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sábado, 5 de dezembro de 2020

BOB DYLAN, o sociólogo da música

 

Bob Dylan. O nome fala por si. Trata-se de um dos maiores nomes da história da música e um dos mais influentes desta modalidade artística. Com uma atitude muito sui generis e pioneiro tanto ao nível instrumental como lírico, o norte-americano conquistou de forma galopante os seus contemporâneos e coleciona mais de cinco décadas de êxitos e de virtude escrita. Para além do artista, a sua componente humana saltou à vista enquanto promovia uma música intervencionista, esta que refletia a postura do seu autor e que se opunha aos conflitos que deflagraram nos anos 60 e 70. Mais do que sua música, exalta-se a proeminência de uma referência na sociedade global.

Robert Allen Zimmerman nasceu a 24 de maio de 1941 no estado do Minnesota, nos Estados Unidos da América. Por fruto da ascendência báltica dos seus avós, o pequeno Robert teve uma educação judaica dada pelos seus pais no seio de uma pequena comunidade. Foi desde cedo (sete anos) que a sua paixão pela música nasceu, ouvindo com regularidade estações de rádio que passavam blues e country. Na sua adolescência, fez parte de várias bandas que produziram covers de nomes prestigiados como Little Richard e Elvis Presley. Da cidade que o viu nascer, Duluth, migrou para Minneapolis para ingressar na universidade. Foi neste período que focou a sua música no folk, fundamentando essa escolha pelo maior sentimento que recaía no mesmo. Enquanto atuava em vários eventos de folk, Robert definiu arbitrariamente, como seu nome artístico, “Bob Dylan”. O apelido deriva de uma inspiração do músico, sendo esta o poeta Dylan Thomas, este que viria a influir a criação das suas letras.

Em 1960, Bob desiste da universidade e decide viajar para Nova Iorque, onde contacta com o seu ídolo Woody Guthrie, alguém que o consciencializou para a importância de expressar o que é humano na música e para a ressalva do espírito americano. Nesta sua itinerância, contacta com vários indivíduos de renome no panorama do folk e inicia a sua nacionalização, atuando em diversos pontos do país. Um destes concertos acabou por ser analisado por um crítico no emblemático periódico “The New York Times” e os convites por parte de produtoras começaram a surgir. A introdução da harmónica no seu perfil artístico foi também marcante nesta revelação de prospeção. Assinando pela Columbia Records, o norte-americano veria o seu primeiro álbum a ser lançado em março de 1962, simplesmente denominado por “Bob Dylan”. O estilo do mesmo não fugiu ao diapasão dos seus concertos e consistiu essencialmente num álbum de folk e blues com algum gospel à mistura. Em paralelo, não hesitou em cooperar com outros artistas, nomeadamente tocando harmónica e nos vocais de suporte. Duas decisões importantes no seu futuro seriam tomadas nesse mesmo ano, sendo elas a alteração do nome para Robert Dylan e a assinatura de um contrato com o agente Albert Grossman. No final de 1962, viajou para Inglaterra e atuou em diversos bares de folk da capital britânica, iniciando nesta etapa a sua carreira internacional. No ano seguinte, lançou o seu segundo álbum, um bem mais personalizado no que toca à criação e edição das mesmas. Todas as composições foram originadas por Dylan e o protesto social começou a dar tons e melodias. Neste álbum (“Freewheelin’”), a música “Blowin’ in the Wind” ganhou contornos mediáticos pela problematização do status quo sócio-político. Diversas circunstâncias, tais como a crise dos mísseis de Cuba, o movimento crescente a favor da igualdade de direitos civis e o desarmamento nuclear, motivaram uma expressão pungente e iminente por parte do músico. Também a peculiar voz nasalada que ostentava motivou uma atenção redobrada por parte dos seus homólogos músicos, que viam na sua genialidade o complemento ideal nesta vaga que originaria a contracultura.

O terceiro álbum, lançado em 1963 e designado “The Times They Are a-Changin’’” dissipou quaisquer dúvidas sobre o pendor ativista da produção do autor, produzindo analogias entre vários episódios sociais e as suas composições. No entanto, em 1964, produziu uma série de canções relativas ao amor e às suas contingências, para além de algum descontentamento perante o seu trabalho transato. Neste sentido, entre 1964 e 1965, Bob inicia uma transição para um folk-pop-rock e retoca a sua aparência, não descartando o uso de instrumentos eletrónicos nos seus trabalhos consecutivos. Esta mudança de atitude gerou alguma controvérsia e até animosidade por parte dos que associavam o norte-americano ao ressurgimento do folk americano clássico. Contudo, composições como “Mr. Tambourine Man”, “It’s All Over Now, Baby Blue” e “It’s Alright Ma (I’m Only Bleeding)” são consideradas como três das mais relevantes músicas do repertório do artista e foram todas elas criadas neste período. Em 1965, outro dos principais singles da carreira de Dylan foi produzido, sendo este “Like a Rolling Stone”, nomeada uma das 500 melhores de sempre para a conotada revista Rolling Stone, consolidado pelo álbum “Highway 61 Revisited”. Secundado pela The Band, realizou o álbum “Blonde on Blonde” (1966), onde fundiu a vertente hipster de Dylan e o tradicionalismo proveniente de Nashville e da supracitada banda. Nesse mesmo ano, viaja para a Austrália e expande-se na Europa, fazendo a reconciliação com a sua massa de fãs e retomando, nas primeiras partes dos seus concertos, o uso da harmónica e da guitarra acústica. Contudo, a sua vida e obra são apanhados numa emboscada e quase acabados de forma abrupta.
Self Portrait (1970), de Bob Dylan, capa do
álbum homónimo que despoletou críticas negativas.

Para combater o cansaço acumulado, o artista tomou substâncias ilícitas que lhe viriam a ser danosas. Para além disso, a 29 de junho do ativo ano de 1966, Bob Dylan tem um aparatoso acidente com a sua moto, partindo várias vértebras no seu pescoço. Na sucessão deste episódio viriam oito anos sabáticos sem quaisquer concertos dados. Todavia, nesse prolongado hiato, permaneceu na produção lírica, criando a mítica “All Along the Watchtower”, celebrizada pelo guitarrista psicadélico Jimi Hendrix; e a lançar música mais consonante com as suas origens. Célebres também se tornaram as frequentes colaborações com Johnny Cash e a sua omissão do festival Woodstock, de 1969. Os anos 70, por sua vez, assistem à ressurgência de Bob Dylan aos palcos e aos êxitos, começando por “Knockin’ on Heaven’s Door”(1973), que se tornaria numa das músicas a ter mais covers de sempre. Para além disso, desenvolveu também a sua componente de desenhista e de pintor, aventurando-se em autorretratos, aguarelas, guaches, lançando seis livros desde 1994 e até expondo nos quatro cantos do mundo. Um ano profícuo em parcerias e em concertos por todo o mundo, destacando-se 1978 pelos 114 existentes entre Ásia, Europa e EUA. O seu legado, mais do que afirmado e assegurado, seria consolidado em mais álbuns, apesar dos altos e baixos que a exigente e divergente tendência musical implica. Os mesmos apresentam-se a seguir:
  • Blood on The Tracks (1975)
  • Desire (1976)
  • Time out of Mind (1997)
  • Love and Theft (2001)
Entre onze Grammy Awards, um Academy Award e pelo reconhecimento no Rock n’ Roll Hall of Fame, há muito mas muito mais que se pode contar sobre Bob Dylan e a orla de influência que construiu desde os anos 70. A sua escrita cruzou a poesia com a música, sendo um dos pioneiros, ao lado de Jim Morrison, na sua fusão e no tratamento de ambas como uma só. Esta proeza lírica valeu-lhe o Prémio Nobel da Literatura em 2016, precisamente devido a um legado na composição musical que se equipara, também, ao de Leonard Cohen. Instrumental e melodicamente, revelou-se o salvador do folk que se ia camuflando graças à emergência do profundo jazz e ao grito de revolta do rock.

A força da palavra que transmitia com a sua vigorosa melodia, para além da temática incisiva e profunda, permitiu que o reerguimento do folk decorresse de forma subtil mas natural. Não obstante o seu caraterístico estilo, não se esqueceu de provar de tudo que havia para provar. Country, gospel, blues, R&B e rock n’ roll. Por esta versatilidade, nomes como Neil Young, Nick Cave, David Bowie, Syd Barrett, Tom Waits, Patti Smith, Joni Mitchell e os quatro Beatles de Liverpool louvaram o seu papel na formalização espontânea da música. Esta como instrumento de sátira, de crítica e de reflexão mas também de sentimento e de comprazimento. Tudo passou pela mente e pelo coração de um referencial musical, o mesmo que às palavras deu verdade e à música uma renovada felicidade.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Morreu hoje Charles Aznavour (1924-2018)

