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sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Mark Knopfler, «Sultans of Swing»

Contexto: Álbum de estreia dos Dire Straits, 1978. Knopfler escreveu esta canção numa guitarra acústica ao estilo de Bob Dylan, depois de ter visto uma banda a tocar num pub. É a história impressionista de um grupo de músicos que toca por divertimento numa sexta-feira à noite, em Londres; inclui personagens como “Harry” e “Guitar George”. Knopfler era, na altura, professor, pelo que esta vinheta lhe chamou a atenção: Não pretendia fazer parte de uma banda deste tipo, mas sim, seguir a carreira musical.
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“Estremecemos nas trevas, chove no parque, mas entretanto… a sul do rio paramos e não pensamos em mais nada…” Quando Knopfler compra uma Fender Stratocaster, altera a melodia mas mantém a letra. Adota os acordes de Del Shannon em «Runaway». Desenvolve uma técnica irónica, contrastando o lirismo na guitarra com um estilo vocal “adequado”. Ao ouvir Live at the Regal, de B.B. King, apercebe-se de que a guitarra pode ser um complemento da voz e decide tentar a sua própria versão desta abordagem.

Em 1978, no meio do boom do punk rock, «Sultans» foi uma pedrada no charco, visto que ninguém tocava neste estilo. Mas qual? Com influências dos blues e de JJ Cale, Knopfler criou algo que ainda hoje é referido como “estilo”. Frase comum: “Se pusermos muitas guitarras nesta gravação, parece Dire Straits”, criticou alguém. Pois, mas qual é esse Estilo?
É imediatamente identificável. Knopfler segue as escalas ortodoxas dos acordes, não se deixando limitar nem intimidar por elas. É uma guitarra límpida, com alguma compressão e uma tonalidade líquida. As notas não são subidas meio-tom, mas 1/3. Há um uso sincopado das double e triple stops – conjunção de duas ou três notas em uníssono, para criar uma afirmação – repare-se no riff constante que pontua o tema. Não se pode dizer que é country, rock ou blues, especificamente. É o tal “estilo Dire Straits”, por vezes tão renegado por ser tão despido de artifícios.
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Situação real: Um eletricista que nos vem compor o quadro a casa. “Este tipo que tem aí a tocar… dedos de ouro. Conheço-o logo.” Nem sabe o apelido húngaro, e o nome da banda pode não lhe dizer nada. Mas o som é imediatamente cativante. Apela a todas sensibilidades. Ora, isto é algo raro, digno de Gershwin. E podemos identificar facilmente um tema de Chopin, mas o intérprete é mais difícil.
O primeiro solo de «Sultans of Swing» é um intermezzo com uso criativo de arpeggios. O segundo (e famoso) solo está longe da pirotecnia ao estilo de Van Halen. Mas a sobreposição dos acordes às notas resulta na perfeição, embora não seja uma equação complicada. É, ainda assim, matemática, e uma questão de contexto.
John Illsley, Mark, Pick Withers e David Knopfler, o quarteto que gravou o lendário «Sultans».
John Illsley, Mark, Pick Withers e David Knopfler, o quarteto que gravou o lendário «Sultans».

No mesmo álbum, «Down to the Waterline» é um tema de execução mais difícil e de maior complexidade, mas não é mais imediatamente identificável do que o solo sincopado de Knopfler com três acordes como pano de fundo, que todos reconhecem em «Sultans of Swing».
O mérito do compositor foi a criação de uma paleta. Havia muito mais a dizer… Neste caso, trata-se apenas de um guitarrista com apelido de pronúncia difícil, uma ideia que se afigura fácil e algo a transmitir. Parte tudo daqui. O génio, isto é.

Faixa original com apenas a guitarra e a voz:


domingo, 18 de outubro de 2015

Mark Knopfler

No Hurlingham Club londrino a 9 de setembro de 2009.

