed by the moon”. Ainda em adição, outra frase poderosa proferida por Gerry O’Driscoll surge após o término da melodia: “There’s no Dark Side of The Moon really, In matter of fact is all dark.”. A canção termina com o batimento cardíaco inicialmente introduzido em Speak to Me, e que assim conclui aquele que é o lado negro da lua apresentado pelos Pink Floyd: The Dark Side of The Moon.

Mais do que um álbum de música, que contém nuances musicais muito para além do rock psicadélico e progressivo característico dos Pink Floyd, The Dark Side Of The Moon apresenta um conteúdo lírico de enorme impacto numa década de grandes transformações, não só musicais, mas também sociais. Dado o sucesso, houve alguma disputa no que toca aos créditos do álbum, relativamente à hegemonia que Roger Waters teria sobre a banda nos anos seguintes e dos atritos com os restantes membros. Também surgiram controvérsias relativamente ao pagamento dos engenheiros de som e dos músicos contratados para a sua gravação. Tendo em conta a explosão que The Dark Side of The Moon teria, a conta bancária dos membros dos Pink Floyd ficaria bem recheada e a compensação aos colaboradores não terá sido proporcional ao sucesso. Controvérsias que ainda perduram, mas que apenas vieram a comprovar que o sucesso também sai caro e que só se consegue alcançar através de um trabalho conjunto, acabando por ser mais ingrato para uns do que para outros.

Meio século depois, The Dark Side Of The Moon é um álbum considerado por muitos como uma das obras musicais mais vanguardistas de sempre, continuando a ser uma referência e um exemplo para a maioria dos intérpretes da música rock nos dias de hoje. E de facto, The Dark Side Of The Moon permanece actual, conseguindo ter o mesmo impacto como tivera em 1973 quando foi dado a conhecer ao mundo. Ainda está por definir qual o limite da longevidade deste álbum que acabou por ser um autêntico estouro daquilo que foram os Pink Floyd, colocando-os para sempre com o estatuto de uma das maiores bandas de todos os tempos. O triângulo, com o feixe de luz a incidir do lado esquerdo e as cores do arco-íris difractadas do lado direito, continua a ser um símbolo clássico da música rock. As canções, e sobretudo as letras do álbum, permanecem actuais, sendo um exemplo de maturidade, ousadia e acima de tudo de grande criatividade. Ao fim e ao cabo, não existe propriamente um lado negro da lua pois, sendo um corpo celeste sem luz própria, acaba por reflectir a luz do sol. Mas é no lado mais brilhante da música, onde estão as grandes peças musicais que se conseguem aproximar da eternidade, que conseguimos encontrar em grande plano The Dark Side Of The Moon dos Pink Floyd.

quinta-feira, 2 de junho de 2022

Pink Floyd - Obscured by Clouds (publicado a 2 de junho de 1972)

Não sendo precisamente o típico álbum de Pink Floyd, Obscured by Clouds, banda sonora para o filme La Valée, de Barbet Schroeder, é uma espécie de tesouro escondido.

Obscured By Clouds é um disco mais calmo, pausado, com imagens pastorais, um pouco ao estilo do que a banda estava a fazer, nomeadamente em Atom Heart Mother e Meddle. Músicas como “Burning Bridges” e “Wot’s…Uh the Deal ” trazem das melhores interpretações voz-guitarra de David Gilmour.

É em Obscured by Clouds que Roger Waters começa a dar os primeiros passos para a sua visão mais intimista e psicótica em relação ao mundo. “Free Four”, encoberta por uma melodia mais pop a fazer lembrar os Kinks ou T-Rex, esconde no seu interior letras sobre morte, envelhecimento, cinismo e tristeza que iriam ser muito exploradas nos discos seguintes da banda. Juntando alguns números instrumentais bem conseguidos, este disco, esquecido pela crítica e público, consegue ser mais do que uma banda sonora a um filme mediano, acabando por singrar por si próprio.

sábado, 30 de novembro de 2019

Pink Floyd: 40 anos de um muro nascido da alienação

40 anos após o seu lançamento, a 30 de novembro de 1979, relembramos um dos discos mais importantes do percurso dos Pink Floyd, composto numa altura da carreira dos britânicos em que tudo parecia estar a ruir à sua volta. O isolamento e o medo foram a base da sua construção, mas sobressai uma mensagem de esperança. Eis “The Wall”, numa época em que voltamos a falar de muros.

Hello?
Is there anybody in there?

Mas não estava. O mundo parecia, aos olhos de Roger Waters, um vazio imenso e inóspito para onde fora atirado em nome do estrelato, onde em cada esquina uma sanguessuga se dispunha a deixá-lo apenas ossos, onde a verdade havia sido substituída por uma década de luzes e de trips psicadélicas, de histórias sobre loucura e morte, de saudades de amizades passadas, de governos maquiavélicos. O mundo, para Roger Waters, deixara de ser um conforto. Pior ainda: o mundo era-lhe agora desconhecido.

O culpado, o muro. Não um muro físico, mas um muro psicológico, mental, que o escondia numa tentativa de o fazer sobreviver, mesmo que essa perspetiva fosse, a cada dia, menos gloriosa. Waters, e os Pink Floyd, tinham chegado às posições cimeiras a que todas as bandas almejam; mas o resultado, como num pacto faustiano, não veio sem os seus sacrifícios. A perda de Syd Barrett em 1968 fora a primeira. As dívidas excessivas vieram a seguir. O isolamento dos membros do grupo, que progressivamente o deixaram de ser na verdadeira aceção de “grupo”, teimavam em rasgar a pele e os corações. E Waters, que tomou as rédeas dos Pink Floyd na era pós-Barrett, mostrava-se cada vez menos disposto a abrir-se ao mundo, a abrir mão da sua criatividade para a juntar às dos outros.

É certo que este isolamento nos deu obras ainda hoje canónicas dentro do rock: “Dark Side of the Moon” (1973), “Wish You Were Here” (1975) e “Animals” (1977) são peças fundamentais para perceber o quão revolucionários foram os Pink Floyd, e Roger Waters, dentro da história do género. Mas também nos deu uma outra, dolorosa, por se assemelhar tanto ao diário que o baixista poderia ter mantido ao longo dessa década de 70, sob a forma de uma alegoria: “The Wall”.

A história começa com o muro e o muro começou a ser construído muito antes dos Pink Floyd. Em 1944, com apenas cinco meses de idade, Waters perderia o pai na II Grande Guerra, durante a chamada Operação Shingle, na Itália, onde mais de 43 mil soldados Aliados perderam a vida. O trauma cresceria durante a infância e seria figura omnipresente ao longo de quase toda a sua vida. Um trauma que depressa se transformaria num sentimento de traição. Eric Fletcher Waters, o pai, tinha-se declarado objetor de consciência no período da Guerra, mudando as suas posições pacifistas mais tarde e juntando-se ao exército britânico. A traição sentida está precisamente nisso: no facto de Eric ter abandonado os seus ideais, apenas para, em última análise, morrer.
Não foi a única traição. No final dos anos 70, os Pink Floyd estavam no topo do mundo – nem a explosão punk os conseguiu tirar do pedestal – mas o sucesso, como comprovado vezes sem conta, é uma faca de dois gumes. Mais discos e mais concertos esgotados significavam mais pessoas, mas não necessariamente uma compreensão da mensagem (filosófica, política) que os Pink Floyd e Waters tentavam fazer passar. Os britânicos tinham uma audiência, mas esta era surda. E o ponto de ebulição foi atingido em 1977, durante um concerto no Estádio Olímpico de Montreal, parte da digressão “In the Flesh”, na qual os Pink Floyd tocaram pela primeira vez em estádios.

