quarta-feira, 30 de março de 2016

Eric Clapton faz hoje 71 anos (Parte I)

Eric Patrick Clapton nasceu há 71 anos, em Ripley, no Surrey, filho de Patricia Clapton, de 16 anos, e Edward Fryer, de 24 anos, um soldado canadiano mobilizado para a Grã-Bretanha durante a II Guerra Mundial. Antes de Eric nascer, o pai regressou até junto da esposa, no Canadá. Por culpa dos preconceitos da época, Eric foi criado a pensar que a mãe era sua irmã e que os avós eram seus pais. Quando descobriu a realidade, aos nove anos, ficou transtornado.
Eric Clapton 2 parts (19)
O jovem tornou-se num educado e tranquilo estudante de arte. Mas, aos 16 anos, foi expulso da escola. Motivo? A guitarra. Passava horas sozinho no quarto, a estudar os velhos discos de blues de Robert Johnson num gira-discos, reduzindo as rotações para aprender as notas. Era um esforço autodidata e solitário, mas Eric sentia-se diferente, devido ao seu passado familiar. A sua natureza introspetiva condizia na perfeição com os blues.

Trabalhou na construção civil e começou a fazer viagens a Londres, até que, em 1963, integrou os Yardbirds, banda onde se tornou conhecido como guitarrista excecional e inovador. Em abril de 65, com apenas 20 anos, junta-se aos John Mayall’s Bluesbreakers. O álbum que gravou com o grupo, além dos concertos, fizeram com que o grafitti “Clapton is God” surgisse na estação de Metro de Islington, originando uma famosa fotografia.
As atenções não interferiram na sua personalidade reservada e simples. No final dos anos 60, juntou-se a Ginger Baker e Jack Bruce, formando o supertrio Cream. Seguiram-se os Blind Faith, em que uniu forças com Ginger Baker e Stevie Winwood numa tentativa fracassada de formar um supergrupo.

As pressões para que seguisse uma carreira a solo eram inevitáveis, e Eric edita o seu primeiro álbum homónimo em agosto de 70. Embora algumas faixas, como «After Midnight», se tenham tornado parte do seu reportório, o disco denotava alguma insegurança. Clapton não se via como cantor e a sua timidez deu origem ao passo seguinte: O veterano de 25 anos formou os Derek and the Dominos.
Das poucas imagens que existem do grupo, no programa de Johnny Cash, em 1971. Eric com a guitarra “Brownie”:
“Derek” era Eric: “Quisemos formar uma banda, mas eu não achava que tivesse conquistado suficientemente o respeito do público para ser o cantor. Teria estragado tudo se tivesse dado o meu nome ao projeto. Deste modo, liderei as coisas de modo subtil, usando outro nome.” Na sua mansão do Surrey, Clapton ensaiou com Jim Gordon, Carl Radle e Bobby Whitlock.
O quarteto mostrou os primeiros resultados ao participar no álbum All Things Must Pass, do ex-Beatle George Harrison, o melhor amigo de Clapton. Surge então um dilema. Esta fase coincidiu com a paixão da vida de Clapton; a mulher de George Harrison, justamente: Pattie Boyd.
Digressão de Layla. Nesta altura, Clapton tocava como um homem possuído.
Digressão de Layla
Digressão de LaylaNesta altura, Clapton tocava como um homem possuído.
A paixão não correspondida de Boyd, a morte do amigo Jimi Hendrix e a perda do avô lançaram o guitarrista num inferno pessoal. Clapton conhecera Hendrix em 1966. Os músicos, embora fossem competidores no título de “melhor guitarrista do mundo”, sentiam uma enorme admiração mútua.
Cada vez mais deprimido, Clapton mergulhou na música como único escape, concebendo uma obra-prima: Layla and Other Assorted Love Songs. Na gravação, participou Duane Allman dos Allman Brothers, guitarrista fora de série, que deu um impulso inimaginável a Clapton. As gravações ficaram marcadas pelo abuso de várias substâncias. Eric, muitos anos mais tarde, recapitulou que os estupefacientes não ajudam nenhum guitarrista. Revela que isso só lhe aconteceu na gravação do lendário «Layla», tema inspirado pela obra do poeta persa Nizami:
A História de Layla e Majnun, o relato de um homem que se apaixona por uma princesa comprometida, acabando por ser considerado louco, sendo proscrito para sempre. Os paralelismos eram evidentes e todos conheciam o dilema de Eric/Derek.
Além do grito de desespero que é «Layla», do álbum consta uma canção ainda hoje considerada superior nas votações das revistas de guitarra: «Have You Ever Loved a Woman?», na qual eleva os blues a um nível operático, dialogando com a guitarra slide de Allman, e cantando como um possesso. Esta faixa bastaria para lhe garantir um lugar na História. Eric gravou ainda uma versão de «Little Wing», de Hendrix, duas semanas antes da morte do guitarrista. Duane Allman também faleceu, algum tempo depois, num acidente de moto.
Na digressão de Layla (que viria a ser retratada em In Concert, dos Dominos, em 1973) Clapton toca como um demónio, um homem torturado. Os seus solos intensos prolongam-se, com o guitarrista a querer furiosamente derrubar as fronteiras da Fender Stratocaster. O seu drama era conhecido, o que ajudou a criar uma espécie de aura à sua volta. O público sabia quem era “Derek”.