Mark Knopfler é dos poucos músicos veteranos que consegue inspirar curiosidade pelo seu regresso. Já deram o seu nome a um dinossauro – Masiakasaurus knopfleri –, o que o divertiu, até porque os investigadores estavam a ouvir Dire Straits quando o descobriram. Desde o início, Knopfler foi a prova de que um grupo pode ser interessante apenas pela música e não pelas declarações bombásticas, pelo visual espampanante ou o exibicionismo.
mark knopfler dire straits (39)O quarteto que surgiu em 1977 era composto por um ex-baterista de jazz introvertido, um baixista que movia os pés como um pinguim e um jovem silencioso de cabelo comprido. A este trio juntava-se um guitarrista que entrava em palco de impermeável e cabelo despenteado – parecia ter passado o dia a trabalhar como estafeta. O frontman deste belo ramalhete era filho de um arquiteto judeu, cujas simpatias comunistas o obrigaram a fugir da Hungria. Os pais estabeleceram-se em Glasgow, na Escócia, onde Mark nasceu, tendo passado a infância na cidade inglesa de Newcastle, de onde a mãe era originária.
A voz grave de Knopfler contrastava com os sons líricos que extraía da guitarra, característica que mantém. Os tons de diamante da Stratocaster pontuam a beleza das melodias. Mark tem tido sempre uma dualidade: Temas românticos contrapostos a análises mais sombrias e irónicas dos tempos. Um cronista musical com influências literárias, criou temas em que o tom resignado se associa a frases de guitarra melodiosas.

OS QUATRO DO APOCALIPSE

«Dire Straits» significa «Mark Knopfler». Com uma imagem que faria estremecer qualquer publicitário nos dias de hoje, o grupo passara meses a ensaiar num cubículo fumarento de um apartamento minúsculo em Deptford, Londres. «Dire Straits» (terríveis apertos) foi o comentário de um amigo às condições em que os quatro viviam. Mark era, já nessa altura, o génio por detrás do som. Um dos guitarristas mais elegantes de sempre, criou uma sonoridade fluída, versátil e veloz, inspirando-se em Chet Atkins e J.J. Cale. “As pessoas mais criativas são esponjas”, disse certa vez. “Absorvem uma coisa e expulsam outra.” Usava poucos efeitos, apenas um compressor e um pedal de volume.
Depois de absorver o boogie-woogie, a country e os blues, o canhoto Knopfler foi obrigado a tocar violino como um destro. Mais tarde, ao dormir em casa de amigos, pegou numa guitarra acústica com cordas finas e descobriu que, ao apoiar dois dedos na caixa com a mão direita, conseguia extrair um som diferente. Adormeceu a tocar guitarra e a ver Once Upon a Time in the West. E o estilo foi-se desenvolvendo.
Quando era jornalista, passava as noites a tocar guitarra. Primeiro, um acorde, depois outro. Quando eram cinco da manhã, deitava-se e, de manhã, alguém da redacção dizia, “telefonem ao Knopfler”. Os colegas estranhavam o ar sonolento. De início, era lento na máquina de escrever, mas começou a acertar com as teclas, “tal como acertava com as notas da guitarra”.
“Não canto bem. Tentei fazer da guitarra a minha voz.” Desde que deixou de fumar, Knopfler fez progressos vocais, que se podem notar em todos os álbuns a partir de Shangri-La. Em All the Roadrunning, álbum de duetos com Emmylou Harris, compôs quase todos os temas e canta harmonias sem problema, o que é um feito, já que está ao lado da rainha da country.