«Odiei, porque [os concertos] se tinham transformado num evento social, e não numa relação normal e controlada entre músicos e o público. As filas da frente gritavam, abanavam, não prestavam de facto atenção ao que ouviam. Quem estava mais atrás, não conseguia ver nada...»

A alienação sentida entre Waters e público, derivada desta mesma ideia – que parece soar tão verdadeira ainda hoje... – levou o músico a fazer algo que até então seria impensável: cuspir num dos seus próprios fãs, uma espécie de equivalente musical do famoso pontapé de Eric Cantona num adepto do Crystal Palace. E, ao contrário do que pensavam os punks de 1977, sempre dispostos a escarrar para o palco, a saliva não era de todo um elogio. Waters terminava a construção do seu muro, a antítese da ideia de humanidade: ela não existe se nos isolarmos dos humanos. Mas havia que deitá-lo abaixo, voltar a subir à tona de água para respirar.

O primeiro passo, de forma algo paradoxal, foi o de reconstruir esse muro, musical e literariamente. “The Wall” é sobretudo a história de Roger Waters e de como ele foi sofrendo até não aguentar mais, ao longo da sua carreira. História essa que é personificada por Pink, artista rock que vê o pai morrer na Guerra, que sofre bullying por parte dos seus professores primários, que se torna numa estrela amante de todo o tipo de deboches e que se isola do mundo em agonia misantropa, imaginando-se fascista e genocida, até um julgamento criado na sua própria cabeça o levar a descobrir que (ainda) há verde na Terra.

Já nos Pink Floyd, havia o vermelho: em 1978, as finanças do grupo estavam de tal forma sumidas que era necessário compor imediatamente um disco. Culpa do Norton Warburg Group, empresa de gestão financeira a quem os britânicos haviam confiado o seu dinheiro e que o perdeu em diversos investimentos de risco. Não fosse por “The Wall” e os Pink Floyd poderiam muito bem decretado falência e terminado logo ali, há 40 anos. Mas compô-lo poderia ser uma tarefa complicada sem alguém que lhes mostrasse o caminho. E esse alguém foi o produtor Bob Ezrin, que havia trabalhado com nomes como Alice Cooper ou Lou Reed e que ajudou a banda, e Waters, a encontrarem-se.
O resultado é uma das obras mais densas da carreira dos Pink Floyd, e o disco a que commumente associamos a expressão “ópera rock” (mesmo que “Tommy”, dos Who, o preceda em dez anos). Uma hora e vinte minutos de magia e soberba musical, agrupando vários estilos distintos: rock espacial ('In the Flesh?'), pós-rock antes de o termo ser cunhado ('Another Brick in the Wall, Part 1'), disco ('Another Brick in the Wall, Part 2'), abordagens folk ('Mother'), ópera propriamente dita ('The Trial') e, claro, o lamento elétrico de 'Comfortably Numn', onde os solos de guitarra de David Gilmour tomam a dianteira e elevam todo “The Wall” ao estatuto de culto.

Para além do som, a imagem – não só a que era criada em cada ouvinte com recurso aos poemas de Waters, mas também a que, em 1982, chegou aos cinemas pela mão de Alan Parker e Gerald Scarfe, com Bob Geldof no papel principal. “The Wall”, o filme, foi três anos após o disco um enorme sucesso a nível da crítica, e quiçá o “culpado” de ainda hoje falarmos da música com tanto respeito e carinho. A fusão perfeita entre todos os modos de criação. Uma obra de arte total.

À altura, nem foi visto dessa forma: muitos críticos insurgiram-se contra o maximalismo e o pretensiosismo da obra (convenhamos que, no final dos anos 70, o punk olhava dessa forma para tudo o que não fosse feito a partir de três acordes), que só começou a ganhar um estatuto canónico nas décadas seguintes ao seu lançamento. Mas o que a crítica não via, via-o o público, que o levou ao número um das tabelas de vendas durante várias semanas. Ao álbum, e à canção que com o passar do tempo granjeou um estatuto ainda maior que o do álbum: 'Another Brick in the Wall, Part 2', que fora do seu contexto passou a ser interpretada por milhões de gargantas por todo o mundo como canção de protesto. We don't need no thoughts control...

Para além de todo o existencialismo presente na obra, e se calhar é essa a sua maior virtude, está o facto de também transmitir uma mensagem de esperança aliada a um conselho precioso: quanto mais nos isolamos do mundo, quantos mais muros construímos, mais abrimos espaço ao ódio quando deveríamos fazê-lo com o amor. O disco termina e começa com uma frase cortada a meio – Não foi por aqui que viemos? – atestando à natureza cíclica dos muros, um loop imenso de depressão e apatia. Mas essas podem ser vencidas, e os muros podem ser derrubados, e as lutas podem ser constantes e eternas para nos lembrar de que estamos vivos. A grande lição de um disco como “The Wall”, relembrando sempre que um muro físico nos tolda o senso comum (seja em Berlim, seja em Israel, seja nos Estados Unidos), é a de que a fragilidade e o medo existem para serem vencidos. 40 anos depois, não olvidemos essa mensagem.

terça-feira, 6 de março de 2018

David Gilmour lança "On an Island", o seu 3º álbum a solo, há 12 anos.

“Remember that Night…white sails in the Moonlight…”