Morreu, aos 94 anos, Charles Aznavour, figura maior da canção popular francesa, voz que cruzou gerações e autor a quem muitos outros deram novas vidas. Era muitas vezes comparado a Frank Sinatra pelo tom melancólico do seu canto e pelo charme que moldava a sua pose e imagem. Porém, ao invés de Sinatra, Charles Aznavour era um autor e, mesmo tendo interpretado alguns temas de outros autores, a esmagadora maioria da sua obra fez-se com gravações e interpretações em palco de canções que ele mesmo escreveu. Ao todo deverão ser na ordem das 1300 as composições que Charles Aznavour deixou e que constituem um importante corpo da história da canção popular francesa do século XX. Estava, porém, longe de pensar que um dia, voluntariamente, colocaria um ponto final numa carreira que ainda mantinha ativa uma agenda de palcos. Há dois anos, muitos certamente recordam a sua derradeira atuação portuguesa, no palco da Altice Arena. Agora tinha acabado de regressar de uma digressão pelo Japão e no último verão só não deu mais concertos porque uma queda lhe partiu um braço. O presidente francês Emmanuel Macron, depois de um primeiro tweet ter destacado as suas raízes arménias e o facto de “ter acompanhado as alegrias e dores de três gerações”, revelou já que o tinha convidado para atuar este mês em Erevan (na Arménia) no âmbito de um encontro de países francófonos…
A relação de Charles Aznavour com a música começou bem cedo quando, ainda bem pequeno, ainda sob o seu nome real Shahnourh Varinag Aznavourian, começou a cantar em pequenos espetáculos locais. Filho de emigrantes arménios, nasceu no bairro parisiense de Saint Germain des Près em 1924 e, durante a ocupação nazi, ele e a família ajudaram a esconder judeus no seu apartamento. Por essa altura tinha já desenvolvido uma admiração particular por nomes da canção francesa como Maurice Chevalier ou Charles Trenet. Tinha já um trabalho regular de escrita de canções (inicialmente em parceria com Pierre Roche) quando, depois da guerra, é notado por Edith Piaf que o chama para trabalhar a seu lado. Durante algum tempo Aznavour esteve sob a sua sombra, mas na década de 50 as canções que escreve para Gilbert Bécaud e as que ele mesmo começa a gravar nos seus discos dão-lhe visibilidade que o liberta e transporta para um espaço de protagonismo na música francesa que o acolhe como um dos grandes da segunda metade do século XX.
Grava inúmeros discos criando uma discografia que recua aos tempos dos 78 rotações e que acompanhou o LP quase desde os primeiros passos deste formato. Edita mais de cem álbuns e mais de 400 singles e EPs, construindo uma obra com dimensão internacional que, no plano das vendas, terá alcançado números na ordem dos 180 milhões de exemplares. Mas mais do que os números e a soma dos êxitos, a obra de Aznavour abriu caminhos importantes no plano das ideias. Foi dos primeiros a cantar questões de identidade num plano mainstream, colocando na sua voz as experiências de algumas minorias. Queria, como ele mesmo chegou a explicar, “quebrar tabus” como, por exemplo, o fez em Comme Iles Disent (originalmente incluído no álbum de 1972 Idiote Je T’Aime), onde canta sobre homofobia. A canção teria, nos anos 90, uma versão brilhante por Marc Almond, que a cantou em inglês (com o título What Makes a Man a Man) no concerto 12 Years Of Tears no Royal Albert Hall. Anos antes, em 1955, uma outra canção sua, Après L’Amour, tinha gerado um “caso” pelo modo como as palavras descreviam o ambiente entre um casal depois de um ato sexual.
A força das palavras, o fulgor do intérprete, são elementos na história de uma figura que talhou uma relação particular com Portugal através do seu relacionamento com Amália Rodrigues, para quem compôs Aïe Mourrir Pour Toi. As versões são parte de uma vasta história feita de canções, de discos, de filmes (que envolvem realizadores como Truffaut e Chabrol, entre outros), que fazem de Aznavour um daqueles seres maiores que a história da música não vai nunca esquecer.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Frank Sinatra faria hoje 102 anos

“The Voice” calou-se a 14 de Maio de 1998

Falar de Frank Sinatra é falar de um dos maiores cantores do século XX. Um verdadeiro ícone, que dividiu a sua actividade entre os palcos e o cinema, sempre com aquela voz inconfundível. Se fosse vivo, Frank Sinatra faria hoje 100 anos, pois nasceu em Hoboken a 12 de Dezembro de 1915, mas faleceu a 14 de Maio de 1998, em West Hollywood (Los Angeles).
Frank Sinatra interpretou uma carreira recheada de êxitos, uma das mais gloriosas da História da Música Popular. Mesmo antes dos Beatles já Frank Sinatra se tinha cruzado com a “histeria” da sua multidão de fãs. Cantor idolatrado, mas também actor em plena época glamourosa de Hollywood, Frank Sinatra coleccionou sucessos discográficos, sobretudo no período do pós-guerra. Uma das suas mais famosas canções “My Way” detém ainda o recorde britânico do single que mais tempo se aguentou nos “charts”: 136 semanas!
A carreira do jovem Sinatra começou em 1935, muito por culpa da sua mãe que convenceu um grupo vocal local, os 3 Flashes,  a aceitá-lo como membro. O grupo iria então tornar-se conhecido por The Hoboken Four. Mas também nesse mesmo ano, aos 19 anos de idade, Frank Sinatra iria ter a sua primeira participação no cinema como actor. Mas este episódio quase que foi apagado da biografia do actor, pois o filme em questão era pornográfico. Frank Sinatra terá recebido 100 dólares para aparecer na fita como um bandido mascarado. Já depois de se ter tornado um artista famoso, Frank Sinatra terá tentado junto de influentes amigos impedir a distribuição e exibição do filme pornográfico, então chamado de “blue movie”. Ao todo, ente 1944 e 1984, “The Voice”, como ficou conhecido Frank Sinatra, participou como vedeta principal em 56 filmes e programas especiais de televisão.
“Entertainer” maior da América, pago a peso de ouro, capaz de arrastar multidões, Frank Sinatra tomou a decisão de não actuar em qualquer casino ou hotel de Las Vegas enquanto estes não aceitassem artistas negros, numa clara manifestação contra o racismo reinante no Estado do Nevada. Contudo, mais tarde, na década de Frank Sinatra60 Frank Sinatra iria estabelecer a sua residência em Las Vegas. A sua figura ultrapassava claramente o mundo do “show business”, com importante influência no mais alto meio político norte-americano. As suas relações com a Máfia, nunca totalmente esclarecidas, fazem também parte da vida ímpar deste ímpar cantor.
Em plena época dominada pelo Rock ‘n’Roll, Frank Sinatra não escondeu a sua aversão a este novo estilo musical, considerando-o “a mais brutal, feia e viciosa forma de expressão que tive o desagrado de ouvir”. Sobre a canção “Light My Fire” dos Doors disse mesmo que “foi o pior disco que ouvi!”. Expressões que mostram bem a forma como Frank Sinatra odiava o novo ritmo que tinha conquistado a juventude. Mas as gerações mais velhas, os seus fãs de sempre, mantiveram-se fiéis ao “crooner” – um dos maiores do século XX. Ao longo da sua carreira, Sinatra vendeu mais de 150 milhões de discos.

domingo, 3 de dezembro de 2017

JIM DIAMOND (1951 - 2015)

Chamaram-lhe "a resposta escocesa a Ray Charles" pela forma ritmada de tocar piano e pelo estilo carregado de sentimento, próximo da soul, com que cantava, fosse sobre amores desavindos ou sobre a vida das classes trabalhadoras, a que pertenciam a mãe e o pai, uma costureira carinhosa e um bombeiro conhecido em Glasgow (onde James "Jim" Diamond nasceu a 28 de Setembro de 1951) por se levantar a meio das festas para cantar. A sua primeira influência musical foi ele - e o seu gosto pelas raízes celtas, que viria a marcar a própria ruptura de Jim Diamond com o êxito comercial quando, depois do mega-sucesso de I Should Have Known Better, em vez de gravar a pop que a editora queria, decidiu fazer um álbum de folk. 
Porém, foram os discos de soul que o irmão mais velho levava para casa que definiram o seu estilo. Em 2011, recordou esse tempo à revista Blues and Soul: "Ouvi pela primeira vez Sam Cooke na rádio e foi uma revelação. Também adorava Otis Redding e Ray Charles e lembro-me de pensar que não havia canção mais feliz que Mockingbird, de Inez e Charlie Foxx. Naturalmente, quando decidi ser cantor, escolhi o género que amava." 
Eram os anos 60 e Jim Diamond queria ser como os seus ídolos americanos, mas também como os tipos cool de Glasgow, que tocavam em bares e andavam de um lado para o outro montados em scooters. Aos 14 anos fundou a primeira banda, The Method, e aos 15 tornou-se vocalista dos Jade, que abrilhantavam festas universitárias e pubs. Não satisfeito, respondeu a um anúncio que pedia um cantor para os Gully Foyle, com os quais fez a primeira parte de alguns concertos dos Procol Harum, então estrelas do rock progressivo, e foi aí que Alexis Korner, considerado o fundador do blues britânico, deu por ele e o contratou. 
O blues não era, porém, a cena de Diamond, que em 1976 se virou para o rock com os Bandit (que integravam também Cliff Williams, mais tarde dos AC/DC), mas a banda não singrou por causa da concorrência do punk, então recém-nascido. Ele não se ficou e, no início dos anos 80, resolveu fundir a sua amada soul com a new wave da moda e teve o seu primeiro sucesso, com os Ph.D: I Won't Let You Down. Por azar (ou terá sido sorte?) apanhou hepatite quando a banda estava prestes a embarcar numa digressão mundial e ficou de cama. 
Reapareceu a solo, em 1984, com I Should Have Known Better, êxito estrondoso, como não voltou a ter - mas também não o desejava. Marido e pai extremoso (de Sara e Lawrence, que receberam os nomes dos seus próprios pais, cuja vida difícil lhe incutiu arreigada ideologia política de esquerda), preferiu a partir daí viver longe dos holofotes, dedicando-se a projectos humanitários e a ajudar jovens músicos, tanto no seu estúdio como no programa de rádio que teve e que deixou por causa da "ditadura da publicidade". 
"Todos os que o conheceram sabiam que ele não era um pai normal ou, sequer, uma pessoa normal", escreveu emocionado o filho (teclista dos Citizens!) no Facebook, em reacção à sua morte (enquanto dormia, na sua casa de Londres, aos 62 anos) na madrugada de sábado, 10 de Outubro de 2015.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

JANIS JOPLIN (1943 - 1970)