ATRÁS DA MÁSCARA

A nível pessoal, Clapton estava à beira do abismo. Cada vez mais dominado pela heroína – problema que afectava todo o grupo –, não conseguiu dar sequência ao álbum. O insucesso do disco e os problemas pessoais devastaram-no de tal forma que se fechou três anos em casa a consumir heroína e a vender guitarras para sustentar o vício, no auge do sucesso.
O conto de fadas torna-se realidade: Clapton e Pattie Boyd. "Ele fez duas coisas que admiro imenso", disse o amigo Pete Townshend, "livrou-se do vício e conquistou a mulher que queria".
O conto de fadas torna-se realidade: Clapton e Pattie Boyd. “Ele fez duas coisas que admiro imenso”, disse o amigo Pete Townshend, “livrou-se do vício e conquistou a mulher que amava”.

Em janeiro de 1973, o amigo Pete Townshend, dos The Who, foi um dos que mais tentou resgatar Clapton, ajudando a organizar o concerto no Rainbow, em Londres. Esta tentativa não produziu efeitos imediatos, mas Clapton acabou por se desintoxicar, regressando com 461 Ocean Boulevard, em 1974, a sua verdadeira estreia a solo. “Livrei-me da droga, mas cometi um erro clássico: Comecei a beber”, refletiu o guitarrista, anos mais tarde. Casou com Pattie Boyd, protagonizando um autêntico conto de fadas, mas, durante toda a década de 70, o alcoolismo interferiu no seu trabalho, dando origem a álbuns de qualidade desigual. As intermináveis e triunfais digressões dos anos 70 foram realizadas no meio de uma névoa alcoólica que ameaçava destruir o talento e a vida de Clapton.
«Wonderful Tonight» foi outra das canções dedicadas a Boyd. “Não importa se foi bem gravada ou bem tocada. Não interessa, porque a canção é boa”, diz Eric. O tema integra o álbum Slowhand, de 1977, um disco soberbo.
O nome é uma das alcunhas de Clapton, já que, quando partia uma corda durante os concertos dos Yardbirds, mudava-a ao som das palmas ritmadas do público, daí “mãos lentas”. Uma outra explicação é a ironia do termo, tendo em conta a rapidez de Clapton nas seis cordas.
Eric Clapton 2 parts (14)
Em dezembro de 1979, Eric passou por Tóquio, autorizado a atuar no famoso Budokan – sala japonesa sagrada e reservada à prática de artes marciais. Clapton adora o país, que também o adora a ele, diga-se. O concerto foi gravado e editado com o nome Just One Night. “Os públicos são invariavelmente generosos”, escreveu Clapton nas notas do álbum, declarando-se uma espécie de ‘freak’ naquela “sociedade tão rígida, de que tanto se orgulham. Mas tudo corre sempre com doçura”.
Neste álbum ao vivo, é registada a versão de «Blues Power», uma tour de force, com Eric a usar o pedal de wha wha, no qual é exímio. Deitou a sala abaixo com um solo fulgurante na fiel “Blackie”, que com ele partilha a capa do disco. Os registos ao vivo de Eric são sempre marcados por uma grande simpatia do guitarrista. Agradece com a cabeça, face aos aplausos do público, após um solo, e termina com um “God bless you”, frase com que revela a sua faceta espiritual.
Durante os anos 70, Eric devolveu ainda a Bob Marley o lugar merecido com a versão de «I Shot the Sheriff», gravou uma versão de «Knocking on Heaven’s Door», com sabor a reggae, eclipsando a interpretação de Bob Dylan. As suas versões ofuscavam os temas originais, o que ficou explícito nas experiências com a música country. Interpretou (e popularizou) várias músicas de JJ Cale, como «Cocaine», até que com ele gravou um muito esperado álbum de duetos, The Road to Escondido (2006).
No início dos anos 80, Clapton é internado de urgência com uma úlcera do tamanho de uma bola de golfe, prestes a rebentar. Segundo os médicos, não morreu por uma questão de horas. Os tabloides apregoaram, “Clapton perto da morte”. Mas o guitarrista não parou de beber.