Já lá vão 24 anos desde o último disco de estúdio dos Pink Floyd – “The Division Bell”!
David Gilmour, ao contrário do que muitos pensaram, decidiu não prolongar por muito mais tempo a carreira do grupo “post- Roger Waters”.
Nos sete anos seguintes, a carreira musical ficou para trás. Montou uma empresa de aviões, casou-se, teve filhos e ajudou as mais diversas causas humanitárias pelo mundo fora. E foi precisamente por essas causas, que Gilmour voltou acidentalmente ao activo.
Estávamos em Julho de 2005. Bob Geldof organizador do “Live 8” consegue convencer os Pink Floyd (Gilmour, Mason e Wright) a juntarem-se a Roger Waters para uma actuação única e histórica em Hyde Park.
O grupo conseguiu não só convencer os mais cépticos (que nunca acreditariam em tal reunião), como também uma geração nova de fãs, ávidos de voltar a ver os Pink Floyd ao vivo. Nos meses seguintes, gerou-se uma enorme expectativa sobre o regresso dos Floyd à ribalta. Contudo, David Gilmour (detentor legal sobre os direitos de utilização do nome do grupo) optou por negar todos os rumores e pôs um ponto final na carreira da banda de Dark Side of the Moon.
"On an Island" foi o terceiro disco a solo de Gilmour, depois de "David Gilmour" (1978) e "About Face" (1984). A acompanhar o guitarrista, está um elenco de luxo: Rick Wright, teclista dos Pink Floyd; Guy Pratt, baixista das últimas digressões dos Pink Floyd; Robert Wyatt, vocalista e baterista dos Soft Machine e Phil Manzanera, guitarrista dos Roxy Music e co-produtor do álbum.
Musicalmente, o álbum é irrepreensível e transporta-nos imediatamente para os ambientes de nostalgia “Floydiana”. Basta escutar o primeiro tema, “Castellorizon” e está lá tudo. Os solos de guitarra imaculados, os teclados ambientais a juntar aos efeitos sonoros tão característicos da história da banda.
A voz de Gilmour continua fresca, no tema “On an Island” encontram-se afinidades com “Echoes” (de Meddle, 1971) e “Fat Old Sun” (de Atom Heart Mother, 1970). Liricamente é o melhor tema do álbum, com as vocalizações de Graham Nash e David Crosby a brilhar por entre os olhares do céu estrelado e viagens perdidas no meio do Oceano.
A nostalgia do tempo que já passou (“Pocket Full of Stones”), as pressões da meia idade (“Take a Breathe”) acabam por afectar a maré de um álbum, onde as letras a atirar para o Phil Collins, são o ponto menos bem aproveitado do disco (escute-se “This Heaven” ou “Smile”).
Polly Samson, jornalista e mulher de Gilmour, não tem certamente a visão “newtoniana” e inspirativa de um Roger Waters ou a alucinação criativa de um Syd Barrett. Não é propriamente um disco dos Pink Floyd, mas não anda longe. 

terça-feira, 1 de março de 2016

Álbum “The Dark Side of the moon” (1973), editado há 43 anos

Pink Floyd é sinónimo de qualidade, de distinção, de megalomania, de inovação e de originalidade.

Numa palavra eu diria únicos. Será sempre um risco elaborar tabelas qualitativas pois serão eternamente subjectivas, mas se me perguntassem qual a melhor banda de todos os tempos eu responderia o seu nome.

A sua impressionante discografia e invejável carreira ditam isso mesmo. Os números não mentem. Este é simplesmente o 2º álbum mais vendido da história, apenas ultrapassado pelo recordista de vendas, Thriller do rei da pop. 

Mais impressionante (se isso é possível) é o facto de este ter permanecido nos «charts» qualquer coisa como 741 semanas. Desde 1973 a 1988! Resultado? Uns impressionantes 45 000 000 de discos vendidos!

Dos estúdios de Abbey Road, eternamente ligados ao quarteto fantástico de Liverpool, os Beatles, saiu este pico na história dos Pink Floyd de David Guilmor, Roger Waters, Rick Wright e Nick Mason. Posterior ao muito progressivo Meddle, que explorou caminhos ainda hoje algo confusos mas eternamente fascinantes, Roger Waters sentiu que algo devia mudar. As palavras tinham de chegar às pessoas de uma forma mais directa.

«Speak to Me» é uma espécie de introdução ao álbum passando, através de pormenores e efeitos sonoros, por certos pontos do álbum. O toque psicadélico e progressivo é facilmente perceptível logo à primeira audição. O efeito transe é resultado da mestria demonstrada pelo falecido Rick Wright nas teclas e no uso divinal que os Pink Floyd deram aos sintetizadores. Provando que a música não tem barreiras, e que a sua mensagem vai para além do empreendedorismo hippie, atravessando momentos de autêntica Filosofia, este tema, com duas frases apenas anuncia uma epopeia de outro Universo.

«I've been mad for fucking years, absolutely years. I've been over the edge of yonks. Been working me buns off, 'till i went crazy...
I've always been mad, I know I've been mad, like the most of us are. It's very hard to explain why you're mad, even if you're not mad.»

Dá-se o primeiro suspiro e entra-se na nova dimensão. Na dimensão do abstracto mundo dos Pink Floyd. 


O uso da slide guitar envolve-nos de forma a cair num mundo de dormência total... o cérebro é bombardeado por sons e efeitos que estes criam na sua audição. O background psicadélico deu lugar a um sentimento algo budista. Chegamos ao Nirvana! Muito rapidamente esse sentimento muda ao som do compasso apressado de «On the Run». Esquizofrénico no mínimo, é como se pode descrever este tema ,que poderia ser incluído num filme de Stanley Kubrick.

Mais uma vez os efeitos sonoros criam uma envolvência total dentro do álbum. The Dark Side of the Moon é uma novela abstracta que não se escuta mas que se vive, que se sente. Os compassos e os tempos não são habituais, mas nada nestes senhores é simplesmente «habitual» ou comum. Ao longe ouvem-se os ponteiros do relógio...

«Time» apresenta um grande momento de criatividade de David Guilmor na sua famosa Fender. Sem medo atira-se para um dos melhores solos do álbum. A sequência introdutória é simplesmente um golpe de génio. O alarme fora activado: abram os olhos para a vida!

«And then one day you find ten years have got behind you
No one told you when to run, you missed the starting gun»

A mensagem nunca fora tão directa em toda a sua carreira. As palavras de Roger Waters caem na perfeição no mundo apoteótico de sintetizadores e de efeitos nunca antes assimilados pelo público geral.


«The Great Gig in the Sky» é um privilégio à audição. Simplesmente maravilhoso do princípio ao fim. Um dos mais conseguidos da banda em toda a sua incrível carreira.

Ao som de moedas a cair, de slot-machines tipicamente relacionadas com os casinos e uma referência à sociedade de consumo, «Money» é o abrir de muitas portas no caminho ao mega-sucesso dentro do rock mainstream. A sequência da guitarra ritmo é viciante, o delay e o efeito ressonância é incrível, dando um tom muito mais jazzy e rítmico. O compasso é algo invulgar, uma sequência de 7/4. Numa onda mais Blues e menos psicadélica, este tema é incontornável na escadaria do sucesso dos Pink Floyd.

«Us and Them». O momento mais introspectivo do álbum. É suave e melancólico e prime pela harmonia de sons e de ecos vocais de David Guilmor. «...we're all ordinary man» resume-se nas suas palavras. É o momento mais prolongado do álbum, mantendo uma estrutura estável com picos pelo meio de onde se destacam os back vocals que criam grande parte do ambiente para o qual os Pink Floyd nos tentam enviar.

«Any Colour You Want» é uma das metáforas apresentadas, desta vez sem o contributo de Roger Waters, habitualmente digno dos créditos da banda. Uma contribuição que quase se poderia dizer que seria Guitarra vs Sintetizador, mas a conjugação é perfeita. Repare-se num fade-out a relembrar «Breath»...