Estamos em 1943, na cidade texana de Port Arthur quando nasce Janis Lyn Joplin. Sensível e solitária, de baixa auto-estima, esta rapariga de grande propensão artística marcou a história da música e é hoje relembrada, muitos anos depois da sua morte, pelo estilo ousado que tanto destoava do dos seus colegas. Com uma atração visceral pela cultura negra, Janis Joplin chegou a ser apelidada de nigger lover (‘amante de negros‘). O seu fascínio veio da leitura de autores beats como Jack Kerouac e Allen Ginsberg. E também por parte de um colega, outro desajustado socialmente, que lhe apresentou alguns discos alternativos, coisas que não tocavam nas rádios locais. Foi assim que Janis Joplin conheceu o blues, blues de raiz, tipo Leadbelly e a voz de Bessie Smith (1894-1937). O desejo e a certeza de que seria uma cantora de blues começa então a florir por esta altura. Depois de uma adolescência também solitária, dentro do quarto ouvindo discos de Bessie e de outras divas do blues, ou fazendo selectas e peculiares amizades com jovens negros da área, principalmente músicos, Janis Joplin deixa a família e faz-se à estrada. Em bares começa a cantar em troca de bebidas e de outras substâncias alucinógenas, a que já se tinha habituado.
No início da década de 60, muda-se para Los Angeles, encontrando os seus pares na cena beatnik local: músicos, poetas e artistas underground. Começa a cantar rock encharcado de blues, ou vice-versa e a criar a sua reputação. Em 1967 teve sua grande hipótese de brilhar no Primeiro Festival Pop de Monterey – o mesmo que catapultou Jimi Hendrix às estrelas – e cantou um dilacerante e obscuro blues da gaitista, baterista e cantora negra Willie Mae, “Ball and Chain”. Até então, provavelmente ninguém jamais tinha ouvido uma rapariga de origem caucasiana cantar com tanta sofreguidão e sensualidade um blues. Seguem-se álbuns, concertos e festas. Rica e famosa, sempre rodeada de pessoas, Janis Joplin continuou a exorcizar/cantar blues, trocando de bandas e amantes. Tinha uma terrível e angustiante instabilidade emocional, reforçada por doses cavalares de álcool, erva, anfetaminas, ácido, tabaco, cocaína, metadona e heroína, aquele que foi o seu vício mais nocivo e o passaporte para o fim precoce. Em 1970, passou um inusitado, exótico e até então pouco conhecido período no Brasil, mais precisamente no Carnaval do Rio de Janeiro. Este foi também o ano que marcou uma fase de amadurecimento profissional no meio do caos. Janis Joplin criou uma nova banda, sugestivamente intitulada Full-Tilt Boogie, que faria um ”loud electric funky country blues”, e preparava-se para dar à luz o seu melhor trabalho, Pearl, lançado postumamente, em 1971.

Janis Joplin: o funeral que foi uma festa

No dia 4 de outubro de 1971, foi encontrada morta e sozinha, vítima de uma overdose de heroína num quarto de hotel em Los Angeles. Tinha 27 anos. No seu testamento, deixou mais de 2500 dólares para serem gastos pelos seus amigos numa homenagem fúnebre, num bar noturno que reuniu cerca de 250 pessoas, que tinham em mãos convites a dizer: “Bebidas por conta de Pearl”. Pearl, para quem não sabe, era a alcunha pela qual a artista era conhecida entre os amigos. A voz de Janis Joplin é quase um regresso ao grito negro dos primórdios do blues. Uma estranha e bela herança musical: uma branca que cantava e que teve um estilo e um final de vida como os trágicos negros do blues. Pouco antes de morrer, Janis mandou ainda construir um túmulo de mármore negro para Bessie Smith, a imperatriz do blues e a sua maior heroína, que morreu na sequência de um acidente de aviação que gerou polémica, especialmente porque acredita-se que a artista poderia ter sobrevivido se tivesse sido admitida num hospital reservado apenas a brancos. No novo túmulo da cantora negra, enterrada num cemitério em Filadélfia, Janis Joplin mandou escrever: “A maior cantora de blues do mundo jamais deixará de cantar”. Um epitáfio justo que tão bem se aplica à própria Joplin.

domingo, 15 de outubro de 2017

Bronski Beat lançam "The Age of Consent" há 33 anos...

(Lançamento: 15 de outubro de 1984)

Contemporâneos do momento em que os New Order e os Dead or Alive encontravam pontes de diálogo entre a canção pop e as formas de música de dança e antecessores dos Pet Shop Boys na integração de elementos hi-nrg e heranças do disco num quadro pop, os Bronski Beat são hoje, estranhamente, um nome quase esquecido. Destino injusto para, sobretudo, o álbum de estreia da banda que, editado em 1984, merece morar entre a lista dos grandes momentos pop dos oitentas. E por várias razões. Se ainda hoje os sinais de homofobia cruzam os noticiários e relatos de comportamentos de todos os dias, imaginemos então como seria o cenário em 1984. E quando, em junho desse ano, uma banda nova entra em cena com Smalltown Boy, um single que canta, sob matriz hi-nrg e uma irresistível composição pop, uma história de discriminação e alienação sem medo de chamar as coisas pelos nomes, os Bronski Beat começaram a fazer a diferença. O single que, tal como o sucessor (e igualmente claro na sua agenda temática) Why? Se transformaram em claros êxitos, alcançando posições de destaque nas tabelas de vendas de vários países, fazia do trio britânico um dos “casos” do ano. 
Cedo ficou todavia claro que a ideia do grupo não se esgotava numa postura ativista, aliando a toda uma marcante ação política uma visão musical que promoveu o que então eram ainda pouco frequentes expressões de visibilidade pop para formas e sons que respiravam sobretudo na cultura da noite. A voz em falsete de Jimmy Sommerville (que dividiu opiniões), o recurso às electrónicas como ferramentas de trabalho, uma produção atenta a uma necessidade de manter vivo o viço das estruturas rítmicas e uma mão cheia de belíssimas canções pop completam os ingredientes de The Age Of Consent. O álbum inclui, além dos dois singles acima citados, uma versão de It Ain’t Necessairly So de Gershwin e uma outra de I Feel Love de Donna Summer, momentos que expandem os horizontes de um alinhamento de vistas largas onde cabem ainda episódios dignos de um reencontro como Need A Man Blues, Heatwave ou o retrato sobre a cultura normalizadora na idade do grande consumo que escutamos em Junk. 28 anos depois, o disco é um caso estranho de silêncio. Perante a multidão de edições e repackages que moram nas agendas de lançamentos, este é um disco ainda à espera de uma revisitação. 
E depois do disco: 
Tensões internas levaram ao afastamento de Jimmy Sommerville em 1985, que então parte para formar os Communards, partindo depois para uma carreira a solo. Steve Bronski e Larry Steinbachek mantém ativos os Bronksi Beat através de uma sucessão de vocalistas, editando mais dois álbuns e uma mão cheia de singles que em nada repetem nunca o patamar habitado pelo seu álbum de estreia.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Morreu DANIEL BACELAR, o primeiro músico de rock português

"Fui Louco Por Ti”, 1960. Daniel Bacelar foi o autor daquele que é considerado o primeiro tema de rock em Portugal, cantado em português. O músico de 74 anos morreu esta sexta-feira, 29 de setembro. Sofria de um cancro.
O músico começou por se destacar aos 17 anos quando venceu o concurso “Caloiros da Canção” da Rádio Renascença. Nessa década de 60, gravou vários discos e dava concertos regularmente no Teatro Monumental, em Lisboa.
Entretanto retirou-se dos palcos e estúdios, mas foi aparecendo aqui e ali. Em 2009, foi convidado por Rita Redshoes para interpretar ao vivo “Lonesome Town”, de Ricky Nelson, no Festival dos Oceanos, em Lisboa. Daniel Bacelar preferia fazer estas versões cover e deixou para trás temas próprios como “Sem Ti”, “Porque Será” ou “Um Mundo Sem Amor”.
Parte da sua história foi contada em 2011 no documentário “Meio Metro de Pedra”, realizado por Eduardo Morais, sobre a evolução e os primeiros passos do rock português.

sábado, 18 de março de 2017

Morreu CHUCK BERRY...

Charles Edward Anderson Berry, melhor conhecido pelo seu nome artístico Chuck Berry, nasceu no dia 18 de Outubro de 1926 e construiu uma reputação graças ao seu trabalho como guitarrista, cantor e compositor. No entanto, por ter sido um dos pioneiros do rock and roll, o seu nome nunca será esquecido.
Criador das célebres músicas “Maybellene”, “Roll Over Beethoven”, “Rock and Roll Music” e “Johnny B. Goode”, Chuck Berry aperfeiçoou e desenvolveu o rhythm and blues, incorporando-o num género emergente e garantido que o rock and roll se tornava no conjunto de sonoridades distintas pelo qual hoje o conhecemos. As suas canções, que se centravam na vida adolescente e realçavam temas como o consumismo, foram uma forte influência no género de rock que se repercutiu nas décadas seguintes.
Vindo de uma família da classe média, em St. Louis, Missouri, Chuck Berry era ainda muito pequeno quando demonstrou interesse pela música, fazendo a sua primeira apresentação musical na escola. No entanto, em 1944, quanto se dedicava ainda aos estudos, uma reviravolta dá-se na vida do artista: é preso por assalto à mão armada, ficando encarcerado entre 1944 e 1947.
Ao ser libertado, Berry decide constituir uma família, casando-se com Themetta Suggs e consegue um emprego fixo numa fábrica de montagem de automóveis. Ainda assim, enquanto constituía uma vida e assentava, Berry ia mantendo o seu interesse pela música. Em 1953, influenciado pela música e estilo musical de T-Bone Walker, Berry começou a fazer alguns concertos à noite ao lado de Johnnie Johnson.
A vida do jovem desconhecido guitarrista começou assim a mudar em Maio de 1955, quando  se cruzou com Muddy Waters, que o pôs em contacto com a editora Chess: é esta a oportunidade que dá a Chuck Berry o momento da sua vida e de fazer aquilo de que realmente gosta. Nos anos que se seguem vai-se consagrando como artista, viajando pelo país para inúmeros concertos onde faz fervilhar a audiência com Roll Over Bethoveen, Sweet Little Sixteen e School Days.
A maioria dos grandes hits de Berry foram gravados na própria Chess, com as participações do pianista Johnnie Johnson, o baixista Willie Dixon e o baterista Fred Below, dando base ao que viria a ser a constituição básica de uma banda de rock and roll. De resto, Chuck preferia tocar sozinho, especialmente durante os seus tours: por norma, procurava e encontrava bandas locais que o acompanhassem em palco.
No entanto, quando começa a ganhar ritmo no seu trabalho musical, é novamente preso, desta vez em 1959, acusado de se envolver com uma empregada de mesa com apenas 14 anos. Condenado a pagar uma multa na ordem dos 5 mil dólares, é mantido atrás de grades até 1963. Ao sair da prisão, espera-o uma nova jornada. Ainda que não tenha conseguido alcançar o sucesso de que usufruía antes de ser preso, o artista continua a viver uma vida razoável de sucesso, focando-se nos clássicos melhor aplaudidos pelos fãs do que em criar novas canções.
No início da sua carreira, Chuck Berry foi fortemente influenciado por grandes artistas como King Cole, Louis Jordan, além de, claro, Muddy Waters, que o ajudou a lançar. Mais tarde, foi ele que se tornou na influência, ajudando a definir a voz de bandas como Beatles, Animals e Rolling Stones. E se há ainda dúvidas quanto à posição e impacto de Chuck Berry no panorama musical norte-americano, temos a prova da revista Rolling Stone que elegeu o artista como o 5.º maior nome da música de todos os tempos, considerando-o ainda o 7.° melhor guitarrista do mundo.
No dia 18 de março, Chuck Berry faleceu devido a uma paragem cardíaca, com 90 anos. Os seus últimos anos tinham sido dedicados à reprodução dos clássicos que marcaram o seu repertório – como dissemos anteriormente, o artista não se dedicou à gravação de novas músicas – e o seu tempo enquanto artista era especialmente preenchido com concertos no clube Blueberry Hill. Todavia, o artista parece ter repensado a sua decisão de não gravar novos conteúdos porque chega agora o álbum CHUCK que traz dez novas gravações, das quais oito são totalmente compostas pelo próprio Chuck Berry.
CHUCK é o primeiro álbum do músico desde “Rock It”, lançado originalmente em 1979.  O novo disco foi gravado e produzido pelo próprio Chuck Berry em vários estúdios em St. Louis, nos EUA, e inclui participações do seu grupo de sempre – incluindo os filhos Charles Berry Jr. (guitarra) e Ingrid berry (harmónica, voz), e ainda Jimmy Marsala (baixista de Berry durante 40 anos), Robert Lohr (piano) e Keith Robinson (bateria) – que tocaram consigo durante quase duas décadas em mais de 200 concertos na residência que teve no célebre clube Blueberry Hill.
O álbum também inclui participações de convidados como Gary Clark Jr., Tom Morello, Nathaniel Rateliff e Charles Berry III, neto do próprio Chuck Berry. Já o aclamado escritor e historiador Douglas Brinkley escreveu um artigo que é agora incluído nesta edição de CHUCK.
Este novo álbum é apresentado pelo single Big Boys, que conta com as colaborações de Tom Morello e Nathaniel Rateliff, e que Brinkley descreve como “um hino nacional para os guitarristas”.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Frankie Goes To Hollywood