NÃO HÁ DEMOCRACIA NAS BANDAS

mark knopfler dire straits (53)Os quatro músicos gravaram uma “demo” enviada para o DJ Charlie Gillett, que reconheceu algo de inovador numa canção chamada «Sultans of Swing». Utilizando a guitarra como extensão e complemento da voz, Knopfler tornou conhecido o seu apelido húngaro. Assistira a um grupo de músicos de jazz a tocar num pub londrino e fez disso uma história. Adicionou-lhe um solo matemático sobreposto a três acordes, que, apesar de não ser uma pirotecnia, provou ser eficaz.
Os Dire Straits fizeram várias digressões longas e esgotantes pelos Estados Unidos, com Knopfler a acabar, a maior parte do tempo, num dos lugares da frente da camioneta, incapaz de comunicar com a banda ou com o público, mergulhado numa depressão. Motivo: Holly Beth Vincent, a vocalista dos Holly and the Italians. Os Straits regressaram com o seu melhor álbum Making Movies, em 1980. «Romeo and Juliet», uma das suas melhores canções, foi diretamente inspirada na relação com Holly Vincent, que o guitarrista sempre se escusou a comentar. A cantora disse, numa entrevista, “oh, Knopfler, yes, I used to have a scene with him”, afirmação que o feriu e que é citada no tema.
O irmão, David, incentivou-o a escrever algo sobre o tempo em que eram miúdos em Newcastle, e iam ao parque de diversões. O resultado foi «Tunnel of Love». O produtor Jimmy Iovine comentou: “O álbum parece uma música inteira.” Mark desentende-se com David durante as gravações e despede o irmão. Começa a ser considerado um mastermind, mas também um indivíduo calculista.
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“Os grupos não funcionam com base na democracia. É raro. Tem de existir alguém que lidere. E o Mark era indiscutivelmente essa pessoa”, comentou um observador. “Isso trouxe-lhe muitos dissabores.”
Em 1983, produziu Infidels, de Bob Dylan. As coisas nem sempre correram bem e Knopfler terá abandonado uma das sessões bastante perturbado. Quando entrevistei Mick Taylor, ex-guitarrista dos Rolling Stones, perguntei-lhe como correram as gravações. Este respondeu que gostou imenso de trabalhar com Dylan, mas que Knopfler lhe inspirou uma certa antipatia, já que se comportava de modo “ditatorial”. Contudo, há muitos anos que Dylan não tinha um álbum tão bem produzido.
O baterista Pick Withers foi a baixa seguinte. “Se continuasse nos Dire Straits, seria milionário por esta altura, mas não sei que tipo de pessoa seria.” A partir daqui, Knopfler começou a contratar músicos e a dizer-lhes exatamente o que tocar.
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“TUDO TEM DE SE ENCAIXAR”

A principal característica de Mark Knopfler é a diversidade do seu talento enquanto guitarrista, compositor, letrista, produtor, alguém que possui uma visão global da música. As palavras que utiliza são musicáveis, perfeitamente enquadradas na melodia como um tiquetaque, ao estilo da música brasileira. Escolhe guitarras de determinado ano para um solo e regozija-se com esses desafios. “Tudo tem de se encaixar. Adoro fazer digressões, gravar, ensaiar, todos os aspetos desta profissão. Se assim não for, acaba em lágrimas. É preciso um grande ímpeto para lançar uma banda de garagem. Se não o tens, esquece”, referiu numa entrevista.
mark knopfler dire straits (40)Em 1988, antes do concerto de homenagem a Nelson Mandela, afirmou: “Tudo isto, atrás de mim [apontando para as guitarras e equipamento] não significa nada. Tive os meus filhos e apercebo-me que tocar num palco é entusiasmante, mas não deixa de ser uma treta completa.”
Contudo, Mark Knopfler faz discos porque quer, já é multimilionário desde meados dos anos 80. Não queria ressuscitar os Dire Straits para o último disco e digressão de On Every Street. Foi pressionado pelas dificuldades económicas dos outros elementos e também pelo interesse dos fãs.
“Um executivo da editora diz-nos que quer um novo álbum. Mas é diferente quando um tipo nos vem arranjar o vídeo a casa e diz, ‘olá, Mark, para quando um novo disco?’”
Com o renascimento de Golden Heart, em 1996, Knopfler começou a utilizar mais a Gibson Les Paul, explorando uma sonoridade densa. A sua costela escocesa revelou-se na música que compôs. “Pensei que era irlandesa. Mas um dos músicos disse-me, ‘não, é escocesa’. E perguntei-lhe, ‘como sabes?’ E ele respondeu, ‘nota-se pelos intervalos’.” Colaborou com os Chieftains e, no DVD A Night In London, agradeceu a colaboração de alguns elementos, depois de um tema: “Vemo-nos no bar…”
O fim dos Straits coincidiu com a estabilidade emocional que encontrou com a atriz Kitty Aldridge, há mais de 15 anos, embora Mark continue a abordar o romantismo do ponto de vista de um Gershwin. O trilho de migalhas de pão – citado em «True Love Will Never Fade» – conduz o narrador ao sítio onde deveria estar. Um tema sobre um artista de tatuagens assume, deste modo, um significado ambivalente.