«Brain Damage» volta a brincar com os ecos de fundo, num registo mais profundo ao qual parece haver algumas referências ao falecido companheiro Syd Barret, o possível "Lunatic". Este tema que dá nome ao álbum ( " see you on the dark side of the moon") é das primeiras provas da capacidade vocal de Rogers Waters, que mais tarde iria levar a cabo o histórico concerto em Berlim em 90 num pós-queda do muro.

«Eclipse» dá seguimento à composição chegando à recta final. Ao fim da audição de Dark Side of the Moon sente-se que se emoldurassem estes temas, teríamos um Museu Guggenheim na cabeça. The Dark Side of the Moon é um pedaço de arte, de história e de simples magia.

1- Speak to Me
2- Breath
3- On the Run
4- Time
5- The Great Gig in the Sky
6- Money
7- Us and Them
8- Any Colour You Want
9- Brain Damage
10-Eclipse


As origens e o contexto da obra-prima 
O álbum começou numa reunião onde o grupo discutia que precisava de novo material para apresentar ao vivo. Waters teve a ideia de escrever um álbum conceptual que lidasse com o que “fizesse as pessoas se sentirem revoltadas”. Ora em 1972 estamos num ano em que na Inglaterra, a confiança dos jovens se estatelava no chão, com o quebrar dos sonhos de construir um novo mundo, provenientes da cultura hippie, que ia desaparecendo.
No entanto, a cultura dos “ácidos” permanecia viva, a guerra do Vietname continuava sem fim à vista, assim como a Guerra Fria, inflação, desemprego, violência racial, ou seja, um contexto conturbado que influenciou as ideias transparentes neste álbum. 
Para o sucesso desta “masterpiece” contribuiu a produção levada a cabo por Alan Parsons e as linhas melódicas simples, suportadas pelos blues característicos do grupo. Não esquecer o excelente trabalho de design com a capa, concebida pelos Hipgnosis (grupo britânico de design artístico que se especializou em desenhar e criar capas de álbuns para as bandas de rock da altura) percebe-se assim, o porquê de este trabalho ter atraído tantas pessoas. 
Há quem diga que também está ligado a Dark Side Of The Moon um poderoso símbolo, que marca a própria época que se vivia. A sua influência musical no rock é enorme, sendo dos álbuns mais citados como influência por parte de jovens músicos, sendo também visto como presença obrigatória nas prateleiras de audiófilos.

sábado, 12 de setembro de 2015

'Wish You Were Here' dos Pink Floyd faz hoje 40 anos


Faz hoje precisamente 40 anos que os Pink Floyd lançaram o seu nono álbum de estúdio, "Wish You Were Here".

Inspirado por vários concertos que deu na Europa, o grupo de rock progressivo "instalou-se" nos míticos estúdios Abbey Road, em Londres, para gravar aquele que é considerado um disco de referência na história da música. "Wish You Were Here" foi rapidamente aclamado pela crítica musical e está na 209.ª posição na lista dos "500 Melhores Álbuns de Sempre" da Rolling Stone. David Gilmour e Richard Wright já o referiram como sendo o seu álbum preferido de sempre. "Wish You Were Here" atingiu a primeira posição na tabela da Billboard, vendendo mais de seis milhões de cópias só nos Estados Unidos, onde foi galardoado com o Disco de Ouro a 17 de Setembro de 1975 e com sextupla Platina a 16 de Maio de 1997. No mundo inteiro, o álbum vendeu mais de 13 milhões de unidades.

No disco encontramos referências a temas como a ausência, o funcionamento da indústria musical e a deterioração do estado de saúde de Syd Barrett, um dos fundadores dos Pink Floyd. A música 'Shine On You Crazy Diamond' é-lhe dedicada e começa com oito minutos e trinta segundos de preâmbulo instrumental. De recordar que quando o tema estava a ser gravado, Barrett apareceu no estúdio mas nenhum dos colegas de banda o conseguiu reconhecer. Devido aos problemas relacionados com o consumo de droga, o músico estava sem cabelo e bastante gordo. O discurso do artista era, também, completamente desprovido de sentido, garantem os colegas de banda. Syd apareceu na cerimónia de casamento de Gilmour protagonizando um dos mais estranhos momentos na história do grupo: desapareceu sem se despedir de ninguém, nunca mais foi visto nem souberam notícias suas, até ao dia da sua morte, a 7 de Julho de 2006.

'Welcome To The Machine' é um dos temas que aponta o dedo à indústria musical. De referir que até à data os Pink Floyd não tinham uma relação muito harmoniosa com a imprensa. 'Have a Cigar' critica os patrões da indústria musical também. Os temas 'Raving and Drooling' e 'Gotta Be Crazy' já estavam prontos mas não foram incluídos no álbum porque o grupo entendeu que não se integravam no conceito onde queriam encaixar o restante trabalho. As canções foram, depois, integradas em "Animals".

Assim como no álbum anterior, "The Dark Side of the Moon", os Pink Floyd recorreram a sintetizadores e efeitos na produção do trabalho de 1975. O sucesso deste disco colocou uma grande pressão na banda que se reflectiu a dado ponto durante as gravações de "Wish You Were Here", principalmente nas atitudes do baterista Nick Mason, cujo malogrado casamento o deixara completamente apático.

O primeiro concerto de apresentação de "Wish You Were Here" realizou-se em Knebworth, no Reino Unido, em Julho de 1975, curiosamente dois meses antes do disco ser posto à venda. Tal feito causou grandes problemas à editora EMI que, devido à enorme procura pelo trabalho discográfico, não estava a conseguir produzir à velocidade a que os fãs procuravam pelo vinil.

A imagem da capa do álbum foi inspirada na ideia de que a humanidade tende a esconder os seus verdadeiros sentimentos, com medo de "se queimar" e, assim, dois homens de negócio foram retratados a apertar as mãos, com um deles a pegar fogo. Foram fotografados dois figurantes, Ronnie Rondell e Danny Rodgers, sendo que um deles estava a usar uma roupa ignífuga, coberta por um fato completo. A foto foi tirada nos estúdios da Warner Bros. em Los Angeles.

"Wish You Were Here" foi remasterizado e relançado em vários formatos. No Reino Unido e nos Estados Unidos, o álbum foi relançado em 1976, e, em 1980, foi publicada uma edição de luxo no Reino Unido. Nos Estados Unidos o álbum chegou em 1983 no formato CD e, no Reino Unido, o CD chegou em 1985.

Recorde, mais abaixo, o tema que deu nome ao álbum, através de um vídeo caseiro

terça-feira, 14 de julho de 2015

Estreia do filme "The Wall" aconteceu há 33 anos

É um hall de hotel monótono, cinzento e robótico que nos conduzirá ao que talvez tenha sido um dos melhores filmes com base musical alguma vez feito.

“The Wall” leva-nos à Inglaterra oprimida dos anos 50/60 onde um Bob Geldof mais novo e menos mediático, dá vida a um jovem rapaz de nome Pink.

Conduzidos pelas músicas do álbum dos Pink Floyd, “The Wall”, e com os poucos diálogos, o realizador Alan Marshall conseguiu transmitir toda uma opressão e humilhação vividas pela população inglesa desde muito cedo.