Berço dos Beatles, a cidade de Liverpool conheceu particular agitação em finais de 70, em plena ressaca do punk. Ali entraram em cena nomes como os Teardrop Explodes, Echo & The Bunnymen, OMD... Contudo, a banda da cidade de que mais se falaria na década de 80 não era então mais que uma discreta aventura local e encontrava nome num texto sobre Frank Sinatra numa edição da New Yorker, onde se lia "Frankie Goes To Hollywood"...
Ninguém deu por eles nos primeiros anos de vida. E vários foram os "nãos" que ouviram de algumas editoras... Em finais de 1982, John Peel convidou-os para uma sessão, na qual gravaram, entre outros, Two Tribes e Relax. Em inícios de 83, nova sessão. Na mesma altura, e ainda sem editora, são chamados a tocar na televisão, no programa The Tube. Trevor Horn (ex-Buggles), que acabara de abrir uma editora, desafiou-os a juntar-se à ZTT Records. E da noite para o dia a vida da banda mudava completamente.
A gravação do primeiro single gerou logo focos de tensão. "Cansado" de ouvir a banda tocar da forma como o faziam, como o vocalista Holly Johnson recordou mais tarde na sua autobiografia (A Bone In My Flute, 1994), Trevor Horn afastou a banda do estúdio. Preparou então uma nova base mais electrónica. Os três músicos da banda - Peter Gill (bateria), Mark O'Toole (baixo) e Brian Nash (guitarra), juntamente conhecidos como The Lads - foram então levados para uma piscina, onde J.J. Jeckzalic (dos Art Of Noise) os gravou a mergulhar. Esse som, manipulado, seria a sua única contribuição para o disco. Paul Rutherford, o quinto elemento, e tal como o vocalista abertamente gay, era a segunda voz. Assombrados pelo facto de estarem a trabalhar com Trevor Horn, nem protestaram. "Dizíamos que sim a tudo o que ele sugerisse", recorda Holly Johnson no livro. E perceberam, pelo contrato que tinham assinado, que a editora "tinha as cartas na mão".
Ao mesmo tempo, Paul Morley, jornalista musical e outro dos fundadores da ZTT, desenhava uma estratégia de lançamento para o grupo. Por um lado criando anúncios de imprensa com frases bombásticas. Depois, tomando três assuntos polémicos como cartões de visita para o grupo: sexo (via Relax), a guerra (em Two Tribes) e a religião (em The Power Of Love). Foi também Morley quem criou o slogan "Frankie Say... Relax", inicialmente usado numa T-shirt promocional, depois transportado para uma linha de merchandising. A relação da banda com as contribuições de Morley azedou com o tempo. Perante o impacte global de Relax (que em poucos meses chegaria ao número um), Holly Johnson recorda que "a ZTT chamou a si o crédito pelo sucesso da banda, justificando que era a forma como Morley havia citado a letra na capa que o teria causado".
A verdade é que a ideia que coordenou o lançamento da banda foi, juntamente com a força da música, infalível. Two Tribes (com um teledisco mostrando Reagan e Chernenko em cenas de luta numa arena) repetiu o fenómeno de Relax. E The Power Of Love garantiu-lhes um terceiro número um. O álbum de estreia, Welcome To The Pleasuredome, foi acolhido com entusiasmo pelo mercado e sob aclamação na crítica. Eram o fenómeno pop do ano. Mas saberiam resistir ao efeito da novidade?
Em 1985 editam um quarto single do primeiro álbum, mas "falha" o número um. Regressam em 1986 com um segundo álbum, Liverpool, claramente menor. Os singles dele retirados - Rage Hard, Warriors Of The Wastelands e Watching The Wildlife - reflectem uma progressiva queda de popularidade.
Entretanto as tensões internas avolumavam-se. Sobretudo entre o vocalista e os restantes músicos. Tanto que, terminada uma curta digressão, o grupo acaba mesmo por se separar. Após longa disputa legal com a ZTT, Holly Johnson inicia uma carreira a solo em 1989. Paul Rutherford segue igual caminho. Os outros três músicos chegam ainda a ter novas vidas na música, mas sem igual visibilidade.
Na sequência de uma tentativa frustrada de reunião para um programa do VH-1, alguns dos elementos do grupo (salvo Nash e Johnson) acabaram mesmo por voltar a tocar juntos. Há dois anos anunciaram novo nome (Forbidden Hollywood). Mas a coisa ainda não teve mais continuidade...

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Vinicius de Moraes (1913-1980)

Vinicius de Moraes nasceu no Rio de Janeiro, no dia 19 de Outubro de 1913. Foi aquele poeta que qualquer cantor queria ter por perto. O poetinha, que também foi diplomata, jornalista e dramaturgo, transpirava poesia. Era impossível não ficar rendido aos seus sonetos, à sua eterna arte de seduzir e conquistar através da palavra.
A vida boémia e de excessos que levou durante cinco décadas não permitiu tê-lo entre o reino dos vivos mais de sessenta e seis anos, mas a genialidade dos seus textos deram-lhe um visto gold para a eternidade, através das belíssimas canções que nasceram da sua caneta.
Sem surpresa, Vinicius cantou o Amor. De uma maneira intensa e persuasiva, bela e provocante, a que ninguém ficava indiferente. Foi ele o criador da imortal “Garota Ipanema” que desarma qualquer um no primeiro verso “Olha que coisa mais linda” e termina de modo sublime “Ah, se ela soubesse/ Que quando ela passa/ O mundo inteirinho se enche de graça/ E fica mais belo/ Por causa do amor”.
Vinicius eram um excelente parceiro. Além da eterna parceria com o uísque, formou nove parcerias conjugais dando razão a uma das suas mais célebres frases – “O Amor é eterno enquanto dura” -, mas aquelas que ficaram mais célebres foram as que assinou com Toquinho, Tom Jobim, João Gilberto, Chico Buarque, Carlos Lyra.
Há várias canções escritas por Vinicius que revisito, de quando em vez, no entanto há duas que aprecio pela sua qualidade poética, simplicidade e pelo impacto que tiveram na carreira do poetinha e de outros nomes grandes da cultura brasileira: “Chega de Saudade” e “Eu sei que vou te amar”. São dois saborosos frutos da parceria com o amigo Tom Jobim, nos maravilhosos anos cinquenta, da música popular brasileira.
No poema “Chega de saudade”, Vinicius declara a saudade como uma coisa triste e causador de sofrimento. Ele que sempre foi um prático, achou que as saudades eram coisa para morrer entre “abraços apertados, beijos e carinhos”. Curiosamente há outro texto do poetinha em que ele reconhece todas as agruras e sofrimentos do Amor. Em “Tempo de Amor”, Vinícius declara:

”Ah, bem melhor seria
Poder viver em paz
Sem ter que sofrer
Sem ter que chorar
Sem ter que querer
Sem ter que se dar

Mas tem que sofrer
Mas tem que chorar
Mas tem que querer
Pra poder amar”

Como diria o grande Camões, Vinicius é um fogo que arde e que se vê. Nas suas poesias, há sempre paixão, erudição e muito amor. Reservei para o final, o poema de Vinicius de Moraes que mais gosto – Eu sei que vou te amar -, cujos méritos são sobejamente conhecidos, de tal forma  que grandes vultos da música brasileira como Caetano Veloso, Tom Jobim, Ivete Sangalo, Elis Regina e Ana Carolina não resistiram a cantá-lo. Vale sempre a pena ouvi-lo, em qualquer interpretação.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Morreu Prince. O "Peter Pan multifacetado" que marcou a cultura pop do século XX.

 O autor de "Purple Rain" e "Kiss" tinha 57 anos. Foi encontrado morto em casa, nos Estados Unidos.