O REPÓRTER MUSICAL

As suas canções, embora se tenham tornado estandartes do rock FM, baseiam-se sempre em ideias. Ao ouvir os reparos de um lojista acerca das estrelas da MTV, Knopfler escreveu «Money for Nothing». «Calling Elvis» inspira-se numa frase do cunhado, “quando tentas telefonar à tua mulher, parece que estás a ligar ao Elvis”.
«Brothers in Arms» foi inspirada por uma frase do pai, durante a guerra nas Falkland:
“Disse-me que os russos e os argentinos eram camaradas de armas. Que a Rússia comunista era ‘camarada de armas’ com a ditadura militar da Argentina. E o termo ficou-me, embora a canção não seja sobre isso. Lembrei-me de um soldado a morrer no campo de batalha, talvez com alguns camaradas à volta… e a ideia de mundos antagónicos dentro de um só mundo. Julgo que deve ter passado pela cabeça de muitas pessoas, quando estão à beira do penhasco… é estúpido. Somos estúpidos em participar em qualquer guerra.”
Mark Knopfler escreveu «Private Dancer», durante as sessões de Love Over Gold, mas achou que o tema precisava de uma vocalista. Encontrou-a em Tina Turner, ofereceu-lhe a canção e deu um impulso decisivo ao relançamento da cantora, nos anos 80. Foi distinguido em 1993 pela Universidade de Newcastle e, em 1995, pela Universidade de Leeds. Recebeu uma terceira honra da Universidade de Sunderland, reconhecendo o seu trabalho excecional enquanto músico.
O detetive Marlowe, de Raymond Chandler, inspirou «Private Investigations». «Your Latest Trick» baseia-se num dia em que regressava do estúdio, em Nova Iorque. “Os taxistas, uma canção no rádio… sempre gostei da ideia dos camiões de lixo nova-iorquinos. São gigantescos, monstruosos e fazem um ruído incrível. São bestas pré-históricas. Uma coisa leva à outra. Temos fragmentos e, muitas vezes, construímos as canções a partir disso.”
Escreveu sobre dois paparazzi em «Vic and Ray», sobre as mulheres viciadas em compras em «Imelda», sobre um fã fanático em «Rüdiger», ou sobre os excessos dos “roadies” em «Heavy Fuel». Descreveu o West End londrino, e relatou “um penoso espetáculo de cabaré gay” em Munique, no tema «Les Boys». Muito do álbum On Every Street, que marcou o regresso dos Dire Straits em 91, é negro e opressivo, o que se deve à fase terminal do seu segundo casamento.

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O HOMEM NÃO MUDOU MUITO

«Ticket to Heaven» é uma crítica mordaz aos evangelistas televisivos, enquanto «Devil Baby», em tom irónico, descreve os tristes espetáculos dos reality shows de Jerry Springer. Os Estados Unidos sempre fascinaram o músico a vários níveis. Porém, Mark observa o país a três dimensões. Nem Ray Kroc – fundador da McDonalds – escapa à ironia de Knopfler, que lhe dedicou «Boom Like That», equiparando-o a um crocodilo… Em «Don’t Crash the Ambulance», Knopfler imagina vários conselhos que Bush pai terá dado a Bush filho, elaborando uma crítica sarcástica à agressiva política externa da presidência e à intervenção no Iraque:
“We don’t like accidents/Major or minor/You don’t want yourself an incident/don’t ever invade China.” Na voz de Bush pai, afirma: “You can’t move the barriers/You can’t mess with oil and gas/Had to go down there/Stick a couple/Aircraft carriers/In his ass…”
Outro tema, «Secondary Waltz», foi inicialmente gravado nas sessões de Golden Heart, antes de surgir em Kill to Get Crimson, sendo divulgado em discos piratas. Originalmente, possuía um estilo sincopado, reaparecendo com uma sonoridade folk. O tema foca o antigo professor de ginástica de Knopfler, um escocês, ex-militar e rígido, que ensina os alunos a dançar. As crianças “dançam a valsa com medo nos corações”. Knopfler demorou anos a encontrar a música certa. “Não me preocupo demasiado se a melodia não surge. Espero que aconteça, nem que demore 40 anos”. A letra de «Rüdiger», por exemplo, foi escrita aquando do assassínio de John Lennon, mas a canção só seria gravada 16 anos depois.
Em «Iron Hand», a “mão de ferro” remete para “dama de ferro”. O tema é resultado de mais uma reflexão. Ao assistir, na TV, à carga violenta das tropas montadas a manifestantes, durante o governo de Margaret Thatcher, Knopfler lembrou-se da época medieval e concluiu que o Homem não mudou muito.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Remember... Dire Straits...