Pink vive num quarto de hotel escuro e sujo, após ter caído na rede das drogas trazidas pela fama do rock n’ roll. A apatia e solidão que sentia , levam-no a lembranças longínquas e esquecidas, que nos retratam a sua vida desde muito novo, havendo um jogo de saltos entre o passado e o presente, o que também torna o filme apetecível.

Após a morte do pai na Segunda Guerra Mundial, passamos a seguir a sua infância nos anos 50, onde é arduamente humilhado por escrever poemas e na qual é possível ver o seu sofrimento por ter uma mãe viúva sempre protectora.

É então que o nosso protagonista cresce, se torna uma estrela de rock e cai numa depressão profunda que o leva à loucura e a alucinar que era um ditador.

Tudo isto é magicamente envolvido e representado pelas músicas dos Pink Floyd , que assentam que nem uma luva em toda a vida de Pink. 
 
Esta magnificência cinematográfica, foi escrita por Roger Waters, o grande mentor da banda mais aclamada de todos os tempos.

Senhoras e senhores: “The Wall”.

Confira o trailer : 

sexta-feira, 6 de março de 2015

David Gilmour: O Quinto Elemento dos Pink Floyd

David Gilmour celebra hoje o seu aniversário. Traço aqui o perfil do homem por detrás do guitarrista, figura discreta e pacata, num percurso que nem sempre se confunde com a banda que o celebrizou.
david gilmour pink floyd elemento (15)“Sinto-me bem a trabalhar a solo, tocar com os Floyd foi uma fase muito longa e satisfatória da minha vida, mas é altura de me distanciar.” No Live 8, assistimos ao impensável, com Roger Waters a reunir-se aos Floyd após tantos anos de lutas amargas, mas Gilmour recusou uma oferta posterior para reavivar o grupo (e uma quantia astronómica) numa proposta que não incluía necessariamente Waters.

David Gilmour nasceu em Cambridge, em 1946, e estudou na Waldorf School, tendo, no entanto, descrito a sua educação como “horrível”, algo que tem em comum com Roger Waters. Conheceu Syd Barrett quando estudava Línguas Modernas na Cambridge College of Arts and Technology. Durante os intervalos, os dois amigos ensaiavam canções dos Beatles e dos Rolling Stones. O primeiro grupo de Gilmour, fundado em 1963, chamava-se Joker’s Wild, mas a banda terminou em 1967. Seguiu-se uma temporada em França, onde Gilmour aprendeu o idioma e passou por diversas dificuldades, tendo inclusivamente roubado pão. Regressou a Londres e trabalhava como motorista e modelo, enquanto ponderava o seu futuro musical.
Em 1968, aos 21 anos, foi convidado para integrar os Pink Floyd e era uma escolha óbvia. Além de ser amigo de Barrett, ensinara-lhe muitos truques da guitarra; frequentava os locais onde os Pink Floyd atuavam e conhecia Waters, Richard Wright e Nick Mason. No Royal College of Art, em Novembro, Mason abordou-o, revelando-lhe que as coisas não corriam bem. “Disse-me para eu ir pensando, já que pretendiam fazer uma mudança.”
“Não era exatamente o projeto musical que me interessava na altura. A fama que eles tinham conquistado era obviamente atrativa, mas não levei o convite muito a sério até depois do Ano Novo, quando me telefonaram, propondo-me que me juntasse ao grupo.”
“Seguiu-se uma época insólita, em que tanto Syd como eu aparecíamos para os espetáculos. Demos cinco concertos com cinco elementos. Eu começava a aprender os temas e a cantar, enquanto Syd também tocava e ia cantando, ao meu lado. Foi muito estranho.”
A formação de cinco elementos que pouco durou.
A formação de cinco elementos que pouco durou.

NINGUÉM É INSUBSTITUÍVEL?

Sempre houve uma certa melancolia em Gilmour; aliás o próprio se afirmou como um guitarrista de blues, em essência.
Sempre houve uma certa melancolia em Gilmour; aliás, várias vezes se afirmou como um guitarrista de blues, em essência.

O grupo seguiu caminho sem Barrett. Gilmour assistiu à ruína do velho amigo, destruído por quantidades maciças de LSD aliadas a problemas mentais, mas reconhece que “não resultava. O Syd já não atuava em palco. Foi trágico. Tentei fazer o que pude e estou certo de que todos sentíamos uma espécie de culpa, o que se prolongou por muito tempo. Mas nenhum de nós sabia nada sobre esquizofrenia e distúrbios mentais. É fácil olhar para trás e pensar que podíamos ter feito alguma coisa”. Ao longo dos anos, Gilmour foi o único que manteve o contacto com Barrett e também a única pessoa que este concordava em receber, no estado de semi-reclusão em que vivia.
Piper at the Gates of Dawn é, ainda hoje, um testemunho do génio de Barrett. Syd continua a ser idolatrado por uma certa crítica elitista que pulveriza tudo o que os Floyd fizeram a partir de então, como The Dark Side of the Moon. Mas os críticos de sobrancelha erguida entraram realmente em cena quando Waters abandonou o grupo, e arrasam tudo a partir da fase em que Gilmour passou a liderar. The Division Bell foi demolido pela crítica nacional, que parece nunca ter tido em grande conta o talento do guitarrista, nem as suas capacidades musicais. A desmentir esta tendência, Gilmour surge sempre nos lugares cimeiros das votações de revistas como a Guitar Player ou a Guitar World. No entanto, as letras não são o seu forte, e a principal debilidade da fase pós-Roger Waters é a pobreza de alguns textos, tendo o próprio admitido essa lacuna.

A “NOVA YOKO ONO”

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Em 1970, durante uma tournée americana dos Pink Floyd, o único solteiro da banda conheceu Virginia Hasenbein, a quem todos chamavam “Ginger”, uma modelo de 21 anos, de Filadélfia. Gilmour encarregou Waters de distrair o namorado dela e apresentou-se. A atração foi imediata e ambos começaram uma relação poucos dias depois. O casamento com Ginger foi duradouro, mas terminou em divórcio nos anos 80.
O casamento com a sua segunda mulher, a escritora e jornalista Polly Samson influenciou-o pela positiva. Samson foi autora de algumas letras de The Division Bell, e também participou na digressão, no cargo de “fun police”, alcunha que lhe deram. Se, na anterior tournée, o lema tinha sido sexo, drogas e rock and roll, em 1994, os músicos andavam todos na linha, a começar pelo próprio David. “Era um clube de rapazes, antes de Polly. Ela foi encarada como a ‘fun police’, injustamente, e passou um mau bocado. Toda a gente achou que os Floyd tinham ganho a sua própria Yoko Ono.”
Quando iniciaram a sua relação, David concordou em parar com a cocaína. “Começara a gostar demasiado de coca”, admite. “Acho que foi por me ter divorciado, decidi embarcar em maus caminhos. E tudo coincidiu com o regresso dos Floyd.”
“Tomar a decisão de parar foi o mais difícil, mas, com isso assente, achei o resto fácil. Mas muitas pessoas investiam em quem eu era anteriormente: O indivíduo que tinha a coca. E não lhes interessava que eu me tornasse numa pessoa diferente e melhor.”
Durante a digressão de The Division Bell em 1994.
Durante a digressão de The Division Bell em 1994.

