sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Morreu DANIEL BACELAR, o primeiro músico de rock português

"Fui Louco Por Ti”, 1960. Daniel Bacelar foi o autor daquele que é considerado o primeiro tema de rock em Portugal, cantado em português. O músico de 74 anos morreu esta sexta-feira, 29 de setembro. Sofria de um cancro.
O músico começou por se destacar aos 17 anos quando venceu o concurso “Caloiros da Canção” da Rádio Renascença. Nessa década de 60, gravou vários discos e dava concertos regularmente no Teatro Monumental, em Lisboa.
Entretanto retirou-se dos palcos e estúdios, mas foi aparecendo aqui e ali. Em 2009, foi convidado por Rita Redshoes para interpretar ao vivo “Lonesome Town”, de Ricky Nelson, no Festival dos Oceanos, em Lisboa. Daniel Bacelar preferia fazer estas versões cover e deixou para trás temas próprios como “Sem Ti”, “Porque Será” ou “Um Mundo Sem Amor”.
Parte da sua história foi contada em 2011 no documentário “Meio Metro de Pedra”, realizado por Eduardo Morais, sobre a evolução e os primeiros passos do rock português.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

THE BEATLES editaram "Abbey Road" há 48 anos.

Entre aspirantes a músicos é comum dizer-se que a prova de fogo advém de se saber interpretar um tema dos Beatles. Normalmente, a escolha recai em "Help" ou "Revolution" assumindo-se, e bem, que a partir daí não serão necessários muitos acordes para obter resultados artísticos satisfatórios. O meu contacto inicial com os Fab Four aconteceu com a colectânea "20 Greatest Hits", de 1982. Os primeiros afloramentos do mito vieram ao som de "She Loves You" e "A Hard Day´s Night", mas ainda não eram suficientes para um chamamento total.
 Seriam precisos sete anos e a descoberta do LP "Abbey Road", para entender o que eram os Beatles e o porquê da sua longevidade. À partida, o álbum de 1969 representava a derradeira gravação do conjunto, embora "Let It Be" fosse o último trabalho a ser editado. O acontecimento, por si só, conferia um estatuto especial ao disco da famosa passadeira londrina e lançava uma questão pertinente: Seria possível repetir a magia dos álbuns anteriores ?
A ideia inicial do produtor George Martin, mas também de Paul McCartney, consistia em fazer com que a banda pensasse em termos sinfónicos e numa combinação de uma ou mais músicas tocadas em conjunto, visando a obtenção de uma peça musical única. Para John Lennon, tudo se resumia a uma série de temas lineares e a condensação em diferentes vinhetas era pouco satisfatória. Tudo se resolveria e a solução de compromisso seria adoptada, contemplando as duas linhas de pensamento.
A edição ocorreu a 26 de Setembro de 1969 e o produto final era convincente. As honras de abertura caberiam a Lennon com o excelente blues rock de "Come Together", que incluía uma notável linha de baixo de McCartney e um elegante refrão pop. Por seu turno, George Harrison fazia progressos assinaláveis, compondo uma das mais belas baladas de sempre, "Something", encontrando a inspiração na sua mulher Pattie Boyd. A alternância às várias canções Lennon/McCartney e às duas de Harrison seria quebrada pelo único tema de Ringo Starr, "Octopus´s Garden". Nele, encontramos um agradável exercício country com um solo de guitarra encantador. Um dos pontos altos de um trabalho que não tem pontos baixos é "Because". A inspiração de Lennon para compor o tema foi a Moonlight Sonata de Beethoven, tocada ao contrário por Yoko Ono. Realce para a belíssima harmonia vocal e letras simples, abrilhantadas por um sintetizador moog.
A parte de leão do outrora lado B caberia a McCartney com o seu medley, juntando pequenas melodias conjugadas entre si. Dentro desse notável segmento da arte popular do século XX, não há como escapar a "You Never Give Me Your Money" e a "Golden Slumbers". A primeira peça representava a tradução musical de uma separação eminente e de negociações sem vista à vista: "You never give me your money / You only send me your funny papers". O fundo musical consisitia numa balada ao piano a que se juntariam harmonias vocais, para irromper numa torrente de guitarras.
Para compor "Golden Slumbers", McCartney inspirou-se numa canção de embalar do século XVII, de Thomas Dekker, criando uma melodia original e intemporal. É impossível ficar indiferente a "Abbey Road" e aos seus momentos de pura beleza, vide o solo de guitarra de Harrison em "Carry That Weight". Na realidade, os Beatles nunca tocaram ou cantaram juntos com tanto brilhantismo e coesão depois de "Revolver". As diferentes sensibilidades e as circunstâncias que o envolveram fazem dele o mais apropriado canto do cisne da melhor banda de sempre.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Os pioneiros do rock português