Falar de Prince, eu diria que é falar, talvez, do maior multinstrumentista dos últimos 30 a 35 anos, um verdadeiro ícone pop, uma verdadeira referência da cultura pop do século XX, talvez só ao nível de Michael Jackson ou David Bowie, embora com uma capacidade que o colocava alguns bons metros à frente destes dois. E porquê? Porque o Prince tocava todos os instrumentos, que depois faziam parte dos álbuns e das canções que ele gravava, ou seja, ele escrevia cada nota para cada instrumento que usava em cada uma das suas canções. Dito isto, estamos a falar de um compositor, dançarino e guitarrista que gravou cerca de 40 álbuns, vendeu mais de 100 milhões de discos, foi actor, aliás, tem um dos papeis na banda sonora que compôs, o “Purple Rain”, que é uma das bandas sonoras mais vendidas, talvez a par de “Titanic” e a “Saturday Night Fever”. Eu diria que o Prince, tal como o Bowie, é um case study, é um homem que vai ser estudado agora ao longo dos anos, vai ser descoberto através dos variadíssimos álbuns, das variadíssimas participações, das variadíssimas colaborações. Deve ser também dos poucos músicos que tinha grandes noções de gestão, porque chegou a vice-administrador de uma grande editora mundial, mas eu acho que acima de tudo falar de Prince, é falar de, talvez, a par do Jimi Hendrix foi o que esteve mais perto daquele símbolo que faz parte da nossa imagem, de cantor Soul/Blues norte-americano, negro, guitarrista, que em palco é um verdadeiro Peter Pan como era o James Brown, embora o James Brown não tocasse. Eu acho que o Prince simboliza bem isso, e nos últimos 30 ou 40 anos não me lembro, à excepção como já disse do Jimi Hendrix, não me lembro de um artista tão multifacetado e com uma veia tão avassaladora, que se revelava depois nas canções e nos concertos que dava. Hoje, dia em que é anunciada a morte dele, há também uma notícia paralela, que diz que estava praticamente fechado um concerto-surpresa em Portugal, tal como o que aconteceu no Coliseu dos Recreios em Lisboa em 2013, que esgotou e que foi uma noite arrebatadora e maravilhosa. O Prince tinha este condão, de ser o génio que era, o artista que era, o músico da dimensão que era, e depois aparecia nas discotecas em Lisboa, no meio das pessoas a cantar e a tocar, e portanto, começa a ser difícil, não é? Foi David Bowie, hoje é o Prince, e enfim… É de facto um dia triste!

quarta-feira, 30 de março de 2016

Eric Clapton faz hoje 71 anos (Parte II)

A autobiografia de Eric Clapton é essencial para qualquer admirador do guitarrista e não só. Ao longo da obra, Clapton explora todas as facetas da sua vida, tal como sempre explorou o braço da guitarra. A amizade, os problemas pessoais, o amor, a espiritualidade, o amadurecimento e principalmente a música, encontram lugar naquele que foi considerado o livro de memórias mais aguardado durante décadas.
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A obra relata o triunfo da música sobre a adversidade. O próximo passo será, sem dúvida, o filme. Mas a vida de Eric já daria um filme há 30 anos. Depois de ter influenciado várias gerações de guitarristas e de ter transformado a música, Clapton descreve as suas experiências em prosa. Se a compararmos com a biografia de Ray Coleman, notamos que os factos coincidem. A circunstância de Clapton ter mantido um diário desde sempre, também o ajudou a redigir este texto. Aliás, disponibilizara-o a Coleman.
“A minha vida divide-se em três fases”, revela Eric Clapton. “A fase do meio foi a mais delicada e, infelizmente, é aquela que mais interessa às pessoas… envolver-me com drogas, mulheres, o lado sombrio e perder-me. E, depois, o regresso a mim mesmo. E a música refletiu isso.”
As histórias sobre alguém que desce aos infernos e regressa são muito apreciadas. Ao contrário de outros nomes da música, que adquiriram estatuto de lenda – tal como os seus amigos Jimi Hendrix e Stevie Ray Vaughan –, Eric Clapton sobreviveu para contar.
“Desde pequeno que aprecio os diferentes aspetos da literatura inglesa, e a sintaxe e a gramática sempre me fascinaram. As únicas disciplinas em que era bom, na escola, excetuando a arte, foram inglês e literatura inglesa, embora isso não me qualifique necessariamente para escrever isto e achar que interessará a outras pessoas.”
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Ninguém se consegue esconder atrás das palavras, e Clapton é disso exemplo. Relata o modo como cresceu e ficou fascinado pela música desde jovem. “As pessoas dizem sempre que se lembram exatamente onde estavam no dia em que Kennedy foi assassinado. Eu não me recordo, mas recordo-me de entrar no recreio da escola no dia em que Buddy Holly morreu e da emoção que pairava no ambiente. Aquele lugar parecia um cemitério, ninguém conseguia falar, estávamos todos em choque. De todos os heróis musicais da época, ele era o mais acessível e autêntico. Não era espalhafatoso, mas sim, um guitarrista a sério e, para cúmulo, usava óculos. Era como se fosse um de nós. Foi espantoso o efeito que a sua morte teve. Alguns dizem que a música morreu com ele. Para mim, pareceu abrir-se.”

UMA QUESTÃO DE METABOLISMO

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Eric moeu a paciência ao avô para lhe comprar uma guitarra, mas não foi um início auspicioso. “Tratou-se claramente de um caso de pôr o carro à frente dos bois, já que eu nem sabia afinar uma guitarra e muito menos tocá-la.”
“Não havia ninguém que me ensinasse, por isso, tentei aprender sozinho, o que não foi fácil. Para começar, não pensava que fosse tão grande, era quase do meu tamanho. Quando pegava nela, os meus dedos nem sequer conseguiam rodear o braço ou pressionar as cordas.”
“Afigurava-se uma tarefa impossível e senti-me vencido. Ao mesmo tempo, fiquei incrivelmente empolgado. A guitarra era muito brilhante e, de certa maneira, virginal. Era como um artefacto doutro universo, tão fascinante e, quando tentava tocar, sentia-me mesmo a entrar no território dos crescidos.” As coisas pioraram quando partiu uma corda. “Como não tinha outras, tive de aprender a tocar só com cinco, e assim fiz durante bastante tempo…”
Abandonado pelos pais e acarinhado pelos avós, Eric tornou-se um fanático por música, mas os blues foram desde logo uma paixão. “Havia algo de primitivamente apaziguador naquela música; afetou-me o sistema nervoso.” Começou a praticar com afinco a estrutura básica dos blues: “Trabalhei naquilo até sentir que fazia parte do meu metabolismo.” Em Charing Cross Road e Denmark Street, havia diversas lojas de instrumentos, e Clapton confessa que, para ele, eram como lojas de doces:
“Ficava horas a olhar para as guitarras elétricas, especialmente à noite, quando as montras se mantinham iluminadas.”

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CLAPTON IS GOD

Eric Clapton 2 parts (1)Em breve, começou a tocar com os Yardbirds, com os John Mayall’s Bluesbreakers e, a seguir, fundou os Cream. Com pouco mais de 20 anos, era já famoso e a sua fluidez espantava as plateias. Era o protótipo do guitar hero, um virtuoso enigmático, originando a que o grafitti “Clapton is God” surgisse nas paredes londrinas. Mas, ao longo do livro, nota-se alguma falta de habilidade em lidar com as atenções. O que marcou realmente Eric foram pormenores como a ocasião em que Aretha Franklin gravava o álbum Lady Soul em Nova Iorque: “Tiraram todos os guitarristas do estúdio e puseram-me lá. Fiquei muito nervoso porque não sabia ler música, e eles tocavam por pauta. Aretha entrou e cantou «Be As Good To Me As I Am To You» e toquei. Tenho de dizer que participar nesse álbum, com todos aquele músicos incríveis, ainda é um dos pontos altos da minha vida.”
Durante o período dos Cream, conheceu Pattie Boyd, mulher de George Harrison e ficou admirado com uma criatura “cuja beleza parecia vir do interior”. A paixão arrasadora e a inacessibilidade de Boyd precipitaram uma fase de criatividade extraordinária, seguida de um período de reclusão, em que Eric se fechou na sua mansão, Hurtwood Edge, consumindo heroína. Como Clapton tinha pânico às agulhas, não se injetava, pelo que gastou fortunas no produto, inalando-o. Gastava, por semana, cerca de 10 mil euros em heroína (pelos câmbios atuais).
A sua natureza sensível era presa fácil do conforto da droga, e foram vários os amigos que tentaram resgatá-lo, mas o guitarrista só concordou em reabilitar-se dois anos depois. Durante esse período, encarou alguns dos seus dilemas. “A religião interessava-me, mas sempre resisti a doutrinas, e a espiritualidade que experimentara até então, na minha vida, fora abstrata e desalinhada de qualquer religião reconhecida. Para mim, o veículo mais fiável para a espiritualidade sempre provou ser a música. Não pode ser manipulada, politizada e, quando é, isso torna-se imediatamente óbvio.”
 Em 1975, participou na ópera-rock Tommy dos The Who, interpretando um pregador de uma curiosa igreja que endeusa Marilyn Monroe, cantando «Eyesight to the Blind», um dos melhores momentos do filme.
Clapton era mais do que uma lenda, tornara-se numa figura mitológica. As suas plateias, agora, eram estádios e já não precisava de pertencer a uma banda. Milhares de pessoas saudavam o tímido guitarrista com aplausos ensurdecedores, como se estivessem, ironicamente, numa estranha igreja.
Yvonne Elliman e Eric na digressão de 461 Ocean Boulevard.
Yvonne Elliman e Eric numa das esgotantes digressões nos anos 70.

O fenómeno sustentou-se ao longo dos anos. Dominou os concertos do Prince’s Trust, esgotou concertos a fio no Royal Albert Hall, com orquestra e sem ela e, em 1993, deixou o Madison Square Garden a seus pés, ofuscando todos os participantes na homenagem a Bob Dylan.

A FALÁCIA

Durante a fase Derek and the Dominos.
Durante a fase Derek and the Dominos.