Nesta época, a presença dos filhos dos músicos no backstage, o namoro entre o baixista Guy Pratt e Gala, filha de Richard Wright, deu um enquadramento diferente à digressão. Pratt, que casaria com Gala em 1996, já não tocava todas as noites com uma ressaca, como na tournée anterior. E Gilmour, cumprindo um programa de exercício e com o sistema limpo, emagrecera e até parecia mais novo do que uns anos antes.

LASERS ATRAVÉS DE NEVOEIRO

david gilmour pink floyd elemento

Gilmour comenta que sempre teve facilidade na guitarra, “mas só quando paramos de imitar e o nosso som nos agrada, começamos a chegar a algum lado. Passei muito tempo a tentar ser Eric Clapton, Jimi Hendrix, Pete Seeger, Leadbelly, até surgir uma altura em que gostei de algo que eu próprio toquei. Os meus ‘defeitos’ podiam ser transformados em qualidades. Mas, no princípio, tive de fazer algumas imitações de Syd”.
Quase foi apedrejado pelos admiradores de Barrett quando o substituiu, mas, abstraindo-se das comparações e desenvolvendo o seu próprio estilo, limou a faceta musical dos Floyd. Roger era o cérebro e o filósofo, ao passo que Gilmour procurava expandir os limites sónicos do grupo.
Enquanto cantor, sempre foi mais eficaz do que Barrett e Waters, que tinha problemas com a afinação (aliás, nem o baixo conseguia afinar). Curiosamente, Gilmour tocou guitarra baixo em várias gravações dos Floyd. Sempre que Roger Waters ganhava um prémio de uma publicação por melhor baixista, telefonava sarcasticamente a Gilmour, agradecendo-lhe.
Em 2001, Gilmour recordou Syd: “Era uma pessoa adorável e foi muito triste quando não pôde continuar. Produzi dois álbuns a solo dele e foi um pesadelo. Não estava em grande forma, não parava de cair da cadeira.” O fantasma de Syd assombrou e inspirou The Dark Side of the Moon e especialmente Wish You Were Here. A melancolia do solo de Gilmour em «Shine on you Crazy Diamond» é típica dos blues. Para muitos, o guitarrista sempre foi um bluesman tocando num contexto de rock psicadélico. A forma como usa as escalas em «Money» é outro exemplo.
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Os traços característicos de Gilmour foram definidos num título de um artigo na revista Guitar World: “Raios laser rompendo o nevoeiro.” Um dos guitarristas mais inteligentes de sempre, não dispara 10 notas por segundo, construindo os seus solos no estilo “pergunta-resposta”, estabelecendo um diálogo, tal como fez em «Time». O “tempo” é também uma das qualidades que lhe apontam; Gilmour pode não ser veloz, mas é sintético e não falha um compasso. Além disto, Gilmour era também um “engenhocas” com as suas guitarras e equipamento, experimentando infatigavelmente pick-ups, braços, dispositivos. Chegou a abrir um buraco numa delas para obter o som em stereo. Não foi bem-sucedido. Tapou o buraco com uma mistura secreta de serrim e cola, cuja fórmula nunca revelou! É a guitarra que ainda hoje usa.

BEM-VINDOS À MÁQUINA

Os Pink Floyd sempre tiveram cuidado em manter a vida pessoal separada da profissional. Durante os anos 70, não davam muitas entrevistas, pouco socializavam uns com os outros e nada se sabia acerca deles. As capas dos discos tornaram-se famosas por equivalerem às paisagens mentais criadas pela banda. Ao longo dos anos 70, Rog (como os colegas lhe chamavam) foi assumindo a liderança até começar a dominar o grupo num regime de ditadura. Wish You Were Here foi a última colaboração digna desse nome, álbum que, além de ser o favorito de Gilmour, é inspirado por Syd Barrett. Em «Welcome to the Machine» ou «Have a Cigar», Waters critica a indústria trituradora da música, que, em sua opinião, ajudou a destruir Barrett. Os Floyd integravam “a máquina”, mas mantinham-se o mais possível afastados dela.
David Gilmor atento à imprensa, mas o mais possível afastado dela.
Atento à imprensa, mas o mais possível afastado dela.

Em Animals, a dinâmica hostil originou um disco memorável. Waters equipara a humanidade a animais – cães, carneiros e porcos. Em «Dogs», cita o Salmo de David, e o guitarrista, metaforicamente instigado pelo pormenor, executa um grande solo, optando pelo tom metálico da Fender Telecaster. Em «Pigs: Three Different Ones», Gilmour também sobressai, mas a relação entre os dois músicos ia de mal a pior. Um eterno diplomata, David envolvia-se em inúmeras discussões com Roger, e o ponto de rutura ocorreu no último concerto da digressão do álbum, em 1977. Waters viu um fã deslumbrado, na primeira fila, aproximou-se e cuspiu-lhe na cara. Gilmour ficou tão repugnado que saiu do palco.
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Na época de The Wall, David e Roger envolveram-se numa discussão violenta num restaurante de Los Angeles, a única vez, segundo o guitarrista, em que estiveram perto de passar à violência física. O teor das músicas dos Pink Floyd não andava longe da violência psicológica, como sucedeu em The Wall.
“Orgulho-me do meu trabalho nesse álbum, mas, às vezes, parece-me um relatório do Roger, acerca de quem lhe tramou a vida; a mãe, a escola, a ex-mulher, isto, aquilo…”, desabafou Gilmour.
O punho de ferro de Waters dominava o grupo, com o baixista e fundador a eliminar metodicamente a concorrência e a criar divisões, tanto a nível contratual como pessoal. Praticamente expulsou o teclista Richard Wright, que, na época, se encontrava dependente da cocaína e foi um alvo fácil.
O baterista Nick Mason foi-se mantendo por amizade a Roger, porém admite: “O Rog é uma das pessoas mais ‘difíceis’ do mundo.” David não pactuou. “Rog passou de um músico e de um colega a um megalómano paranoico, completamente descontrolado”, insurgiu-se certa vez. “Álbuns como Wish You Were Here tiveram um enorme sucesso, não apenas devido à contribuição de Roger, mas também porque havia um equilíbrio maior entre a música e as palavras do que em álbuns mais recentes. Foi isso que tentei fazer em A Momentary Lapse of Reason.” The Final Cut, em 1983, foi efetivamente um corte. Gilmour chamou-lhe ironicamente “o melhor álbum a solo de Roger Waters”. Da mesma forma, Momentary Lapse, o álbum de regresso dos Pink Floyd, em 1986, soa a um disco a solo de Gilmour acompanhado por músicos de estúdio, já que a contribuição de Mason e Wright não foi substancial.

O SEXO DOS PORCOS

Novo risco: Gilmour assume a liderança dos Pink Floyd.
Novo risco: Gilmour assume a liderança dos Pink Floyd.