Eles fizeram o motim do rock cantado em português. Na recessão do canto-livre pós-revolucionário, Portugal descobriu que os sons do rock podiam ser cantados na língua cá da terra. Entra-se nos anos 80 e, com eles, rebentam dezenas de bandas num mercado discográfico em que valia tudo. Tudo se gravava desde que soasse a rock e em português. Louco e explosivo como foi, não durou mais do que dois anos este "boom". Depressa lhe sucedeu o "bum!" inverso. Quase todas estas bandas se perderam pelo caminho. Fosse por ingenuidade, falta de solidez nos projectos, escolha voluntária ou desencanto.
A vida corria bem para o Grupo de Baile naquele ano de 1981. Já não eram apenas o grupo de amigos que se conheciam desde a infância, dos tempos em que tocavam na filarmónica da terra, nem sequer aquela banda que corria pelo circuito dos bailes com umas rocalhadas importadas do estrangeiro. As 99 mil cópias do single "Patchouly/Já Rockas à Toa", lançadas em Janeiro no mercado, foram consumidas vorazmente. As que traziam o "piiiiii" sobre a palavra "pentelho" e as em que se ouvia tudo. O Grupo de Baile fez disco de ouro em apenas um mês. Foi tiro e queda. Primeiro o tiro, depois a queda. Quase dois anos depois, mesmo tendo gravado um novo single, "Estória Linda", o Grupo de Baile não voltou a ter o mesmo sucesso. Volatizaram-se. Viveram a mesma história que muitas outras bandas nascidas durante o "boom" do rock português, na euforia daqueles anos de 1980 a 1982, em que o panorama musical explodiu de uma tal forma que só podia mesmo vir depois a implodir. Foram poucos os que, depois do sucesso atingido neste período, se aguentaram à impulsão dos anos que se seguiram.
 Os GNR, com uma formação já bem diferente da original, os UHF, nos quais só mesmo António Manuel Ribeiro permanece desde a origem, e o pioneiro de todos os pioneiros, Rui Veloso, não chegam sequer para fazer uma mão cheia. Todos os outros, dezenas deles, ficaram-se pelo caminho.O "boom" surgiu naquela altura e não só não poderia ter aparecido antes como dificilmente se fundamentaria mais tarde. "O aparecimento de muitas bandas naquela mesma onda e no mesmo momento tem também a ver com o 25 de Abril, com o facto de já ter passado um bocado aquela euforia revolucionária e já se viver numa democracia consolidada. As pessoas começaram a ter mais dinheiro, para comprar instrumentos como para comprar discos, e havia uma abertura que não tinha havido antes, mesmo em relação àquilo que vinha de fora. Alguns anos antes e nunca se poderia ter gravado em Portugal uma música como o 'Patchouly'", explica o ex-vocalista do Grupo de Baile, Carlos Tavares.
"O 'boom' foi também muito incentivado pelas editoras, porque isso lhes dava uma maior escolha sobre aquilo que decidiam gravar ou não. Quantas mais houvesse, mais havia por onde escolher", afirma Carlos Tavares. Esta ideia é corroborada pelo guitarrista, Vicente. "Em Portugal as coisas funcionam assim: alguém experimenta uma coisa com sucesso e, de repente, parece que se descobriu a pólvora. Foi assim com o 'boom'. Apareceu o Rui Veloso com o 'Chico Fininho' e de repente percebeu-se que era possível fazer rock em português". Toda a gente andava a querer e a conseguir gravar, e o Grupo de Baile recebeu o bilhete que os transportaria para o sucesso. "Embarcámos naquilo sem qualquer pretensiosismo, mas com a intenção de ir ver no que é que dava", esclarece o baterista, Luís Rosado. A Valentim de Carvalho convidou-os a gravar alguns dos temas originais que já tinham composto. "Tivemos hipóteses de impôr logo ali as nossas regras, mas não o fizemos", recorda Carlos Tavares. "Já éramos adultos nessa altura, mas nas coisas da música éramos mesmo uns miúdos" desabafa Luís Rosado. Quando o quiseram fazer, pouco mais de um ano depois, perceberam que não podiam. Não eram essas as regras do jogo.  
 "A certa altura quisemos deixar de ser os tais meninos e impôr as nossas escolhas à editora. Dissemos quais as canções que queríamos pôr num LP e quais é que queríamos que fossem lançadas em singles e a resposta foi um peremptório não. 'Nós é que sabemos disto, vocês editam aquilo que nós vos dissermos', foi a resposta", recorda Carlos Tavares. "Aquilo era espremer o limão até dar. Fomos chupados até ao tutano", reitera Vicente, defendendo que o Grupo de Baile teria tido, eventualmente, maior longevidade "se tivesse sido lançado um bocadinho mais por baixo e lhe tivesse sido dado tempo e estruturas de produção para crescer". Mas os tempos não se compadeciam com apostas a longo prazo. Estava-se a desbravar terreno, olhava-se para tudo com um horizonte curto: o do sucesso imediato, o das vendas retumbantes, o de "chegar, ver e vencer" nos tops nacionais, o dos discos de ouro conquistados em 30 a 60 dias.
Foi assim também com os NZZN, a banda acrónima de Necas, Zica e Zé Nuno, que foi a primeira em Portugal a enveredar pelos sons do "heavy metal". Havia até quem augurasse um futuro dourado àqueles que ousassem romper as malhas e se assumissem como pioneiros da onda mais pesada do rock em Portugal. A verdade é que o sucesso, uma vez mais, durou apenas dois anos. Os NZZN ganharam lugar na história como criadores do primeiro single português de "heavy metal" - "Vem Daí" - lançado em 1980 e que disparou para o primeiro lugar do top do popularíssimo programa radiofónico Rock em Stock. Mas para finais do ano seguinte já a banda se dissolvia por falta de contratos. "Estávamos na contra-maré", dispara Necas, o ex-guitarrista da banda. "O que fazíamos e que sempre fizemos foi um hard-rock pesado, mas o que estava mesmo a dar era o new wave", explica. O ex-baixista do grupo, Zé Nuno, deixa as coisas claras: "Os discos tinham que vender, se não se vendiam a editora deixava de apostar na banda. Nós estivemos em cima com o primeiro single, não estivemos mal com o segundo, mas depois, com o álbum, que já não vendeu o que se esperava, sentimos logo isso". "Na época até achei ingenuamente que o meu esforço de dez ou 20 anos como músico ia ser finalmente recompensado. E embarquei idioticamente naquilo, só percebendo mais tarde que as coisas não eram assim tão lineares. Senti algum desencanto mas não desisti. Continuo a tocar e até me estou a cagar para os tops", afirma Necas. "É mesmo assim", brinca Zica, "a certa altura sentimos que nunca mais voltaríamos a ser estrelas do rock'n'roll".De resto, o ex-guitarrista dos NZZN defende mesmo que este "boom" do rock português "foi algo criado artificialmente e a prova é que não durou mais do que dois ou três anos. Não havia circuito, não tínhamos mercado para termos aí umas 50 mil bandas a gravar". Mas, ainda assim, os NZZN embarcaram também na euforia. "É claro que optámos logo por cantar em português. Caramba, se somos portugueses porque é que não havíamos de cantar na nossa língua? ...Para além de que já vinham lá de fora coisas mais do que suficientes em inglês", diz Zica. 