A banda sonora da minha infância, na transição da Abelha Maia e dos Marretas para outras sonoridades, integra várias músicas e vários discos, desde o "Thriller" até ao "Kind of Magic". Porque a banda sonora da minha infância se confunde com 99% das pessoas que nasceram entre 68 e 78, cá vai o primeiro de uma série deles...


Dire Straits
"Brothers In Arms"
Warner - 1985
Falar dos Dire Straits e falar apenas de "Brothers in Arms" pode parecer redutor. A banda de Mark Knopfler, que acumulava as funções de vocalista com as de virtuoso da guitarra e do seu irmão David já tinha gravado quatro albums de originais e mais um ao vivo desde a sua formação em 1977, e na sua discografia constavam singles que são ainda hoje uma referência, como "Sultans of Swing", "Romeo and Juliet", "Tunnel of Love" ou "Private Investigations", entre outros. Contudo é com este registo de 1985 que fizeram história, por uma série de razões além do facto de ser de longe o seu melhor álbum, que se ouve do princípio ao fim sem saltar uma faixa que seja - coisa rara nos tempos que correm. "Brothers in Arms" é um dos discos mais lucrativos da história, com mais de 30 milhões de cópias vendidas em todo o mundo, à frente de "Bad" e "Dangerous", de Michael Jackson, "The Wall", dos Pink Floyd, ou "Nevermind", dos Nirvana. Foi nº 1 no Reino Unido, onde vendeu mais de 4 milhões de cópias, e nº 1 do Billboard dos Estados Unidos, onde vendeu nove milhões. Chegou ainda ao lugar cimeiro do top de quase todos os países que elaboram um top (incluíndo Portugal, onde chegou a disco de ouro), com excepção da Noruega e Países Baixos, onde foi nº 2, e na Itália, onde não passou do nº 4. Foi um dos primeiros discos editados em CD, e o primeiro onde as vendas nesse formato ultrapassaram as vendas em vinil. Venceu dois Grammys em 1986, para melhor produção e melhor interpretação "rock" pelo single "Money for Nothing", mas perderia a estatueta de álbum do ano para "No Jacket Required", de Phil Collins, vingando-se no ano seguinte obtendo o Brit Award na mesma categoria. Dos nove temas que compõem o álbum, sete foram lançados em forma de single. Mas o que há neste "Brothers in Arms" por detrás da espectacular capa onde se vê a guitarra de Mark Knopfler, uma 1937 National Style 0 Resonator, fotografada por Deborah Feingold, e com um desenho da mesma guitarra na contracapa, da autoria do artista alemão Thomas Steyer?

“So Far Away” foi o single de estreia deste LP. Não foi um tema tão bem sucedido como o estrondoso “Money for Nothing”, mas conseguiu seduzir o público europeu (onde se incluiu o português). Mais tarde, acabou por seduzir os americanos, chegando ao 19º lugar da tabela da Billboard. No lado B deste disco encontra-se um dos outros grandes êxitos do álbum, “Walk of Life”, o tal cujo videoclip é constituído por imagens de jogos da NBA e de futebol americano.