SANGUE, SUOR E LÁGRIMAS

Eric Clapton 2 parts (11)Em 1983, após uma pausa inadiável, edita Money and Cigarettes, um regresso à boa forma. Pessoalmente, sentia-se desorientado sem o álcool, e a relação com Pattie Boyd desagregava-se. Boyd tornara-se alcoólica e acabam por se separar. A esposa não podia ter filhos, o que torna ainda mais dramático o que sucederia futuramente a Clapton.
Eric colaborou com Roger Waters em The Pros and Cons of Hitch-Hiking, em 1984. Waters fez uma manobra sarcástica, na altura em que se desentendeu com o colega dos Pink Floyd, David Gilmour. Por isso, foi buscar o “maior guitarrista do mundo”, para enervar o plácido Gilmour. Apesar das intenções maquiavélicas de Waters, Clapton aquiesceu e fez o que pôde por salvar o descalabro… Não gostou especialmente da digressão, das limusinas e dos jantares finos de Waters, horrorizando o colega quando pediu um hambúrguer e batatas fritas, farto de esperar interminavelmente por um prato requintado.
Os anos 80 ficaram marcados pela sua tentativa de lidar com o comercialismo da década, deixando que discos seus fossem produzidos por Phil Collins. Participou no Live Aid, uma atuação fulgurante, e já na época se disse que foi uma forma de dar a conhecer a sua música a uma nova geração. Em agosto de 86, nasce o seu filho, Conor, que inspirou o nome do álbum editado nesse ano, August.
Em finais de 80, “Slowhand” reincidiu no alcoolismo. Em dezembro de 87, estava em tratamento, no Minnesota, quando surgiu na televisão, num filme publicitário da cerveja Michelob. “Estava numa sala cheia de alcoólicos em reabilitação, eu incluído. Todos me perguntaram se era eu. E eu respondi ‘sim’, o que havia de dizer?”
Na digressão de Roger Waters.
Na digressão de Roger Waters.

Depois de ultrapassada esta nova barreira, gravou Journeyman. Clapton, que se vê como um viajante, sentiu-se algo culpado por alguns dos rumos que a sua música tomou.
“Penso que me vendi há muito tempo. Fiz uma espécie de acordo comigo mesmo, tentei seguir caminho, agradar às pessoas, para tornar a vida fácil.”
Eric Clapton e Conor.
Eric Clapton e Conor.