De carreira ainda mais curta foram os CTT, designação que este grupo adoptou durante o período do "boom" sem querer renegar a origem de Conjunto Típico Torrense. Tinham também uma sonoridade pesada e foi com "Destruição, Destruição, Destruição" que entraram a matar nos tops nacionais. Vinham dos circuitos dos bailes, conheceram o mesmo sucesso rompante e fulminante, a mesma loucura de gravação contra-relógio. "Tinha-se pouco, pouquíssimo tempo de estúdio", recorda Luís Plácido, o ex-vocalista dos CTT: "Aquilo era entrar já com tudo muito bem ensaiado e toca a andar. Não havia tempo para experimentações em estúdio ou para testar fossem quais fossem as possibilidades". Ainda no mesmo ano de 1981, os CTT gravaram um álbum, "Oito Encomendas", mas já havia desencanto no ar. O ex-baixista dos CTT, Nani Teixeira, de todos o único que ainda permanece como músico profissional", aponta que "viveu-se ali uma época de grande evolução, uma evolução de qualidade e de diversificação, mas em nome da qual foram justamente as bandas que abriram as portas do 'boom' do rock português que depois acabaram por pagar a factura". O líder do grupo, Augusto Alves, recorda que os CTT tinham "uma história muito diferente da maioria das bandas que apareceram naquela altura": "Já existíamos antes, já tocávamos todos juntos como Conjunto Típico Torrense muito antes de toda aquela loucura acontecer. Já tínhamos clientela antes, a certa altura fizemos aquilo, e depois regressámos ao público que tínhamos". Recusando-se a acreditar que os CTT tenham sido "um fenómeno de época balnear", o ex-baterista da banda, Gabriel Matos, afirma que os CTT "ainda continuaram mais uns anos, mas deixou-se de acreditar nas gravações". Esta foi uma década marcada pela constante edição de singles, que constitui, aliás, o maior emblema que ficou do "boom" do rock português. A popularidade pertencia aos singles. Poucas foram as bandas que chegaram a editar álbuns. E das que o fizeram, contam-se pelos dedos de uma mão aqueles que tiveram vendas que se vissem. Quem o fez, porém, fê-lo com estrondoso sucesso. Não causa grandes surpresas, por isso, que essas bandas que tiveram maiores sucessos comerciais no formato LP durante o período do "boom" sejam justamente aqueles que ainda hoje se mantêm à tona e em actividade. Senão com os projectos nascidos naquela época, como é o caso dos UHF, dos GNR e até de Rui Veloso, pelo menos com outras bandas, até de maior projecção comercial ainda, como é o caso do ex-Heróis do Mar e líder dos Madredeus, Pedro Ayres Magalhães. A projecção destas bandas nascidas nos primeiros anos da década de 80 não se sustentava, porém, unicamente, no lançamento dos vinis no mercado discográfico. Tudo começava com o circuito pelas "capelinhas" da época: "A Febre de Sábado de Manhã" e "O Passeio dos Alegres", ambos de Júlio Isidro, assim como o "Rock em Stock", de Luís Filipe Barros, e o "Rotação", de António Sérgio, programas de grande audiência, em rádio e em televisão, que serviram de rampa de lançamento a todas estas bandas do "boom" do rock português. O filão de ouro foi descoberto com "Ar de Rock" de Rui Veloso, editado em princípios de 1980. De repente, o rock'n'roll falava de figuras às quais os portugueses eram familiares. Aqui e além viam-se "chico fininhos" a subir as ruas de muitas cidades do país, de um momento para o outro dava-se conta de inúmeras "rapariguinhas do shopping" a deambular pelos corredores dos grandes espaços comerciais portugueses.
O rock começava a falar de nós, das nossas coisas, das pessoas com que nos cruzávamos todos os dias. José Nogueira, o ex-saxofonista dos Já Fumega, encontra aqui uma das primeiras razões do "boom" do rock português. "Foi absolutamente inevitável. Estava a começar-se a falar dos sítios onde todos vamos, onde pelo menos já fomos uma vez, das pessoas que conhecemos ou que já vimos", explica. Curiosamente, os Já Fumega não começaram por gravar em português. A primeira edição da banda foi em inglês, mas a grande notoriedade junto do público só se conseguiu um pouco depois, na Primavera de 1981, com "Ribeira", uma canção inspirada pela zona ribeirinha do Porto que fez um sucesso estrondoso na rádio. Mas, os Já Fumega tiveram a particularidade de já serem bem conhecidos mesmo antes da primeira edição em vinil, "Estamos Aí", em 1980. Tinham um público fiel, conquistado nos concertos ao vivo, desde há alguns anos. "Fazíamos para aí uns 100 mil quilómetros por ano, já tínhamos concertos em Espanha, mesmo antes de sequer termos editado qualquer disco", aponta o ex-baterista Álvaro Marques. Os Já Fumega duraram seis anos, durante os quais editaram três álbuns e um single, todos de reconhecida qualidade e maturidade musical. A banda dissolveu-se, porém, num momento em que tinham praticamente todo o material pronto para gravar um novo álbum. "A questão essencial é que [depois da edição de "Recados", em 1983] já tinha passado o 'boom' e toda aquela euforia das editoras. Já não queriam gravar tudo o que lhes era proposto e começaram a surgir exigências de comercialismos fáceis e imediatos com que nunca tínhamos pactuado e com os quais não iríamos passar a compactuar", afirma José Nogueira. Mário Barreiros explica também que a "suspensão" dos Já Fumega se deveu ao facto de "começar a tornar-se difícil juntar todos para os ensaios": "Já andávamos a ensaiar por sectores e cada um começava a seguir rumos muito diferentes, até musicalmente. Chegou um momento em que a situação se tornou óbvia". Outro dos irmãos Barreiros, Pedro, recorda que os Já Fumega "nunca foram um grupo temerário": "a banda sempre viveu muito dos ensaios, do trabalho conjunto e era só nesse sentido que os Já Fumega faziam sentido". Eugénio Barreiros vai ainda mais longe: "Os Já Fumega eram aqueles seis músicos, juntos, naquela altura. Foi apenas um episódio na longuíssima história musical de qualquer um de nós". Todos parecem partilhar este entendimento, parecendo quase impossível alguma vez se vir a assistir a uma reunião dos Já Fumega. "Só se for para um concerto pela paz" brinca Eugénio Barreiros. Como afirma José Nogueira, "nenhum deixou de ser músico, nenhum parou, não ficou nenhum fio solto no qual pegar outra vez, não ficou nada lá solto para se pegar agora".