Waters deixou os Pink Floyd em 1985, presumindo que, sem ele, a banda não teria futuro. Mas Gilmour assumiu a liderança, e a ressurreição originou uma guerra com Waters que se estendeu aos tabloides, aos tribunais e aos palcos. Durante a digressão americana de A Momentary Lapse of Reason, Gilmour lutava com Waters e a sua tournée Radio K.A.O.S. A batalha, a nível de promotores e de autorizações chegou a ponto de Waters impedir o uso do porco voador e insuflável, utilizado nos espetáculos dos Floyd nos anos 70. Os advogados da fação Gilmour observaram que não se tratava de um porco, mas sim, de uma porca. Por conseguinte, dotaram a referida “porca” de testículos bastante visíveis, contornando habilmente os direitos de autor reclamados por Waters. Mas a guerrilha prosseguiu, com adeptos a exibirem cabeças de porco autênticas espetadas em paus, com sangue a escorrer, durante os concertos, como se se tratasse de uma manifestação tribal.

PADRINHO DE KATE BUSH

Durante a promoção do seu primeiro álbum a solo em 1978.
Durante a promoção do seu primeiro álbum a solo em 1978.

Gilmour lançou o seu primeiro álbum homónimo na Primavera de 1978. O segundo registo a solo, About Face, foi editado em 1984. Nestes dois discos, o guitarrista e compositor demonstra o grande contributo que deu à sonoridade dos Floyd. O seu estilo imediatamente identificável é também a espinha dorsal de On an Island, editado em 2006 e que dividiu opiniões. Enveredando por uma abordagem mais contemplativa e serena, o álbum não possui o dinamismo dos trabalhos anteriores. Do ponto de vista técnico, é um disco conseguido, mas pouco acrescenta ao legado do guitarrista.
Em 2002, realizou uma série de concertos acústicos a solo em Londres e Paris, (acompanhado por uma pequena banda e coro) documentados no DVD David Gilmour in Concert. Durante as pausas de atividade dos Floyd, Gilmour tocou inúmeras vezes como músico de estúdio, foi produtor e engenheiro de som, colaborou com os Dream Academy, Grace Jones, Bryan Ferry, Robert Wyatt, Paul McCartney, Ringo Starr, Sam Brown, Jools Holland, Pete Townshend, The Who, ou os Supertramp. Foi também Gilmour que descobriu Kate Bush, apadrinhando o início da sua carreira, tendo produzido o álbum de estreia da cantora, The Kick Inside. Kate ficar-lhe-ia eternamente grata.
Em 1996, David é integrado no Rock and Roll Hall of Fame com os Pink Floyd e, em Novembro de 2003, é-lhe atribuída a Ordem do Império Britânico.

VIDA PARA ALÉM DOS FLOYD

Com Polly Samson.
Com Polly Samson.

David Gilmour sempre foi conhecido pelo seu feitio pacato, o que parece ter herdado do pai, Douglas, especialista em genética, e Sylvia, editora cinematográfica, casal bastante descontraído. O primeiro disco que comprou foi «Rock Around The Clock» e, num esforço autodidata, aprendeu a tocar guitarra sozinho, aos 14 anos, com a ajuda de um disco de instrução à iniciação de guitarra, por Pete Seeger.
Gilmour é dono de uma famosa e vasta coleção de guitarras. A primeira foi uma velha Tatay, de cordas de nylon, pedida emprestada a um vizinho. “Mais tarde, ofereci-a à minha irmã”, declara. Outra que destaca é uma Ovation com uma afinação específica, na qual escreveu os acordes de «Comfortably Numb». “A música é minha e a letra é do Roger. Foi uma das últimas grandes colaborações que conseguimos levar a bom porto.” O guitarrista é, porém, um aficionado da Fender Stratocaster, “porque Hank Marvin tinha uma”, aspeto que partilha com Mark Knopfler. Colecionador de Fender’s, Gilmour é o orgulhoso proprietário da Stratocaster com o número de série 0001, mas, recusando-se a reunir velharias atrás de vitrinas, admite que ainda a toca de vez em quando.
Conhecido pela sua extraordinária coleção de guitarras.
Conhecido pela sua extraordinária coleção de guitarras.

As suas principais influências musicais incluem BB King, Jimi Hendrix e Peter Green, mas o seu músico favorito é Bob Dylan. Mark Knopfler impressiona-o: “Tem uma técnica muito melhor do que a minha e faz coisas inacreditáveis.” Gilmour é também proprietário de uma casa/barco transformada em estúdio de gravação, o Astoria, no qual gravou muito do seu trabalho. Não tem o estilo de vida típico de um multimilionário, tendo já ajudado a angariar milhões de libras para a caridade. Colabora com diversas causas, incluindo a ChildLine, a GreenPeace e a Amnistia Internacional. É também um piloto experiente e um dos seus hobbies, depois de tirar o brevet, em 1987, é pilotar jatos supersónicos. Gilmour tem ainda um curso de acrobacias aéreas e era dono da Intrepid Aviation Company, empresa que fazia exibições aéreas na Grã-Bretanha, tendo-a vendido quando se tornou num empreendimento “demasiado comercial”. Outras das suas paixões são o futebol, o cricket, o teatro e a literatura. Juntamente com o filho, Charlie, aprendeu a tocar saxofone.
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RECORDAÇÕES DE SYD E RICHARD

Em 2007, é editado o excelente DVD duplo Remember That Night, que retrata um concerto no Royal Albert Hall, onde Gilmour interpreta temas antigos e novos. Este trabalho tornou-se rapidamente número um de vendas em vários países europeus. Outra das novidades é a interpretação de um tema de Syd Barrett, «Dark Globe». “Foi o primeiro concerto que dei, depois de o Syd ter morrido, e achei que seria um tributo adequado”, diz David. “O grupo é composto por músicos brilhantes. E a pressão não é a mesma; podemos fazer as coisas de modo diferente, tocar coisas que não se esperam de nós. Faço-o por mim, mais do que pelos outros. Mas espero que outras pessoas se juntem a nós e também gostem.”

A 26 de Agosto de 2006, Gilmour tocou nos estaleiros de Gdańsk, na Polónia, no último concerto da digressão, perante 50 mil espectadores. A atuação celebrou o movimento Solidariedade dos trabalhadores do estaleiro naval, liderado em 1980 por Lech Walesa, que reuniu 17 mil grevistas contra as difíceis condições de trabalho e custo de vida, levando à queda do regime comunista. Gilmour foi recebido por Walesa e ambos depositaram uma coroa de flores no monumento aos trabalhadores do estaleiro, mortos na época.
Live in Gdańsk seria o último registo ao vivo de Richard Wright, que faleceu em Setembro de 2008, uma semana antes da edição do álbum/DVD.