Apesar de ter dedicado a vida à música e de ser autor de muito do trabalho de guitarra mais espantoso de sempre, E.C. também assinou vários discos medianos como No Reason To Cry, August ou Backless; o período dos anos 80 é efémero, bem como o anticlímax que foi o seu álbum homónimo de estreia a solo. O grande segredo de ‘Slowhand’ foi ter tido sempre uma aproximação respeitosa à sua arte. Contudo, nos anos 70, chegou a dar um concerto inteiro estendido no palco. “Ninguém achou nada estranho. Provavelmente o público também estava bêbedo”, admite.
Se a estrada do excesso leva realmente ao palácio da sabedoria, Clapton formou-se com mérito. Durante a década de 70 e grande parte da década de 80, quase foi destruído por outro vício que lhe minou a saúde mental e física. Por pouco não se matou num acidente de automóvel, as suas atuações tornaram-se cada vez piores. Passou noites com uma garrafa de vodka, um grama de cocaína e uma espingarda em cima da mesa, a contemplar o suicídio.
“Costuma dizer-se ‘beber para esquecer’”, reflecte Eric, “mas a grande falácia do álcool é essa. Só amplia os problemas. Eu bebia para banir um problema e, quando ele não desaparecia, bebia mais, pelo que a finalidade do meu hábito era uma loucura”.
Cortou radicalmente e, durante um jantar, começou a ver a sala andar à roda. “Acordei na ambulância e vi Pattie assustadíssima a olhar para mim. No hospital, disseram-me que se tratara de uma crise motivada por abstinência súbita.”
O problema de Clapton mergulhou-o no desespero. No início dos anos 80, concordou em reabilitar-se, viria a ter uma recaída e, durante a segunda desintoxicação, na clínica de Hazelden, apercebeu-se subitamente da gravidade do seu estado. “De repente, as pernas cederam, como se por vontade própria. Na privacidade do meu quarto, pedi ajuda. Não sei com quem pensava que estava a falar. Só sabia que chegara ao fim da linha. Já não podia lutar com mais nada.” Dias depois, apercebeu-se de uma transformação. “Um ateu provavelmente diria que foi uma mudança de atitude e até é verdade, mas foi mais do que isso. Eu encontrara um lugar onde pedir ajuda, sempre soube que ele estava lá, mas nunca quis ou precisei de acreditar nele.”
Começou a rezar: “Todas as manhãs, pedindo ajuda, e à noite, para expressar gratidão pela minha vida e, acima de tudo, pela minha sobriedade. Nunca tive problemas com a religião e as matérias espirituais sempre me suscitaram grande curiosidade, mas a minha busca afastou-me da igreja e das congregações, à medida que enveredava por uma jornada interior. Antes de a minha recuperação ter começado, encontrei o meu deus na música e nas artes, com escritores como Herman Hesse e Khalin Gibran, e músicos como Muddy Waters, Howlin’ Wolf e Little Walter. De algum modo, o meu deus sempre esteve comigo, mas agora aprendi a falar com ele.” Em 1987, após inúmeros retrocessos, Clapton parou definitivamente de beber. Outro grande motivo foi a paternidade.
Em finais dos anos 60, aos 20 e poucos, Eric já tocava com um dos seus heróis: B. B. King.
Em finais dos anos 60, aos 20 e poucos, Eric já tocava com um dos seus heróis: B. B. King.

“O” MOMENTO

Quando começou a escrever sobre a morte do seu filho, os editores pediram mais. Clapton respondeu: “Apenas posso escrever sobre como é difícil regressar a esses tempos. Só escrever sobre isso me aterroriza.” Eric tinha uma filha, Ruth, de um relacionamento anterior, que vivia com a mãe e não se dava com o pai. Quando Conor nasceu, Clapton estava ansioso por testemunhar o momento:
Eric Clapton 2 parts (22)“Tinha a sensação incrível de que ia ser a primeira coisa importante que me acontecera. Até então, a minha vida parecera uma série de episódios com pouquíssimo significado. Só me pareceu real quando me desafiava a mim mesmo musicalmente. Tudo o resto, o álcool, as digressões, até a minha vida com Pattie, tinha um ar de artificialidade. Quando o bebé finalmente nasceu, deram-mo para pegar nele. Fiquei extasiado, senti-me tão orgulhoso… embora não fizesse ideia de como se pegava num bebé.”
Clapton analisa a relação que tinha com a criança, a pessoa mais importante da sua vida, “um ser angelical”, adorado por todos, desde o manager aos amigos. Em março de 1991, o telefone tocou e a mãe gritou-lhe que Conor estava morto.
“Lembro-me de percorrer Park Avenue e de pensar, ‘está tudo bem’… como se alguém se pudesse ter enganado num assunto destes.” Quando passou pelo prédio onde o acidente ocorrera, viu uma fila de polícias e paramédicos e caminhou em frente, sem coragem para enfrentar a situação. Arranjou forças para recuar, identificou-se e informaram-no de que o filho caíra do 53º andar. Clapton, chocado e fora de si, tornou-se rapidamente “numa daquelas pessoas que apoiam outras em alturas de crise”. Teve posteriormente de identificar o cadáver. “Fui mais tarde vê-lo na casa mortuária, despedir-me dele e pedir-lhe desculpa por não ter sido um pai melhor.”
Completamente devastado, passou por uma fase crítica, em que os amigos receavam deixá-lo sozinho, temendo o suicídio. Mudou-se para Londres e ficou admirado com as cartas que recebeu, dos Kennedy ao Príncipe Carlos. Mas uma das primeiras que abriu era de Keith Richards. “Dizia apenas, ‘se puder fazer alguma coisa, diz-me’. Ficar-lhe-ei para sempre grato.”
Keith Richards foi um dos primeiros a apoiar Clapton.
Keith Richards foi um dos primeiros a apoiar Clapton.

“Não nego que houve um momento em que perdi a fé, e o que me salvou foi o amor e a compreensão incondicionais dos meus amigos e dos meus colegas do programa [de reabilitação]. Eu ia a uma reunião e as pessoas juntavam-se tranquilamente à minha volta, fazendo-me companhia, ofereciam-me um café e deixavam-me falar sobre o sucedido.”
Num destes encontros, Clapton contou a sua experiência em Hazelden. No final, uma mulher abordou-o: “Ela disse-me, ‘acabou de pôr fim à minha última desculpa para beber’. Perguntei-lhe o queria dizer e ela respondeu: ‘Tive sempre um pretexto para beber; se algo acontecesse aos meus filhos, isso justificava que eu me embebedasse. Acabou de me mostrar que não é assim.’ Percebi subitamente que havia maneira de tornar esta terrível tragédia em algo positivo”, explica Eric.
“Cheguei a um ponto em que pude dizer, ‘se consigo suportar isto e manter-me sóbrio, qualquer pessoa pode’. Foi quando percebi que não havia melhor forma de honrar a memória do meu filho.”

REFORMA, SÓ COM A MORTE

Clapton e Melia.
Clapton e Melia.

Clapton encontrou a felicidade junto de Melia. “Aos 54 anos, provavelmente fiz a primeira escolha saudável de uma companheira em toda a vida.” Eric ficou preocupado com a diferença de idades, já que Melia tinha 20 e poucos anos, mas conseguiu finalmente estabilizar a sua vida com ela. Explica que a sua última digressão foi mesmo a última, pelo menos em grande escala. É com satisfação que retrata o modo como as suas filhas, Julie, Ella e Sophie, lutam entre si para se sentarem ao lado do pai à mesa.
O álbum Back Home (2005), é um conjunto de canções sobre a felicidade, “tarefa nada fácil”, comenta. O disco não é dos seus melhores, mas podemos ver que a chama de Clapton ainda arde no DVD que retrata a reunião dos Cream em 2005. Toca tão bem como sempre, perante os olhares admiradores de Sean Penn, Brian May ou Christiane Amanpour.
Continua a comparecer nas reuniões do Alcoólicos Anónimos e refere que mantém o contacto com muitas pessoas em reabilitação, tantas quanto pode.
“Manter-me sóbrio e ajudar outros a manter a sobriedade será sempre a máxima mais importante da minha vida.”
Com esse objetivo, fundou uma clínica de reabilitação, a “Crossroads” e vendeu as guitarras para suportar os custos. No dia antes do leilão, despediu-se delas. Não foi fácil, já que eram companheiras de muitos anos de digressões. As vendas bateram recordes, com a carismática “Blackie” a ser comprada por 960 mil dólares. A sua “Cherry Red” arrecadou 847 mil dólares, a soma mais alta alguma vez paga por uma guitarra Gibson. Ao todo, Clapton vendeu 88 guitarras, angariando sete milhões, 438.624 dólares para a “Crossroads”.
Já disse que se ia retirar várias vezes, mas conclui que, ao estilo de todos os bluesmen que admira, a reforma provavelmente só virá com a morte. “Tenho constantemente jurado que vou desistir da estrada e ficar em casa, e talvez um dia seja forçado a isso, por uma razão ou outra. Por agora, vou deixar a porta aberta, e talvez isso torne mais fácil para mim o facto de ficar do lado de dentro, uma espécie de psicologia invertida, quem sabe? Só sei que, por enquanto, não quero ir a lado nenhum, e isso não é mau para quem passava a vida a fugir.”
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INGENUIDADE OU AUTENTICIDADE?

Quando os Yardbirds enveredaram pelo comercialismo com o single «For Your Love», Clapton abandonou-os, desgostado. Quando os Bluesbreakers já não correspondiam à sua ânsia criativa, deixou-os para integrar os Cream. Ao formar os Derek and the Dominos, não fez qualquer publicidade, achando que a música e uma digressão discreta garantiriam o sucesso. A editora enviou press-releases para todo o lado, lembrando que “Derek” era “Eric”, mas não evitou a catástrofe comercial. Até a bíblia do rock, a Rolling Stone, dizimou Layla, mas o álbum tornou-se num marco.
Com humildade, Eric Clapton considera que o grande sucesso de Unplugged, em 1992, se deveu, não à qualidade musical, mas ao facto de muitas pessoas lhe quererem dar uma palavra de apoio na fase difícil, após a perda que sofrera. “Como não tinham outra forma de o fazer, compraram o disco.” Foi o álbum que lhe deu menos trabalho a gravar e a preparar, e achou que não seria grande sucesso.
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“Era só eu a tocar umas canções de que sempre gostei.” Foi o maior sucesso da sua carreira, mas não explorou o filão da música acústica, contrariando o conselho do manager e lançando From the Cradle, autêntico tributo de amor aos blues.
Em finais da década de 90, Eric gravou um álbum com Simon Climie, sem publicidade, achando que a qualidade da música bastaria. Foi um fracasso, até que se descobriu que o nome Clapton estava associado ao projeto. A imprensa musical mudou logo de opinião. “De um momento para o outro, já era uma bela coisa”, desabafa o guitarrista, enfadado, admitindo a sua “ingenuidade” na matéria.
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Mas não chamaríamos ingénuo a quem escreve assim: “A cena musical, tal como a vejo hoje, é pouco diferente da época em que cresci. As percentagens são mais ou menos as mesmas – 95 por cento uma treta, cinco por cento de pureza. No entanto, os sistemas de marketing e distribuição atravessam uma grande mudança e, no final desta década, acho improvável que qualquer uma das companhias discográficas ainda exista. Com todo o respeito pelos envolvidos, a perda não seria grande. A música encontrará sempre o caminho até nós, com ou sem o comércio, a política, a religião ou qualquer outra merda que lhe prendam. A música sobrevive a tudo e, como Deus, está sempre presente. Não precisa de ajuda e não sofre qualquer bloqueio. Sempre me encontrou e, com a bênção e a permissão de Deus, sempre encontrará.”