Inevitavelmente marcados pelo tempo, embora com percursos posteriores bem diferentes, estão também os Trabalhadores do Comércio. Imagem de marca do Porto, esta banda nadou livremente nas ondas do "boom" do rock português, fazendo sucesso com o elogio ao sotaque nortenho e uma ironia muito peculiar. "Ter os Trabalhadores do Comércio a cantar em português não aconteceu por acontecer. Tivemos perfeitamente consciência do momento e da vaga de aceitação que esse fenómeno estava a ter", aponta o ex-baterista do grupo, Álvaro Azevedo. "E o sotaque do Porto era algo mesmo muito assumido. Muita gente pensava que esta nossa atitude era de gozo com o sotaque nortenho, quando na verdade era justamente o contrário", esclarece Sérgio Castro. Músicos experimentados, vindos de projectos anteriores bem sucedidos, Sérgio Castro e Álvaro Azevedo juntaram a si a graça e o talento de palco de um garoto de sete anos, o vocalista João Médicis. Foi assim que nasceram os Trabalhadores do Comércio em 1980. A primeira interrupção na carreira da banda - a que o guitarrista Sérgio Castro chama "o coito interrompido" - deu-se em finais da vaga do "boom", em 1982, mais pelo facto de o jovem cantor João ter entrado numa fase mais exigente da sua vida escolar, do que por algum desgaste da banda. Os Trabalhadores voltariam outra vez à carga, já dissociados do "boom", com uma presença no Festival da Canção de 1986, a que Sérgio Castro gosta de chamar "a grande queca". "Pensámos que se era para ir ao grande circo mas valia que fôssemos para ser os maiores palhaços de todos, os palhaços com maior piada", diz. Daí todo o aparato feito em "Tigres de Bengala" em que a banda, segundo o baterista Álvaro Azevedo, "também apostava numa repercussão internacional". Nesse mesmo ano ainda prepararam um novo LP, mas não chegaram a gravar. Em 1990 entregaram um disco totalmente pronto à Polygram, "Sermões a Todo o Rebanho", o qual foi o último registo gravado pela banda. Só que, entretanto, diz Sérgio Castro, "os Trabalhadores do Comércio tinham deixado de ser uns gajos críticos com graça e passaram a ser vistos como uns gajos desagradáveis". Se a presença num Festival da Canção não foi irremediavelmente desgastante para os Trabalhadores do Comércio, o mesmo não se pode dizer em relação aos Da Vinci. 
É verdade que a banda de Pedro Luís e Iei Or nunca foi vista com bons olhos como integrante do movimento do "boom", mas a verdade histórica é que esteve lá e que durante esse período editou trabalhos com enorme êxito de vendas. E até foram o único grupo português a contribuir, neste período, com um avanço pelas sonoridades da pop electrónica e dos grupos neo-românticos britânicos. Os Da Vinci permanecem em actividade, mas o sucesso - ou antes, a falta de popularidade - que hoje conhecem, está quase no extremo oposto do êxito que viveram no início dos anos 80. Seja como for, Iei acredita que "a imagem dos Da Vinci se sobrepôs à música": "com aquele ar quase fantasmagórico, aquele visual tão pouco vulgar, as pessoas não acreditavam que éramos portugueses". E fosse qual fosse o risco que assumiram por ir fora da maré da altura, Pedro Luís defende que não poderia ter sido de outra forma. "Estávamos perfeitamente à vontade naquele estilo, não nos passava pela cabeça virarmo-nos para outro lado", afirma. Talvez uma das maiores heranças deixadas pelo "boom", e que bandas surgidas já numa segunda vaga souberam tão bem aproveitar, é justamente o culto da diversidade. Apesar de todos aparecerem no mesmo saco do "boom" do rock português, houve abordagens tão diferentes que o panorama musical mudou para sempre. Muito, porém, já vinha sido feito antes do "boom". O trabalho anterior de algumas outras bandas serviu de rastilho para que estas explodissem já só na década de 80. E outras, como os Rádio Macau e os Xutos & Pontapés, que já existiam mas só ganharam popularidade depois, o fizessem também a partir de meados dos anos 80. Foi a "Ar de Rock", o álbum de estreia de Rui Veloso, que coube o título de marco inaugural do período de euforia pelo rock português. 
Mas o primeiro disco feito nesta fórmula já datava de 1967, da autoria do Quarteto 1111, que furou o bloqueio à música portuguesa com o EP "A Lenda de El Rei D. Sebastião". Só que as atenções então dadas à nova canção e ao canto livre, que emergiram no período pós-25 de Abril, lançaram para a sombra praticamente todo o movimento do rock de língua portuguesa. E foi já só num pré-"boom", em finais dos anos 70, que a tendência se inverteu, com o surgimento de bandas como os Tantra, prenunciadores de que a explosão não iria tardar muito mais.
Nenhuma imagem mais forte ficou na história dos Tantra como a de Frodo, o alter-ego do vocalista Manuel Cardoso, que quase ganhou personalidade própria durante a carreira da banda. Logo desde os finais dos anos 70, os Tantra apareceram a fazer um rock progressivo cantado em português e a encenar espectaculares concertos ao vivo no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. "Havia muito mais músicos a tentar furar logo naquela altura. Nós tivemos a sorte de acontecer connosco", afirma Manuel Cardoso. "Desbravámos caminho, abrimos a estrada", junta ainda. Num período em que pouco se conhecia do que por cá se fazia, os músicos tinham ainda um trabalho extra: "Nos concertos por esse país fora tínhamos que contar sempre com algum tempo para convencer as pessoas que não íamos lá tocar nada de outras bandas, nem Pink Floyd nem nada que se parecesse. Íamos para tocar as nossa músicas, os nossos originais. Não tínhamos vocação de ensinadores, mas tivemos mesmo que ser um pouco educadores das massas", brinca o ex-baterista dos Tantra Tó Zé Almeida.
Não se percebe facilmente, por isso, como é que os Tantra depois de terem a lição aprendida foram cometer um erro tão grande poucos anos depois. Porque é que em 1981, já em plena euforia do "boom", os Tantra viraram costas ao português usado nos dois álbuns anteriores e editaram "Humanoid Flesh" em inglês? Simples: "Pensámos que se já estava toda a gente a cantar em português, então, nós, agora, podemos ir às raízes do rock e decidimos cantar em inglês", explica Manuel Cardoso. Erro fatal esse. Mal recebida pelo público e pela crítica, a audácia dos Tantra valeu-lhes a dissolução. E equívoco igual estavam a ter na mesma altura os Roxigénio, banda com uma curta carreira de dois anos, liderada por António Garcez, o qual sempre teimou em não ornar o rock'n'roll com as sonoridades do idioma português. Os Roxigénio foram a banda com estreia mais ansiada em 1980 e apesar da qualidade musical do projecto, nunca viram ser-lhes reconhecido o estatuto de pioneiros da nova vaga musical no país. Garcez era considerado então o melhor cantor rock em Portugal, e entre os músicos estava também aquele a quem ninguém recusava o título de melhor guitarrista português, Filipe Mendes. Mas nada disso lhes valeu quando o país decidira fechar ouvidos a todo o rock'n'roll que não fosse cantado em português.