Durante os anos 90, Clapton ficou conhecido pelas suas temporadas de concertos esgotados na prestigiada sala londrina Royal Albert Hall, celebrizada pelos espetáculos de música clássica. A década ficou marcada pelo divórcio de Pattie e a separação da mãe do seu filho, a italiana Lori Del Santo. A morte do amigo Stevie Ray Vaughan, num desastre de helicóptero, deixou-o destroçado. Clapton ia partilhar o helicóptero com Vaughan, depois de ter atuado com ele nessa noite, mas mudou de ideias, preferindo viajar no dia seguinte. Em 1992, o guitarrista estava em Nova Iorque para visitar Conor, quando este caiu de um arranha-céus. Clapton é internado em estado de choque.
Eric Clapton 2 parts (26)Muitos especularam que se refugiaria novamente nos antigos vícios, face a tantas tragédias. Mas o guitarrista permaneceu apenas viciado em jogos da Nintendo. Partiu para Antígua, nas Caraíbas, levando apenas uma guitarra clássica. Foi lá que compôs «Tears in Heaven», «Help me Up» e «The Circus Left Town», baseado no ultimo dia que passou com o filho, e em que ambos visitaram um circo: “O que vais ver e o que vais ouvir, terão de durar para o resto da tua vida.” A canção foi ofuscada pelo enorme sucesso de «Tears in Heaven».
O convite para compor a banda sonora de Rush – Uma Viagem ao Inferno, em 1992, deu-lhe a oportunidade para exprimir o que sentia.
“As pessoas que seguem a minha carreira e que gostam da minha música, ficariam um pouco surpreendidas se eu não escrevesse sobre a morte do meu filho”, explica Clapton.
Quando recebeu uma mão-cheia de Grammies, disse, baixando o olhar: “Agradeço ao meu filho pelo amor que me deu e pela canção que me deu.” O momento poderia adquirir contornos de um dramatismo previsível, mas a assistência aplaudiu em pé, durante vários minutos, a canção, o prémio, a carreira de Clapton, mas, sobretudo, a dignidade com que enfrentou os seus demónios.

RENASCIMENTO

Em 1992, edita Unplugged, álbum notável que o deu a conhecer a mais uma geração. Dois anos depois, regressa aos blues com From the Cradle, no qual toca melhor do que nunca. O seu virtuosismo recorda a lenda: Os músicos de blues faziam um pacto com o diabo numa encruzilhada, vendendo a alma em troca do talento.
Em 1998, lança Pilgrim, que inclui o tema «My Father’s Eyes», onde o círculo se fecha. Por esta altura, as declarações do guitarrista já adquiriam um tom merecidamente filosófico.
“Nunca conheci o meu pai”, disse Clapton. “Penso que morreu há alguns anos. Mas, o mais próximo que estive de ver os olhos do meu pai, foi ao olhar para os olhos do meu filho.”
No final do álbum, surge um tema interessante, «Inside of Me», em que a filha, Ruth, lê um excerto de O Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Clapton complementa: “Ao arranhar a superfície, tudo parece igual; um mundo cheio de cólera, onde ninguém é culpado. Mas, para quem me posso voltar? Quem tem a chave? E a resposta? Acho que está dentro de mim.”
Na digressão de From the Cradle.
Na digressão de From the Cradle.

Mark Knopfler, com quem colaborou por diversas vezes, aponta-lhe outro talento: “O Eric é um dos meus cantores favoritos.” Durante o concerto dedicado a Nelson Mandela, em 1988, Knopfler anuncia a substituição de um guitarrista dos Dire Straits, por ter tido duas filhas: “Teve duas meninas, deste tamanho”, explica, elevando a mão à altura do peito. “Por isso, tivemos de arranjar um substituto. Nunca tocou em Wembley… mas foi o melhor que se arranjou. Mas já tem alguma experiência…” No final de «Wonderful Tonight», Knopfler diz apenas: “E.C!”
Os dois guitarristas, com estilos contrastantes, colaboraram diversas vezes. Quando Knopfler entrou em cena, em 1978, Clapton ficou “assustado” com o competidor. Um dos muitos guitarristas com quem tocou, espelha a opinião de toda a “classe”:
“Mais do que um grande guitarrista, quando convivíamos com ele, tínhamos a sensação de que era boa pessoa.”
Com a fiel Blackie.
Com a fiel Blackie.