O segundo single e o mais conhecido é "Money for Nothing", que foi nº 4 no Reino Unido e nº 1 na Billboard, bem como no Canadá, e valeu aos Dire Straits o "grammy" para a melhor interpretação "rock" por uma banda ou duo. O tema é suportado por um videoclip realizado através de animação por computador - o melhor que se podia fazer em 1985 - e fala da moda da MTV, que vivia a sua idade do ouro em meados dos anos 80. A canção fala da reacção de dois indivíduos da classe média, um deles um operário, ao assistirem pela primeira vez à MTV. Um deles, o magrinho, fala de um músico que "bate nos tambores como um chimpanzé", enquanto o tal operário, que se assemelha a um irmão Metralha, comenta que "estes tipos mariconços, com brinco e maquilhagem, ganham dinheiro por não fazer e têm as miúdas de graça" - "money for nothing and the chicks for free". A canção foi considerada por alguns como sendo machista, racista e homofóbica (isto tudo em "Money for Nothing", vejam só), e numa entrevista à Rolling Stone, Mark Knopfler diz ter recebido uma carta com queixas de um jornal londrino, conhecido por ser um dos favoritos da comunidade LGBT. Nikki Sixx, baixista dos Mötley Crüe, diz que Knopfler lhe confessou que o tema era sobre ele e sobre a sua banda, e que tinha ouvido estes comentários de dois empregados de uma loja de electrodomésticos enquanto passava um clip dos Crüe na MTV. "Money for Nothing" foi escrito por Knopfler em parceria com Sting, que é a voz que se ouve a dizer "I want my MTV". Ah sim, o videoclip ganhou o prémio de melhor do ano em 1987...da MTV.
Este é um dos meus favoritos. "Ride Across the River", com o seu som nitidamente influenciado pelos ritmos latinos, com bongos e flautas incas, aborda a temática da guerrilha em países da América Central, muito frequentes na época, uma das consequências da Guerra Fria. A história é contada do ponto de vista de um mercenário, que "atravessa o rio, profundo e frio" com o fim de chegar à outra margem "e matar, não interessa em nome do quê, nem para quem". Profundo, como o tal rio que se atravessa. Foi editado em single apenas nos Estados Unidos, onde chegou a nº 21 na lista dos "Rock tracks", e apareceu num episódio da série "Miami Vice".



"Walk of Life" foi o single com mais sucesso depois de "Money for Nothing", chegando a nº 2 no Reino Unido e nº 7 na Billboard. Um tema muito "pop", é uma homenagem aos músicos que ganham a vida tocando em túneis subterrâneos e em estações de metro. A música é inspirada em clássicos do "rock'n'roll" dos anos 60. Uma curiosidade: "Walk of Life" ia ficando de fora do alinhamento do album, por decisão do co-produtor Neil Dorfsman, mas a banda insistiu que fizesse parte das nove faixas finais.

O solo de saxofone de "Your Latest Trick", da autoria de Michael Brecker, é inconfundível. É aquilo que se escuta numa loja de instrumentos musicais cada vez que alguém compra um saxofone, batendo nesse departamento o tema "Baker Street", de Gerry Rafferty. "Your Latest Trick" fala da noite, dos vícios, e de uma prostituta, com "o seu último truque". O tema foi lançado em single no Reino Unido, não passando de um modesto nº 26, e foi um pouco mais longe na Irlanda, onde chegou ao nº 6. Em 1993 foi re-editado para o Mercado francês, onde chegou a nº 1. O solo de saxofone fez parte do genérico de uma novela chinesa de um canal de Hong Kong em 2003.

Os dois únicos temas de "Brothers in Arms" que nunca foram editados em single foram "The Man's too Strong" e "Why Worry". Ambas excelentes canções, mas gosto especialmente da última, que chegou a ser gravada pela cantor grega Nana Moskouri poucos anos depois. E a mensagem é bem válida: "Why Worry" serve para nos lembrarmos que às vezes não vale a pena nos preocuparmos por coisas de nada. Fica aqui uma interpretação dos Dire Straits num concerto na Austrália.


E finalmente o disco encerra com o tema que lhe dá o nome. Uma mensagem anti-guerra, como convém, onde Knopfler aproveita também para exibir os seus dotes de virtuoso. O single foi nº 16 no Reino Unido, e é sempre um dos mais pedidos durante os concertos da banda. Ou era, pois após "Brothers in Arms" os Dire Straits tiveram uma agenda super-ocupada em termos de espectáculos, como seria expectável, e só voltariam a gravar material original em 1991, para o álbum "On Every Street", que seria o seu último. Se é redutor falar dos Dire Straits apenas falando deste "Brothers in Arms"? Possivelmente, mas foram eles que criaram o "monstro". E que lindo monstro.