in "Público", 1999

sábado, 18 de março de 2017

Morreu CHUCK BERRY...

Charles Edward Anderson Berry, melhor conhecido pelo seu nome artístico Chuck Berry, nasceu no dia 18 de Outubro de 1926 e construiu uma reputação graças ao seu trabalho como guitarrista, cantor e compositor. No entanto, por ter sido um dos pioneiros do rock and roll, o seu nome nunca será esquecido.
Criador das célebres músicas “Maybellene”, “Roll Over Beethoven”, “Rock and Roll Music” e “Johnny B. Goode”, Chuck Berry aperfeiçoou e desenvolveu o rhythm and blues, incorporando-o num género emergente e garantido que o rock and roll se tornava no conjunto de sonoridades distintas pelo qual hoje o conhecemos. As suas canções, que se centravam na vida adolescente e realçavam temas como o consumismo, foram uma forte influência no género de rock que se repercutiu nas décadas seguintes.
Vindo de uma família da classe média, em St. Louis, Missouri, Chuck Berry era ainda muito pequeno quando demonstrou interesse pela música, fazendo a sua primeira apresentação musical na escola. No entanto, em 1944, quanto se dedicava ainda aos estudos, uma reviravolta dá-se na vida do artista: é preso por assalto à mão armada, ficando encarcerado entre 1944 e 1947.
Ao ser libertado, Berry decide constituir uma família, casando-se com Themetta Suggs e consegue um emprego fixo numa fábrica de montagem de automóveis. Ainda assim, enquanto constituía uma vida e assentava, Berry ia mantendo o seu interesse pela música. Em 1953, influenciado pela música e estilo musical de T-Bone Walker, Berry começou a fazer alguns concertos à noite ao lado de Johnnie Johnson.
A vida do jovem desconhecido guitarrista começou assim a mudar em Maio de 1955, quando  se cruzou com Muddy Waters, que o pôs em contacto com a editora Chess: é esta a oportunidade que dá a Chuck Berry o momento da sua vida e de fazer aquilo de que realmente gosta. Nos anos que se seguem vai-se consagrando como artista, viajando pelo país para inúmeros concertos onde faz fervilhar a audiência com Roll Over Bethoveen, Sweet Little Sixteen e School Days.
A maioria dos grandes hits de Berry foram gravados na própria Chess, com as participações do pianista Johnnie Johnson, o baixista Willie Dixon e o baterista Fred Below, dando base ao que viria a ser a constituição básica de uma banda de rock and roll. De resto, Chuck preferia tocar sozinho, especialmente durante os seus tours: por norma, procurava e encontrava bandas locais que o acompanhassem em palco.
No entanto, quando começa a ganhar ritmo no seu trabalho musical, é novamente preso, desta vez em 1959, acusado de se envolver com uma empregada de mesa com apenas 14 anos. Condenado a pagar uma multa na ordem dos 5 mil dólares, é mantido atrás de grades até 1963. Ao sair da prisão, espera-o uma nova jornada. Ainda que não tenha conseguido alcançar o sucesso de que usufruía antes de ser preso, o artista continua a viver uma vida razoável de sucesso, focando-se nos clássicos melhor aplaudidos pelos fãs do que em criar novas canções.
No início da sua carreira, Chuck Berry foi fortemente influenciado por grandes artistas como King Cole, Louis Jordan, além de, claro, Muddy Waters, que o ajudou a lançar. Mais tarde, foi ele que se tornou na influência, ajudando a definir a voz de bandas como Beatles, Animals e Rolling Stones. E se há ainda dúvidas quanto à posição e impacto de Chuck Berry no panorama musical norte-americano, temos a prova da revista Rolling Stone que elegeu o artista como o 5.º maior nome da música de todos os tempos, considerando-o ainda o 7.° melhor guitarrista do mundo.
No dia 18 de março, Chuck Berry faleceu devido a uma paragem cardíaca, com 90 anos. Os seus últimos anos tinham sido dedicados à reprodução dos clássicos que marcaram o seu repertório – como dissemos anteriormente, o artista não se dedicou à gravação de novas músicas – e o seu tempo enquanto artista era especialmente preenchido com concertos no clube Blueberry Hill. Todavia, o artista parece ter repensado a sua decisão de não gravar novos conteúdos porque chega agora o álbum CHUCK que traz dez novas gravações, das quais oito são totalmente compostas pelo próprio Chuck Berry.
CHUCK é o primeiro álbum do músico desde “Rock It”, lançado originalmente em 1979.  O novo disco foi gravado e produzido pelo próprio Chuck Berry em vários estúdios em St. Louis, nos EUA, e inclui participações do seu grupo de sempre – incluindo os filhos Charles Berry Jr. (guitarra) e Ingrid berry (harmónica, voz), e ainda Jimmy Marsala (baixista de Berry durante 40 anos), Robert Lohr (piano) e Keith Robinson (bateria) – que tocaram consigo durante quase duas décadas em mais de 200 concertos na residência que teve no célebre clube Blueberry Hill.
O álbum também inclui participações de convidados como Gary Clark Jr., Tom Morello, Nathaniel Rateliff e Charles Berry III, neto do próprio Chuck Berry. Já o aclamado escritor e historiador Douglas Brinkley escreveu um artigo que é agora incluído nesta edição de CHUCK.
Este novo álbum é apresentado pelo single Big Boys, que conta com as colaborações de Tom Morello e Nathaniel Rateliff, e que Brinkley descreve como “um hino nacional para os guitarristas”.

domingo, 12 de março de 2017

The Velvet Underground & Nico... há 50 anos!

(Lançamento: 12 de março de 1967)