Foi o “erro favorito” de Sheryl Crow. Em 2004, editou mais um álbum de blues, desta vez totalmente dedicado à sua grande influência: Robert Johnson. No ano seguinte, conseguiu que os antagónicos Jack Bruce e Ginger Baker fizessem as pazes, e o trio revitalizou os Cream. A idade dos músicos e o teor da iniciativa faziam temer que a reunião pouco acrescentasse ao legado do grupo. Mas os três músicos provaram que a química ainda existia, tornando o evento excecional. Felizmente, foi registado num ótimo DVD, ao vivo no Albert Hall.
10 anos antes deste concerto, as capas de revistas como a Guitar Player ou a Guitar World proclamavam, “o velho ‘Slowhand’ continua…” Clapton lançou a sua esperada autobiografia, mas Pattie Boyd antecipou-se com o livro Wonderful Tonight: George Harrison, Eric Clapton, and Me.
Em anos recentes, Clapton tem tido sossego. Foi pai de três filhas. “Sim, tive outros filhos, mas é claro que nenhum deles irá substituir Conor.” Anunciou que se ia retirar do mundo musical. Com a humildade do costume, comentou, numa entrevista:
“As mortes que marcaram a minha vida, fizeram-me perceber uma coisa: Se temos mais um dia, é uma bênção.”

A FIEL «BLACKIE»

Clapton leiloa Blackie, a sua guitarra preferida. Motivo? Angariar fundos para quem sofreu o mesmo problema que ele.
Clapton leiloa Blackie, a sua guitarra preferida. Motivo? Angariar fundos para quem sofreu o mesmo problema que ele.

A guitarra mais famosa de sempre é questionavelmente a “Blackie”, de Eric, embora os fãs de B.B. King possam dizer que “Lucille” é digna do epíteto. No entanto, embora “Lucille” guarde as suas histórias, a Fender Stratocaster preta e branca de Clapton possui um carisma invulgar. No início dos anos 70, Eric comprou diversas Stratocasters a um preço barato, nos Estados Unidos, uma vez que, na época, o modelo não era muito popular. As Gibsons estavam na berra, em parte devido ao próprio Clapton.
O guitarrista ofereceu algumas aos amigos e guardou várias. Depois, escolheu o melhor braço, os melhores pickups e o melhor “corpo” de cada uma delas, juntando os componentes numa guitarra híbrida, a qual batizou de “Blackie”.
A guitarra acompanhou-o até ao final dos anos 80, em várias digressões, e pode ser vista em inúmeras fotos do guitarrista. Clapton gostava tanto de “Blackie” que a tocou até dar literalmente cabo dela; a madeira do braço, de tão gasta, estreitou alguns milímetros, a ponto de as cordas não terem ponto de apoio.
Eric acabou por dar descanso a “Blackie”, receando que fosse roubada ou se danificasse. A Fender tirou as medidas à guitarra e lançou a Eric Clapton Fender Stratocaster Signature Series, um modelo concebido de acordo com as especificações do guitarrista. A verdadeira foi vendida, em 2004, por cerca de 960 mil dólares num leilão da Christie’s.
Clapton tem leiloado as suas guitarras para angariar fundos para o seu Crossroads Centre, em Antígua, uma clínica para dependentes de substâncias químicas, problema que o guitarrista conheceu bem. Entre outros instrumentos, conta-se a “Brownie”, que em inglês significa “duende benfazejo”, uma Stratocaster sunburst, das preferidas de Clapton, a qual tocou no álbum Layla, e que se pode ver na foto da contracapa.
Clapton com a Brownie, também ela leiloada.
Clapton com a Brownie, também ela leiloada.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Pattie Boyd, uma das mulheres mais sortudas da história do rock, completa 72 anos.