Eric Clapton faz hoje 71 anos (Parte I)

Eric Patrick Clapton nasceu há 71 anos, em Ripley, no Surrey, filho de Patricia Clapton, de 16 anos, e Edward Fryer, de 24 anos, um soldado canadiano mobilizado para a Grã-Bretanha durante a II Guerra Mundial. Antes de Eric nascer, o pai regressou até junto da esposa, no Canadá. Por culpa dos preconceitos da época, Eric foi criado a pensar que a mãe era sua irmã e que os avós eram seus pais. Quando descobriu a realidade, aos nove anos, ficou transtornado.
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O jovem tornou-se num educado e tranquilo estudante de arte. Mas, aos 16 anos, foi expulso da escola. Motivo? A guitarra. Passava horas sozinho no quarto, a estudar os velhos discos de blues de Robert Johnson num gira-discos, reduzindo as rotações para aprender as notas. Era um esforço autodidata e solitário, mas Eric sentia-se diferente, devido ao seu passado familiar. A sua natureza introspetiva condizia na perfeição com os blues.

Trabalhou na construção civil e começou a fazer viagens a Londres, até que, em 1963, integrou os Yardbirds, banda onde se tornou conhecido como guitarrista excecional e inovador. Em abril de 65, com apenas 20 anos, junta-se aos John Mayall’s Bluesbreakers. O álbum que gravou com o grupo, além dos concertos, fizeram com que o grafitti “Clapton is God” surgisse na estação de Metro de Islington, originando uma famosa fotografia.
As atenções não interferiram na sua personalidade reservada e simples. No final dos anos 60, juntou-se a Ginger Baker e Jack Bruce, formando o supertrio Cream. Seguiram-se os Blind Faith, em que uniu forças com Ginger Baker e Stevie Winwood numa tentativa fracassada de formar um supergrupo.

As pressões para que seguisse uma carreira a solo eram inevitáveis, e Eric edita o seu primeiro álbum homónimo em agosto de 70. Embora algumas faixas, como «After Midnight», se tenham tornado parte do seu reportório, o disco denotava alguma insegurança. Clapton não se via como cantor e a sua timidez deu origem ao passo seguinte: O veterano de 25 anos formou os Derek and the Dominos.
Das poucas imagens que existem do grupo, no programa de Johnny Cash, em 1971. Eric com a guitarra “Brownie”:
“Derek” era Eric: “Quisemos formar uma banda, mas eu não achava que tivesse conquistado suficientemente o respeito do público para ser o cantor. Teria estragado tudo se tivesse dado o meu nome ao projeto. Deste modo, liderei as coisas de modo subtil, usando outro nome.” Na sua mansão do Surrey, Clapton ensaiou com Jim Gordon, Carl Radle e Bobby Whitlock.
O quarteto mostrou os primeiros resultados ao participar no álbum All Things Must Pass, do ex-Beatle George Harrison, o melhor amigo de Clapton. Surge então um dilema. Esta fase coincidiu com a paixão da vida de Clapton; a mulher de George Harrison, justamente: Pattie Boyd.
Digressão de Layla. Nesta altura, Clapton tocava como um homem possuído.
Digressão de Layla
Digressão de LaylaNesta altura, Clapton tocava como um homem possuído.
A paixão não correspondida de Boyd, a morte do amigo Jimi Hendrix e a perda do avô lançaram o guitarrista num inferno pessoal. Clapton conhecera Hendrix em 1966. Os músicos, embora fossem competidores no título de “melhor guitarrista do mundo”, sentiam uma enorme admiração mútua.
Cada vez mais deprimido, Clapton mergulhou na música como único escape, concebendo uma obra-prima: Layla and Other Assorted Love Songs. Na gravação, participou Duane Allman dos Allman Brothers, guitarrista fora de série, que deu um impulso inimaginável a Clapton. As gravações ficaram marcadas pelo abuso de várias substâncias. Eric, muitos anos mais tarde, recapitulou que os estupefacientes não ajudam nenhum guitarrista. Revela que isso só lhe aconteceu na gravação do lendário «Layla», tema inspirado pela obra do poeta persa Nizami:
A História de Layla e Majnun, o relato de um homem que se apaixona por uma princesa comprometida, acabando por ser considerado louco, sendo proscrito para sempre. Os paralelismos eram evidentes e todos conheciam o dilema de Eric/Derek.
Além do grito de desespero que é «Layla», do álbum consta uma canção ainda hoje considerada superior nas votações das revistas de guitarra: «Have You Ever Loved a Woman?», na qual eleva os blues a um nível operático, dialogando com a guitarra slide de Allman, e cantando como um possesso. Esta faixa bastaria para lhe garantir um lugar na História. Eric gravou ainda uma versão de «Little Wing», de Hendrix, duas semanas antes da morte do guitarrista. Duane Allman também faleceu, algum tempo depois, num acidente de moto.
Na digressão de Layla (que viria a ser retratada em In Concert, dos Dominos, em 1973) Clapton toca como um demónio, um homem torturado. Os seus solos intensos prolongam-se, com o guitarrista a querer furiosamente derrubar as fronteiras da Fender Stratocaster. O seu drama era conhecido, o que ajudou a criar uma espécie de aura à sua volta. O público sabia quem era “Derek”.

ATRÁS DA MÁSCARA

A nível pessoal, Clapton estava à beira do abismo. Cada vez mais dominado pela heroína – problema que afectava todo o grupo –, não conseguiu dar sequência ao álbum. O insucesso do disco e os problemas pessoais devastaram-no de tal forma que se fechou três anos em casa a consumir heroína e a vender guitarras para sustentar o vício, no auge do sucesso.
O conto de fadas torna-se realidade: Clapton e Pattie Boyd. "Ele fez duas coisas que admiro imenso", disse o amigo Pete Townshend, "livrou-se do vício e conquistou a mulher que queria".
O conto de fadas torna-se realidade: Clapton e Pattie Boyd. “Ele fez duas coisas que admiro imenso”, disse o amigo Pete Townshend, “livrou-se do vício e conquistou a mulher que amava”.

Em janeiro de 1973, o amigo Pete Townshend, dos The Who, foi um dos que mais tentou resgatar Clapton, ajudando a organizar o concerto no Rainbow, em Londres. Esta tentativa não produziu efeitos imediatos, mas Clapton acabou por se desintoxicar, regressando com 461 Ocean Boulevard, em 1974, a sua verdadeira estreia a solo. “Livrei-me da droga, mas cometi um erro clássico: Comecei a beber”, refletiu o guitarrista, anos mais tarde. Casou com Pattie Boyd, protagonizando um autêntico conto de fadas, mas, durante toda a década de 70, o alcoolismo interferiu no seu trabalho, dando origem a álbuns de qualidade desigual. As intermináveis e triunfais digressões dos anos 70 foram realizadas no meio de uma névoa alcoólica que ameaçava destruir o talento e a vida de Clapton.
«Wonderful Tonight» foi outra das canções dedicadas a Boyd. “Não importa se foi bem gravada ou bem tocada. Não interessa, porque a canção é boa”, diz Eric. O tema integra o álbum Slowhand, de 1977, um disco soberbo.
O nome é uma das alcunhas de Clapton, já que, quando partia uma corda durante os concertos dos Yardbirds, mudava-a ao som das palmas ritmadas do público, daí “mãos lentas”. Uma outra explicação é a ironia do termo, tendo em conta a rapidez de Clapton nas seis cordas.
Eric Clapton 2 parts (14)
Em dezembro de 1979, Eric passou por Tóquio, autorizado a atuar no famoso Budokan – sala japonesa sagrada e reservada à prática de artes marciais. Clapton adora o país, que também o adora a ele, diga-se. O concerto foi gravado e editado com o nome Just One Night. “Os públicos são invariavelmente generosos”, escreveu Clapton nas notas do álbum, declarando-se uma espécie de ‘freak’ naquela “sociedade tão rígida, de que tanto se orgulham. Mas tudo corre sempre com doçura”.
Neste álbum ao vivo, é registada a versão de «Blues Power», uma tour de force, com Eric a usar o pedal de wha wha, no qual é exímio. Deitou a sala abaixo com um solo fulgurante na fiel “Blackie”, que com ele partilha a capa do disco. Os registos ao vivo de Eric são sempre marcados por uma grande simpatia do guitarrista. Agradece com a cabeça, face aos aplausos do público, após um solo, e termina com um “God bless you”, frase com que revela a sua faceta espiritual.
Durante os anos 70, Eric devolveu ainda a Bob Marley o lugar merecido com a versão de «I Shot the Sheriff», gravou uma versão de «Knocking on Heaven’s Door», com sabor a reggae, eclipsando a interpretação de Bob Dylan. As suas versões ofuscavam os temas originais, o que ficou explícito nas experiências com a música country. Interpretou (e popularizou) várias músicas de JJ Cale, como «Cocaine», até que com ele gravou um muito esperado álbum de duetos, The Road to Escondido (2006).
No início dos anos 80, Clapton é internado de urgência com uma úlcera do tamanho de uma bola de golfe, prestes a rebentar. Segundo os médicos, não morreu por uma questão de horas. Os tabloides apregoaram, “Clapton perto da morte”. Mas o guitarrista não parou de beber.