Se não é o disco mais influente de sempre, não deve andar lá longe.: The Velvet Underground & Nico, o "álbum da banana".
Era um lugar dedicado à arte, às experiências, à subversão, pelo que a Factory era o lugar perfeito para os Velvet Underground, escrevia John Cale, co-fundador do grupo, na sua autobiografia (What"s Welsh For Zen?) lançada em 2011. É isso. O nome dos Velvet Underground haverá de estar sempre ligado a um tempo, a uma cidade e a um homem - a segunda metade dos anos 1960, quando a Nova Iorque boémia e artística pulsava na Factory, o espaço imaginado por Andy Warhol. E se existe um disco capaz de personificar, melhor do que qualquer outro, esse turbilhão criativo ele é The Velvet Underground & Nico, o "álbum da banana", como haveria de ficar conhecido, por causa da icónica capa da autoria de Warhol. Haverá álbuns dos Beatles, Stones, Dylan, Cohen ou Doors, tudo nomes mais consensuais do que os Velvet, que figurarão na lista dos mais influentes de sempre para a generalidade dos mortais. Mas para uma parcela muito significativa dos melómanos e para a mais estimulante música dos últimos trinta anos, esse álbum foi determinante enquanto farol, influência, símbolo.
Sem ele não teria havido David Bowie, Stooges, Can, Roxy Music, pelo menos da forma como os conhecemos. É impossível pensar na Nova Iorque artística da segunda metade dos anos 1970, personificada na música pelos Talking Heads, Television ou Patti Smith, sem passar por este disco. É difícil imaginar o punk e o pós-punk simbolizado pelos Sex Pistols e Clash ou pelos Joy Division e Echo & The Bunnymen sem vislumbrar a silhueta desse álbum. É impraticável não vislumbrar esse espectro no melhor rock do final dos anos 1980 e início dos anos 1990 (Sonic Youth, My Bloody Valentine) ou no renascimento rock impulsionado, nos anos 2000, por Strokes ou Interpol. Como é difícil acordar num domingo de manhã solarengo sem pensar em Sunday morning.
Algumas notas celestiais, uma voz de hippie andrógina, uma balada envolvente, uma luz transparente, uma canção delicada. Essa canção, que saiu em single antes do álbum, é viciante, a aparente antítese de uma tripe ao inferno. Mas depois dessa canção, que abre o álbum de estreia dos Velvet, nada parece normal. Há a voz de Lou Reed, espécie de vampiro cantante que seduz as mais belas melodias em "I"m waiting for the man" ou "Heroin". Existe o contracanto espectral e cândido da loira Nico em Femme fatale, "I"ll be your mirror" ou "All tomorrow's parties". Ouvem-se as mantras espaçosas impostas pelo piano ou pelo violino de John Cale em "The black angel's death song", e as guitarras ruidosas em estado de putrefacção em "Venus in furs".
Pela primeira vez uma banda soava niilista, ou parecendo provir do lado errado dos sonhos psicadélicos, com qualquer coisa de transcendente. É um disco onde tudo é obscuro, extremo, tóxico, desencantado, mais próximo das ideias percorridas pelos espíritos livre do jazz do que dos modelos mais convencionais do rock. Esse lado mais primitivo e alienado pode ter sido diluído pela passagem do tempo, mas ainda está lá, imune às circunstâncias. É uma música intensa aquela que é proposta, seja quando as arestas parecem mais polidas, num registo de balada pop, ou deixadas em aberto, guiadas pelas descargas de energia.
O disco saiu em Março de 1967, em pleno "Verão do amor", e era uma anomalia desse tempo. Os Velvet não eram hippies, nem queriam nada com eles. As letras não tinham nada de All you need is love, preferindo abordar paranóias, heroína, sadomasoquismo, desejo, morte, o lado B dos anos 1960. Também não havia longos e virtuosos solos de guitarra à Hendrix, apenas solos curtos e acordes básicos. E o visual era fora de época: todos de negro, óculos escuros, atitude distante. Claramente os hippies não gostavam deles. Quando tocaram em São Francisco, ao lado dos Jefferson Airplane e Frank Zappa, foram vaiados. Eram a banda certa, na cidade certa, na época errada. A retórica da paz & amor, da meditação e do sexo livre, passava-lhes ao lado. Eles viviam e cantavam o submundo de Nova Iorque. Só podiam resultar em qualquer coisa de diferente. Tão distintos que nenhuma multinacional se veio a interessar. Em 1966 receberam uma nota da Columbia dizendo que ninguém no seu perfeito juízo se viria a importar com aquilo.
Tudo começou quando o galês John Cale conheceu Lou Reed em 1964, quando foi estudar música clássica para Nova Iorque. Cale já trabalhara com compositores das vanguardas como Cornelius Cardew e La Monte Young, mas também se interessava por rock e Reed era essa porta de entrada. Mais tarde haveriam de juntar-se-lhes o guitarrista Sterling Morrison e a baterista Moe Tucker, que mal sabia tocar. Em Dezembro de 1965 um grupo de boémios, liderado por Warhol, acabou por assistir a um concerto do grupo no Café Bizarre. Encantado pela prestação demoníaca dos quatro, Warhol felicitou-os, propôs que actuassem na Factory e sugeriu que integrassem a loira alemã Nico para cantar algumas canções. A reputação de Warhol deu-lhes maior visibilidade, acabando a tocar na Factory. Enquanto Warhol apresentava slides e filmes e alguns bailarinos criavam performances com chicotes e cruzes, os Velvet tocavam uma música repleta de ruído e reverberação. Apesar de creditado como produtor, Warhol pouco agiu sobre a música, cotando-se como o homem que lhes atribuiu o sentido de liberdade, a caução artística, a visibilidade mediática e uma capa icónica - uma das mais célebres de sempre. Ainda recentemente um juiz nova-iorquino indeferiu o processo levado a cabo por Lou Reed e John Cale contra a Fundação Warhol pela utilização da imagem da banana criada por Warhol. Os dois músicos invocavam licenciamento ilegal da imagem para utilização comercial indevida e enganosa para iPads e acessórios.
Aliás, as histórias que rodeiam esse álbum, e a vida do grupo que se viria a desintegrar em 1973, estão recheadas de contendas, não só entre os dois principais obreiros do grupo (Cale e Reed) como entre estes e o mundo exterior. O que é curioso é que quando o álbum saiu poucos deram por ele. Nos primeiros cinco anos foram vendidas 30 mil cópias, insuficiente para a época mas essencialmente pouco se pensarmos na sua influência posterior. Nem sempre é pelo sucesso comercial que se aquilata da ascendência de um disco. Um dia o músico e produtor Brian Eno afirmou, realçando o seu efeito, que poucos o terão comprado quando saiu, mas de entre todos os que o fizeram terão sido poucos os que não foram logo de seguida formar uma banda.
Ouvir um álbum destes, quase meio século depois, pode levar alguns a pensar em anacronismos. Mas é difícil encontrar um outro disco que tenha sobrevivido ao tempo de forma tão imparável. Não é uma peça triste de museu. É uma peça viva. Os Velvet foram, à sua maneira, a primeira banda "alternativa" do rock, colocando em causa os modelos normativos da época, ao mesmo tempo que construíram o seu próprio espaço. Não foram apenas o lado B dos anos 60. Com a sua acção, cantando o não visível, o não enunciado, a viscosidade do existir, tornaram-se também, à sua maneira, na banda sonora das últimas décadas do mundo contemporâneo.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Frankie Goes To Hollywood