Pattie Boyd,  modelo e actriz foi casada com George Harrison e Eric Clapton e ganhou músicas incríveis da parte dos dois guitarristas. Uma delas é “Something”, que faz parte do álbum “Abbey Road” dos Beatles e outra é “Layla”, gravada para o disco “Layla and Other Assorted Love Songs”, da banda Derek and The Dominos.
George conheceu Pattie nas gravações do filme “A Hard Day’s Night”, em que ela foi figurante, e os dois casaram em 1966, tendo Paul McCartney como padrinho. A história de como os dois se conheceram, teria tudo a ver com a letra do hit. Contudo, George afirmou certa vez, que não tinha ninguém em mente quando compôs a música, o que foi contrariado no livro de 2007, “Wonderful Tonight: George Harrison, Eric Clapton and Me”, de Pattie Boyd. A ex-mulher do guitarrista conta na publicação que Harrison escreveu “Something” para ela, mas que o casamento dos dois já estava em crise na altura.
Primeira canção de George a ser lançada como lado A de um single dos Beatles, “Something” só perde para Yesterday em número de regravações de músicas do quarteto britânico. Uma das versões é do cantor Frank Sinatra, que chegou a declarar, que esta era a canção de amor mais bonita dos últimos cinquenta anos.
Se George Harrison negou que “Something” foi inspirada em Pattie Boyd, já o seu grande amigo Eric Clapton assumiu que “Layla” e uma série de outras músicas que escreveu, diziam respeito à modelo. Clapton apaixonou-se por Pattie quando esta ainda era casada com o ex-beatle, e ao perceber que não poderia ficar com ela, escreveu grande parte das músicas que fazem parte do disco “Layla and Other Assorted Love Songs”, de 1970. Sete anos depois do lançamento do álbum, Pattie deixou George e casou-se com Clapton, que fez ainda muitas outras belas canções para ela, como “Wonderful Tonight” e “Pretty Blue Eyes”.

Apesar de todo o romance das composições, Pattie não tinha chegado ao “felizes para sempre”, já que o seu casamento com Clapton acabou em 1988, depois de diversas traições por parte do músico.
O facto de Eric Clapton se ter apaixonado pela então esposa de George Harrison, não afectou a amizade entre ambos. Continuaram a realizar diversos trabalhos em parceria, incluindo álbuns e turnés.

quarta-feira, 16 de março de 2016

Go Graal Blues Band

Hoje em dia fazer música na língua de Shakespeare é tarefa fácil, mas o mesmo não acontecia em 1975, quando Portugal enquanto democracia acabava de nascer, quando ainda vigoravam valores nacionais como os três grandes F’s (Fado, Fútebol, Fátima).

Foi neste cenário marcado pelo obscurantismo cultural e desconfiança do estranho que surgiram os “Go Graal Blues Band”. O grupo marcou pela musicalidade contagiante e uma alegria e optimismo próprios da cultura americana, que se definia cada vez mais como um estilo próprio de vida.
E foi assim que, após um nascimento atribulado, um grupo de rapazes na casa dos vinte decidiu reunir-se para tocar e cantar Blues, sendo eles: Paulo Gonzo (voz e harmónica), João Allain (guitarra solo), Raúl Barrigas dos Anjos (bateria), Augusto Mayer (harmónica), António Ferro (baixo), João Esteves (guitarra) e José Carlos Cordeiro (voz principal). 
Apesar do curto percurso de oito anos e várias mudanças no seu line-up, a banda teve um enorme sucesso na camada estudantil, sobretudo pelos inúmeros concertos que deram, mais do que pela venda dos seus três LPs. 

Os álbuns
A estreia discográfica deu-se sob a baixela da Imavox com um álbum homónimo, de onde se destacam os temas "Baby, I Wanna…", "The Fault Is Her Own" e "The Last One", onde o grupo adopta uma postura dedicada aos blues eléctricos.
O segundo registo discográfico, "White Traffic", é lançado em 1982, sendo notório o amadurecimento e sucesso da banda. Deste LP fazem parte temas como "N'Roll", "Lonely" e "Guetto Drunk"
Até ao lançamento do seu terceiro álbum, em 1987, o grupo editou o Mini-LP "Blackmail" (onde se podem escutar temas de blues/rock como "Champagne All Night", "Love Fashion" e "Midnight Killer" ) e ainda o Máxi-Single “Dirty Brown City” com temas como "Dirty Brown City", "Fast Flirt" e "Wild Beat Blues". 
No entanto, após o  último álbum do grupo, "So Down Train" sai Paulo Gonzo e inicia-se a decadência da banda, pois este é um trabalho que será marcado pelo fracasso e a consequente diminuição dos concertos.
Não se pode é deixar de realçar o papel desta banda no desbravar de caminho na cena musical portuguesa e o seu contributo para que o Blues em Portugal seja uma realidade ainda hoje e para o qual contamos com “The Legendary Tigerman”, “Nobody’s Bizness” ou uns “Born a Lion”, entre outros.