Por esta altura, foi lançada uma réplica da guitarra favorita de David Gilmour, a recuperada ‘Black Strat’. Pouco depois, David juntou-se a Roger Waters e à banda deste para uma performance de The Wall, em Londres, recriando o seu famoso solo de «Comfortably Numb», o ponto alto dos espetáculos de 1980, em que o guitarrista surgia subitamente no topo da parede, com a sua sombra projetada sobre centenas de pessoas. Um pouco como a sua influência.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

David Gilmour, «Dogs» e o porco voador

Contexto: Tema incluído em Animals, álbum editado a 23 de janeiro de 1977. Foi a primeira vez que os Pink Floyd trabalharam no seu estúdio, nessa altura privado, o Britannia Row, em Islington, a norte de Londres, onde também os Joy Division gravariam Closer. Da Islington Green School, ali perto, veio o coro de crianças que cantaria no tema «Another Brick in the Wall – Part 2», três anos depois.
pink floyd animals (32)

A letra de «Dogs» é de Roger Waters e a música foi composta por David Gilmour. Embora o guitarrista não se orgulhe especialmente deste trabalho, é o único crédito na composição do álbum que não pertence a Waters. Animals é inspirado por O Triunfo dos Porcos de George Orwell, com Waters a dividir a humanidade em cães, porcos (três diferentes) e carneiros.
O tom geral do disco é agressivo e, em «Dogs», o foco incide nos “corporate climbers”, indivíduos sem escrúpulos que sobem num mundo competitivo, para “serem arrastados por uma pedra”, o peso da importância que atribuem a si mesmos, segundo Waters. A meio da faixa, Waters lê o 23º Salmo através de um Vocoder, tratamento que também é dado aos latidos de cães verdadeiros.
A capa do disco assentou no conceito de colocar um gigantesco porco insuflável a voar entre as torres austeras da Battersea Power Station, o que tornaria o edifício num insólito ponto turístico da capital britânica. Inexplicavelmente, Waters descreveu este suíno como “um símbolo de esperança”, e o enorme balão incorporaria todos os espetáculos posteriores.
pink floyd animals (21)

O PORCO VOADOR

A 2 de dezembro de 1976, um grupo de fotógrafos reuniu-se ao amanhecer, na Battersea Power Station, para captar a subida do porco cor-de-rosa. Tinha sido construído na Alemanha pela Ballon Fabrik, a mesma companhia que fizera os Zeppelins. Um atirador estava a postos, com uma espingarda, caso algo corresse mal. No entanto, o hélio não foi suficiente, sendo a sessão adiada para a manhã seguinte. Desta vez, o porco subiu, mas um cabo partiu-se, e o “animal” foi levado pelo vento.
O primeiro a avistá-lo foi o piloto de um jato, que aterrou no Aeroporto de Heathrow e descreveu o que vira. Fizeram-lhe um teste de alcoolémia antes de o levarem a sério. Um helicóptero da polícia seguiu-o até cinco mil pés de altitude, antes de regressar à base. A responsabilidade passou então para as Autoridades da Aviação Civil, sendo emitido o alerta de que um porco com 12 metros de comprimento estava à solta no espaço aéreo da capital.
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Os jornais vespertinos começaram a recolher testemunhos. A Aviação Civil perdeu o porco do radar perto de Kent, quando já voava a uma altitude de 18 mil pés rumo a leste, em direção à Alemanha. “Podemos dizer que o porco regressa a casa”, brincou o responsável da Aviação Civil. Depois de ter causado a consternação dos controladores aéreos de Heathrow, o porco despenhou-se, 30 quilómetros a sudeste de Londres, no condado de Kent.
A imprensa não deixou passar em claro este episódio, pelo que os títulos sucederam-se, “Alerta a bordo: Um porco”, “Se os porcos voassem”, “Cuidado, há um porco a voar por aí!” Mais tarde, um anúncio publicado nos jornais, promovia o álbum com a frase: “Oink, Oink, Woof, Woof, Baaaaa. Novos sons de Animals dos Pink Floyd.” Surgiu uma fotomontagem na imprensa, mostrando um agricultor com um porco debaixo de cada braço. Um pergunta: “Já ouviste o novo dos Floyd?” O outro responde: “Eu sou o novo dos Floyd.”

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OS TRÊS SOLOS

O exemplar trabalho de guitarra foi desenvolvido por Gilmour ao longo de dois anos, em atuações ao vivo, quando o tema se chamava «You Gotta Be Crazy». Os primeiros quatro versos são cantados pelo guitarrista, e os restantes três por Waters.
A gravação dos três solos resulta de meses de experiências e não foi fácil devido às dificuldades que os Pink Floyd encontraram ao autoproduzirem o álbum num novo estúdio. A certa altura, Waters apagou acidentalmente uma parte de guitarra de Gilmour, da qual este muito se orgulhava.
Ao contrário do que é seu hábito, o guitarrista usou uma Fender Telecaster, conhecida pelo timbre mais metálico. A nível de efeitos, como sempre, prima a subtileza. Fala-se no uso do flanger e do phaser, mas a questão torna-se secundária face à expressividade demonstrada. (Há certamente reverb, overdrive e um rotating speaker.)
Estes três solos demonstram as qualidades de David Gilmour: O efeito dramático, já que os solos não são incluídos na música de forma aleatória e contrastam entre si. (Já fizera o mesmo em «Money».) O cuidado em tocar o que melhor se adequa à canção, evitando sobressair apenas pelo virtuosismo. Contenção, bom gosto e o cuidado extremo nas notas que não são tocadas – mais importantes do que aquelas que se tocam, segundo uma filosofia do jazz. Outra grande qualidade de Gilmour é o facto de ter uma noção impecável do tempo – 99 por cento das vezes, o timing das notas é, dir-se-ia, perfeito.
Primeiro solo (1:50)
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O solo que cria o ambiente dramático. Utilizando escalas cromáticas, Gilmour estabelece um crescendo e uma dinâmica exemplares, perfeitamente enquadradas na sonoridade quase claustrofóbica de «Dogs».
Solo intermédio (5:34)
Acompanhando o progresso da letra, este solo é claramente uma interpretação das palavras. Mais intimista, Gilmour deixa espaços intencionais entre as frases, como se se tratasse de um discurso falado. O final parece insinuar que se seguirá um terceiro solo.
Solo final (13:27)
Mais rápido, o solo sintetiza e retoma as ideias dos anteriores, culminando numa frase descendente, interpretada em harmonia, com três guitarras em uníssono.
A guitarra usada foi uma Telecaster Custom de 1959, sunburst e com uma característica incomum, um (pickup) humbucker Gibson PAF, fazendo com que soasse e se parecesse com as Deluxe Telecasters do início dos anos 70. Não se sabe se foi o próprio Gilmour a instalá-lo, já que o músico gostava de experimentar este tipo de mudanças nos instrumentos. Também comprava guitarras em segunda mão, pelo que pode ter sido o anterior dono a fazê-lo. Em Janeiro de 2009, Gilmour referiu à Guitar Player que o humbucker foi substituído por um pickup de Stratocaster.
De referir ainda o trabalho de guitarra acústica, afinada um tom abaixo do normal, e o riff de guitarra elétrica que se repete ao longo da canção – também este arquitetado cuidadosamente e executado com três guitarras em harmonia. E muito fica por dizer. Resta ouvir e aprender…