Berço dos Beatles, a cidade de Liverpool conheceu particular agitação em finais de 70, em plena ressaca do punk. Ali entraram em cena nomes como os Teardrop Explodes, Echo & The Bunnymen, OMD... Contudo, a banda da cidade de que mais se falaria na década de 80 não era então mais que uma discreta aventura local e encontrava nome num texto sobre Frank Sinatra numa edição da New Yorker, onde se lia "Frankie Goes To Hollywood"...
Ninguém deu por eles nos primeiros anos de vida. E vários foram os "nãos" que ouviram de algumas editoras... Em finais de 1982, John Peel convidou-os para uma sessão, na qual gravaram, entre outros, Two Tribes e Relax. Em inícios de 83, nova sessão. Na mesma altura, e ainda sem editora, são chamados a tocar na televisão, no programa The Tube. Trevor Horn (ex-Buggles), que acabara de abrir uma editora, desafiou-os a juntar-se à ZTT Records. E da noite para o dia a vida da banda mudava completamente.
A gravação do primeiro single gerou logo focos de tensão. "Cansado" de ouvir a banda tocar da forma como o faziam, como o vocalista Holly Johnson recordou mais tarde na sua autobiografia (A Bone In My Flute, 1994), Trevor Horn afastou a banda do estúdio. Preparou então uma nova base mais electrónica. Os três músicos da banda - Peter Gill (bateria), Mark O'Toole (baixo) e Brian Nash (guitarra), juntamente conhecidos como The Lads - foram então levados para uma piscina, onde J.J. Jeckzalic (dos Art Of Noise) os gravou a mergulhar. Esse som, manipulado, seria a sua única contribuição para o disco. Paul Rutherford, o quinto elemento, e tal como o vocalista abertamente gay, era a segunda voz. Assombrados pelo facto de estarem a trabalhar com Trevor Horn, nem protestaram. "Dizíamos que sim a tudo o que ele sugerisse", recorda Holly Johnson no livro. E perceberam, pelo contrato que tinham assinado, que a editora "tinha as cartas na mão".
Ao mesmo tempo, Paul Morley, jornalista musical e outro dos fundadores da ZTT, desenhava uma estratégia de lançamento para o grupo. Por um lado criando anúncios de imprensa com frases bombásticas. Depois, tomando três assuntos polémicos como cartões de visita para o grupo: sexo (via Relax), a guerra (em Two Tribes) e a religião (em The Power Of Love). Foi também Morley quem criou o slogan "Frankie Say... Relax", inicialmente usado numa T-shirt promocional, depois transportado para uma linha de merchandising. A relação da banda com as contribuições de Morley azedou com o tempo. Perante o impacte global de Relax (que em poucos meses chegaria ao número um), Holly Johnson recorda que "a ZTT chamou a si o crédito pelo sucesso da banda, justificando que era a forma como Morley havia citado a letra na capa que o teria causado".
A verdade é que a ideia que coordenou o lançamento da banda foi, juntamente com a força da música, infalível. Two Tribes (com um teledisco mostrando Reagan e Chernenko em cenas de luta numa arena) repetiu o fenómeno de Relax. E The Power Of Love garantiu-lhes um terceiro número um. O álbum de estreia, Welcome To The Pleasuredome, foi acolhido com entusiasmo pelo mercado e sob aclamação na crítica. Eram o fenómeno pop do ano. Mas saberiam resistir ao efeito da novidade?
Em 1985 editam um quarto single do primeiro álbum, mas "falha" o número um. Regressam em 1986 com um segundo álbum, Liverpool, claramente menor. Os singles dele retirados - Rage Hard, Warriors Of The Wastelands e Watching The Wildlife - reflectem uma progressiva queda de popularidade.
Entretanto as tensões internas avolumavam-se. Sobretudo entre o vocalista e os restantes músicos. Tanto que, terminada uma curta digressão, o grupo acaba mesmo por se separar. Após longa disputa legal com a ZTT, Holly Johnson inicia uma carreira a solo em 1989. Paul Rutherford segue igual caminho. Os outros três músicos chegam ainda a ter novas vidas na música, mas sem igual visibilidade.
Na sequência de uma tentativa frustrada de reunião para um programa do VH-1, alguns dos elementos do grupo (salvo Nash e Johnson) acabaram mesmo por voltar a tocar juntos. Há dois anos anunciaram novo nome (Forbidden Hollywood). Mas a coisa ainda não teve mais continuidade...

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Tindersticks - Curtains (1997)

Ao chegarem ao terceiro álbum, os Tindersticks apresentariam o seu mais bem polido registo que alguma vez haviam feito... No primeiro disco espalharam as pistas e diversas direcções por onde esta banda indie poderia seguir para o seu futuro. Ao segundo registo, escolheram focar-se só nalgumas dessas direcções e fizeram um disco maravilhoso, com nervo, daqueles que ficam tatuados. Ao terceiro, bem... depuraram ainda mais o som único que detinham. Sublimaram tudo o que bem sabiam fazer de maneira quase épica. Não se resignaram em meramente o fazer, eles apresentaram num nível elevadíssimo, até mesmo para eles.
Na altura, em 1997, as mais importantes publicações dedicadas à critica musical não se evitaram de enaltecer efusivamente esta nova obra da banda. Algumas disseram assim:


"Q" (Absolutely tremendous.);
"Uncut" (The greatest record on earth. Their music lifts up my soul.);
"New Musical Express" (Tindersticks have never been better.)...

Digo igualmente que sim, pois "Curtains" afigurou-se um álbum verdadeiramente marcante, megalómano, pomposo, orquestrado, sedutor, viciante... mas também exibe intenção, quando nos anteriores registos havia espontaneidade. De certa forma, para fazerem um grandioso disco, elaborado e tão pensado assim, todo o processo igualmente criou um enorme problema para a saúde da banda. Problemas esses que se deram ao longo do desenvolvimento e depois de sair para o mercado. Internamente, a banda sentiu-se obrigada a ter de dar uma boa resposta ao enorme sucesso que certos temas do segundo álbum obtiveram (do calibre de "Tiny Tears", por exemplo), e que eram recebidos em apoteose nos concertos. A banda superou a árdua tarefa com um disco superlativo... mas isso criou estragos internos, que viriam a conduzir a desistências e desentendimentos entre os membros. Depois de "Curtains" os Tindersticks nunca mais foram os mesmos e nunca mais repetiram a exímia fórmula exibida em 1997. Valeu-nos, aos fãs, a grande capacidade de reinvenção que a banda sempre desfilou e também ao grande Stuart Staples ao leme...
Destaco deste álbum as faixas: 
"Another Night In", "Rented Rooms", "Ballad Of Tindersticks", "Buried Bones" o dueto com Ann Magnuson, "Bathtime" e por fim, as duas belíssimas seguintes faixas que podem ser escutadas "Don't Look Down" e a "Let's Pretend" (talvez a melhor canção de sempre da banda).