SANGUE, SUOR E LÁGRIMAS

Eric Clapton 2 parts (11)Em 1983, após uma pausa inadiável, edita Money and Cigarettes, um regresso à boa forma. Pessoalmente, sentia-se desorientado sem o álcool, e a relação com Pattie Boyd desagregava-se. Boyd tornara-se alcoólica e acabam por se separar. A esposa não podia ter filhos, o que torna ainda mais dramático o que sucederia futuramente a Clapton.
Eric colaborou com Roger Waters em The Pros and Cons of Hitch-Hiking, em 1984. Waters fez uma manobra sarcástica, na altura em que se desentendeu com o colega dos Pink Floyd, David Gilmour. Por isso, foi buscar o “maior guitarrista do mundo”, para enervar o plácido Gilmour. Apesar das intenções maquiavélicas de Waters, Clapton aquiesceu e fez o que pôde por salvar o descalabro… Não gostou especialmente da digressão, das limusinas e dos jantares finos de Waters, horrorizando o colega quando pediu um hambúrguer e batatas fritas, farto de esperar interminavelmente por um prato requintado.
Os anos 80 ficaram marcados pela sua tentativa de lidar com o comercialismo da década, deixando que discos seus fossem produzidos por Phil Collins. Participou no Live Aid, uma atuação fulgurante, e já na época se disse que foi uma forma de dar a conhecer a sua música a uma nova geração. Em agosto de 86, nasce o seu filho, Conor, que inspirou o nome do álbum editado nesse ano, August.
Em finais de 80, “Slowhand” reincidiu no alcoolismo. Em dezembro de 87, estava em tratamento, no Minnesota, quando surgiu na televisão, num filme publicitário da cerveja Michelob. “Estava numa sala cheia de alcoólicos em reabilitação, eu incluído. Todos me perguntaram se era eu. E eu respondi ‘sim’, o que havia de dizer?”
Na digressão de Roger Waters.
Na digressão de Roger Waters.

Depois de ultrapassada esta nova barreira, gravou Journeyman. Clapton, que se vê como um viajante, sentiu-se algo culpado por alguns dos rumos que a sua música tomou.
“Penso que me vendi há muito tempo. Fiz uma espécie de acordo comigo mesmo, tentei seguir caminho, agradar às pessoas, para tornar a vida fácil.”
Eric Clapton e Conor.
Eric Clapton e Conor.

Durante os anos 90, Clapton ficou conhecido pelas suas temporadas de concertos esgotados na prestigiada sala londrina Royal Albert Hall, celebrizada pelos espetáculos de música clássica. A década ficou marcada pelo divórcio de Pattie e a separação da mãe do seu filho, a italiana Lori Del Santo. A morte do amigo Stevie Ray Vaughan, num desastre de helicóptero, deixou-o destroçado. Clapton ia partilhar o helicóptero com Vaughan, depois de ter atuado com ele nessa noite, mas mudou de ideias, preferindo viajar no dia seguinte. Em 1992, o guitarrista estava em Nova Iorque para visitar Conor, quando este caiu de um arranha-céus. Clapton é internado em estado de choque.
Eric Clapton 2 parts (26)Muitos especularam que se refugiaria novamente nos antigos vícios, face a tantas tragédias. Mas o guitarrista permaneceu apenas viciado em jogos da Nintendo. Partiu para Antígua, nas Caraíbas, levando apenas uma guitarra clássica. Foi lá que compôs «Tears in Heaven», «Help me Up» e «The Circus Left Town», baseado no ultimo dia que passou com o filho, e em que ambos visitaram um circo: “O que vais ver e o que vais ouvir, terão de durar para o resto da tua vida.” A canção foi ofuscada pelo enorme sucesso de «Tears in Heaven».
O convite para compor a banda sonora de Rush – Uma Viagem ao Inferno, em 1992, deu-lhe a oportunidade para exprimir o que sentia.
“As pessoas que seguem a minha carreira e que gostam da minha música, ficariam um pouco surpreendidas se eu não escrevesse sobre a morte do meu filho”, explica Clapton.
Quando recebeu uma mão-cheia de Grammies, disse, baixando o olhar: “Agradeço ao meu filho pelo amor que me deu e pela canção que me deu.” O momento poderia adquirir contornos de um dramatismo previsível, mas a assistência aplaudiu em pé, durante vários minutos, a canção, o prémio, a carreira de Clapton, mas, sobretudo, a dignidade com que enfrentou os seus demónios.

RENASCIMENTO

Em 1992, edita Unplugged, álbum notável que o deu a conhecer a mais uma geração. Dois anos depois, regressa aos blues com From the Cradle, no qual toca melhor do que nunca. O seu virtuosismo recorda a lenda: Os músicos de blues faziam um pacto com o diabo numa encruzilhada, vendendo a alma em troca do talento.
Em 1998, lança Pilgrim, que inclui o tema «My Father’s Eyes», onde o círculo se fecha. Por esta altura, as declarações do guitarrista já adquiriam um tom merecidamente filosófico.
“Nunca conheci o meu pai”, disse Clapton. “Penso que morreu há alguns anos. Mas, o mais próximo que estive de ver os olhos do meu pai, foi ao olhar para os olhos do meu filho.”
No final do álbum, surge um tema interessante, «Inside of Me», em que a filha, Ruth, lê um excerto de O Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Clapton complementa: “Ao arranhar a superfície, tudo parece igual; um mundo cheio de cólera, onde ninguém é culpado. Mas, para quem me posso voltar? Quem tem a chave? E a resposta? Acho que está dentro de mim.”
Na digressão de From the Cradle.
Na digressão de From the Cradle.

Mark Knopfler, com quem colaborou por diversas vezes, aponta-lhe outro talento: “O Eric é um dos meus cantores favoritos.” Durante o concerto dedicado a Nelson Mandela, em 1988, Knopfler anuncia a substituição de um guitarrista dos Dire Straits, por ter tido duas filhas: “Teve duas meninas, deste tamanho”, explica, elevando a mão à altura do peito. “Por isso, tivemos de arranjar um substituto. Nunca tocou em Wembley… mas foi o melhor que se arranjou. Mas já tem alguma experiência…” No final de «Wonderful Tonight», Knopfler diz apenas: “E.C!”
Os dois guitarristas, com estilos contrastantes, colaboraram diversas vezes. Quando Knopfler entrou em cena, em 1978, Clapton ficou “assustado” com o competidor. Um dos muitos guitarristas com quem tocou, espelha a opinião de toda a “classe”:
“Mais do que um grande guitarrista, quando convivíamos com ele, tínhamos a sensação de que era boa pessoa.”
Com a fiel Blackie.
Com a fiel Blackie.

Foi o “erro favorito” de Sheryl Crow. Em 2004, editou mais um álbum de blues, desta vez totalmente dedicado à sua grande influência: Robert Johnson. No ano seguinte, conseguiu que os antagónicos Jack Bruce e Ginger Baker fizessem as pazes, e o trio revitalizou os Cream. A idade dos músicos e o teor da iniciativa faziam temer que a reunião pouco acrescentasse ao legado do grupo. Mas os três músicos provaram que a química ainda existia, tornando o evento excecional. Felizmente, foi registado num ótimo DVD, ao vivo no Albert Hall.
10 anos antes deste concerto, as capas de revistas como a Guitar Player ou a Guitar World proclamavam, “o velho ‘Slowhand’ continua…” Clapton lançou a sua esperada autobiografia, mas Pattie Boyd antecipou-se com o livro Wonderful Tonight: George Harrison, Eric Clapton, and Me.
Em anos recentes, Clapton tem tido sossego. Foi pai de três filhas. “Sim, tive outros filhos, mas é claro que nenhum deles irá substituir Conor.” Anunciou que se ia retirar do mundo musical. Com a humildade do costume, comentou, numa entrevista:
“As mortes que marcaram a minha vida, fizeram-me perceber uma coisa: Se temos mais um dia, é uma bênção.”

A FIEL «BLACKIE»

Clapton leiloa Blackie, a sua guitarra preferida. Motivo? Angariar fundos para quem sofreu o mesmo problema que ele.
Clapton leiloa Blackie, a sua guitarra preferida. Motivo? Angariar fundos para quem sofreu o mesmo problema que ele.

A guitarra mais famosa de sempre é questionavelmente a “Blackie”, de Eric, embora os fãs de B.B. King possam dizer que “Lucille” é digna do epíteto. No entanto, embora “Lucille” guarde as suas histórias, a Fender Stratocaster preta e branca de Clapton possui um carisma invulgar. No início dos anos 70, Eric comprou diversas Stratocasters a um preço barato, nos Estados Unidos, uma vez que, na época, o modelo não era muito popular. As Gibsons estavam na berra, em parte devido ao próprio Clapton.
O guitarrista ofereceu algumas aos amigos e guardou várias. Depois, escolheu o melhor braço, os melhores pickups e o melhor “corpo” de cada uma delas, juntando os componentes numa guitarra híbrida, a qual batizou de “Blackie”.
A guitarra acompanhou-o até ao final dos anos 80, em várias digressões, e pode ser vista em inúmeras fotos do guitarrista. Clapton gostava tanto de “Blackie” que a tocou até dar literalmente cabo dela; a madeira do braço, de tão gasta, estreitou alguns milímetros, a ponto de as cordas não terem ponto de apoio.
Eric acabou por dar descanso a “Blackie”, receando que fosse roubada ou se danificasse. A Fender tirou as medidas à guitarra e lançou a Eric Clapton Fender Stratocaster Signature Series, um modelo concebido de acordo com as especificações do guitarrista. A verdadeira foi vendida, em 2004, por cerca de 960 mil dólares num leilão da Christie’s.
Clapton tem leiloado as suas guitarras para angariar fundos para o seu Crossroads Centre, em Antígua, uma clínica para dependentes de substâncias químicas, problema que o guitarrista conheceu bem. Entre outros instrumentos, conta-se a “Brownie”, que em inglês significa “duende benfazejo”, uma Stratocaster sunburst, das preferidas de Clapton, a qual tocou no álbum Layla, e que se pode ver na foto da contracapa.
Clapton com a Brownie, também ela leiloada.
Clapton com a Brownie, também ela leiloada.