Tindersticks - Tindersticks 1 (1993)

O homónimo longa-duração de estreia dos Tindersticks, foi um marco no rock indie... É um disco cru quando quer, é delicado quando precisa, é deslumbrante quando querem seduzir, é profundo quando quer deixar marcas... e instala em quem o souber apreciar, a vontade de se encontrar com este som de novo.
Os Tindersticks, antes da estreia deste primeiro álbum, já haviam lançado singles, tendo sido "Kathleen" (a primeira canção deles), o que despertou os mais atentos. 
Antes de terem este nome também se chamaram os Asphalt Ribbons.
Distinguiam-se por uma sonoridade rock, marcadamente indie, melancólica, cantada ao mais puro estilo crooner, mantendo as influências do rock de recorte mais clássico.
Muito criativos e multi-instrumentistas, pois recorreram desde sempre aos mais variados instrumentos, desde os xilofones, pianos, violinos, incluindo pequenas orquestras com cordas e sopros, sempre em sintonia com os instrumentos convencionais de uma banda rock. Eram estas as coordenadas que a banda apontava, apesar de se perceber que exploravam sem saber na realidade que rumo avançar. Tantas eram as possibilidades que apresentavam, que rapidamente se tornaram num grande sucesso underground.
"Tindersticks (1)", é daqueles discos que requer a dedicação de quem o ouve para ele se abrir verdadeiramente. Tanto abordam o rock ao estilo velvetiano com voz à Lou Reed, como sugerem saber fazer uma boa torch song, ou mais ainda uma incursão mariachi e algumas experiências sonoras interessantes.

Destaco deste 1º registo faixas memoráveis como: 
"Nectar", "Blood", "City Sickness" (das melhores de sempre, até hoje), "Marbles" (excelência, magnifica e soa a puro Velvet Underground), "Jism", "Her" e muito especialmente outro ponto alto de todo o disco que é a "Raindrops" (que muito me faz lembrar um valsa...).

"Raindrops"
Curiosidade: inicialmente esta canção teve o título de "The Big Silence"...

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Vinicius de Moraes (1913-1980)

Vinicius de Moraes nasceu no Rio de Janeiro, no dia 19 de Outubro de 1913. Foi aquele poeta que qualquer cantor queria ter por perto. O poetinha, que também foi diplomata, jornalista e dramaturgo, transpirava poesia. Era impossível não ficar rendido aos seus sonetos, à sua eterna arte de seduzir e conquistar através da palavra.
A vida boémia e de excessos que levou durante cinco décadas não permitiu tê-lo entre o reino dos vivos mais de sessenta e seis anos, mas a genialidade dos seus textos deram-lhe um visto gold para a eternidade, através das belíssimas canções que nasceram da sua caneta.
Sem surpresa, Vinicius cantou o Amor. De uma maneira intensa e persuasiva, bela e provocante, a que ninguém ficava indiferente. Foi ele o criador da imortal “Garota Ipanema” que desarma qualquer um no primeiro verso “Olha que coisa mais linda” e termina de modo sublime “Ah, se ela soubesse/ Que quando ela passa/ O mundo inteirinho se enche de graça/ E fica mais belo/ Por causa do amor”.
Vinicius eram um excelente parceiro. Além da eterna parceria com o uísque, formou nove parcerias conjugais dando razão a uma das suas mais célebres frases – “O Amor é eterno enquanto dura” -, mas aquelas que ficaram mais célebres foram as que assinou com Toquinho, Tom Jobim, João Gilberto, Chico Buarque, Carlos Lyra.
Há várias canções escritas por Vinicius que revisito, de quando em vez, no entanto há duas que aprecio pela sua qualidade poética, simplicidade e pelo impacto que tiveram na carreira do poetinha e de outros nomes grandes da cultura brasileira: “Chega de Saudade” e “Eu sei que vou te amar”. São dois saborosos frutos da parceria com o amigo Tom Jobim, nos maravilhosos anos cinquenta, da música popular brasileira.
No poema “Chega de saudade”, Vinicius declara a saudade como uma coisa triste e causador de sofrimento. Ele que sempre foi um prático, achou que as saudades eram coisa para morrer entre “abraços apertados, beijos e carinhos”. Curiosamente há outro texto do poetinha em que ele reconhece todas as agruras e sofrimentos do Amor. Em “Tempo de Amor”, Vinícius declara:

”Ah, bem melhor seria
Poder viver em paz
Sem ter que sofrer
Sem ter que chorar
Sem ter que querer
Sem ter que se dar

Mas tem que sofrer
Mas tem que chorar
Mas tem que querer
Pra poder amar”

Como diria o grande Camões, Vinicius é um fogo que arde e que se vê. Nas suas poesias, há sempre paixão, erudição e muito amor. Reservei para o final, o poema de Vinicius de Moraes que mais gosto – Eu sei que vou te amar -, cujos méritos são sobejamente conhecidos, de tal forma  que grandes vultos da música brasileira como Caetano Veloso, Tom Jobim, Ivete Sangalo, Elis Regina e Ana Carolina não resistiram a cantá-lo. Vale sempre a pena ouvi-lo, em qualquer interpretação.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Bob Dylan galardoado com o Nobel da Literatura

Há mais de cinquenta anos que Bob Dylan batia à porta do céu com músicas e letras brilhantes como Like a Rolling Stone, Mr. Tambourine Man, Knockin´on a Heaven´s Door, Blowin´in the Wind, Don´t Think twice – It´s All Right, mas não podia ganhar prémios porque fumava umas “coisas esquisitas”, apesar das muitas coisas acertadas que as suas músicas «diziam».
Os anos foram passando e Dylan entrou no Olimpo dos grandes criadores onde assistia ao longo cortejo da mediocridade. De tempos a tempos, a velha lenda do rock americano lá se saía com mais uma música/letra incomodativa como “Things Have Changed”, em 2000, arrebatando o Globo de Ouro para melhor canção original do filme que lhe encomendou a banda sonora. No dia 13 de Outubro de 2016, aos 75 anos, a Academia Nobel resolveu usar Bob Dylan para dar um forte abanão num prémio – o Nobel da Literatura - que corria o risco de cristalizar e se institucionalizar. Finalmente a Academia Sueca percebeu que a grande literatura está muito para além dos livros. Muitos letristas e compositores de músicas foram e são grandes poetas. Mais revolucionários e interventivos na sociedade que tantos escritores clássicos.
A escolha de Bob Dylan para Prémio Nobel da Literatura simboliza essa mudança de paradigma. Por isso, este foi um dia importante para a literatura, para a poesia, para a música, para o próprio Prémio Nobel. Dylan foi usado como uma verdadeira pedrada no charco em que ameaçava cair este prestigiado prémio. E talvez seja esse o seu grande contentamento. Por uns tempos, vamos ouvir Dylan e prestar atenção à sua mensagem. Não vamos pensar nas coisas que ele fumava, mas nas coisas que escrevia e cantava. Podia ter sido outro? Podia. Podia ter sido, por exemplo, Chico Buarque, mas Dylan é americano e todos nós sabemos que uns são mais iguais que outros, como há «armas» que acertam melhor no alvo que outras.
Sobre Bob Dylan, despeço-me com o refrão de Things Have Changed
People are crazy and times are strange
I´m locked in tigth, I´m out of range
I use to care, but things have changed
Na verdade, as coisas mudaram, mas ele nunca deixou de se importar. Ainda bem para nós.