Discografia
Álbuns
    * Go Graal Blues Band (LP, Imavox, 1979)
    * White Traffic (LP, Vadeca, 1982)
    * Blackmail (Mini-LP, Vadeca, 1983)
    * Go Graal Blues Band 1979~1983 (LP, Colectânea, Vadeca,1983)
    * So Down Train (LP, Schiu!/Transmédia,1987)
Singles
    * They Send Me Away/Outside (Single, Imavox, 1980)
    * Touch Me Now/Lay Down (Single, RCS, 1981)
    * Lonely/N'Roll (Single, Vadeca, 1983)
    * Casablanca/Wild Beat Blues (Single, Vadeca, 1983)
    * Dirty Brown City (Máxi Single, Vadeca, 1984)
    * Smell/Walking (Single, Transmédia, 1987)

Janis Joplin - Summertime (1968)

Uma nova versão de um clássico pode tornar-se num clássico em si mesmo… Uma canção de embalar pode converter-se num mega-hit de rock and roll… E mesmo no pico do Inverno podemos sentir o calor de um campo de algodão do sul negro dos E.U.A…. Tudo isto, e muito mais, em Summertime, a ária-folk transformada pelo toque de génio de Janis Joplin.

Baseado no texto original de DuBose Heyward, Porgy and Bess é a ópera-folk que resultou do trabalho conjunto de George e Ira Gershwin - irmãos, compositor e letrista - em colaboração com Heyward, co-autor das letras. Nesta obra harmonizam-se  na perfeição os sons afro-americanos  do jazz, blues, gospel e soul com um estilo cénico mais musical. Levada à cena pela primeira vez em 1935, as estreias, em Boston e Nova Iorque, não obtiveram grande sucesso - nem perante a crítica, nem no que respeita a vendas de bilheteira.

A peça só conquistou o grande público a partir de 1959, após a adaptação cinematográfica que contou com um elenco de luxo, de onde se destacam os nomes de Sidney Poitier e Sammy Davis Jr.. A partir daí, o sucesso disparou e os temas de Porgy and Bess tornaram-se conhecidos de todos.

"Summertime", a canção de embalar cantada no acto I, e repetida mais algumas vezes ao longo da peça, acaba por ser a ária mais emblemática de toda a obra. Conhecem-se mais de 23.000 diferentes versões deste tema: desde instrumentais, como a obrigatória versão de Miles Davis, em que a letra cantada é substituída pela “voz” do trompete do mestre, às muitas tonalidades de vocalização, das quais sobressaem nomes tão grandes quanto os de  Billie Holiday (a primeira a chegar aos tops), Nina Simone, Sam Cooke, John Coltrane, Frank Sinatra e Janis Joplin.

 Na voz de Janis, Summertime parece ganhar asas e voar com vida própria, quase um improviso, todo ele alma, todo ele soul e blues, com uma guitarra que lembra uma peça clássica, quase um barroco, e uma outra a solar com distorção… Tudo isto com um “groove” próprio de uma grande banda de rock – como de facto o era a Big Brother and the Holding Company.

Editado em 1968 pela Columbia Records, Cheap Thrills é o último álbum de Janis com os Big Brother. A editora vetou tanto a capa como o título originais propostos pela banda, decerto em nome dos bons costumes que os americanos tanto prezam.

Em causa estavam um desenho de Robert Crumb, cartoonista, onde todos os elementos da banda apareciam nus numa cama, e o inspirado título “Sex, Dope and Cheap Thrills” (Sexo, Narcóticos e Emoções Baratas). A pedido de Joplin a capa acabou mesmo por sair da pena de Crumb, e foi considerada pelos leitores da Rolling Stone, como uma das dez melhores capas de disco de sempre.

"Summertime" foi um dos temas com que Janis encantou no festival de Woodstock. Foi também a última música do último espectáculo que os fãs puderam ver e ouvir ao vivo, em Agosto de 1970. Em Outubro desse mesmo ano, a rainha do rock/folk/blues psicadélico partiria na sua última viagem de heroína, da qual não iria regressar com vida…

terça-feira, 1 de março de 2016

Álbum “The Dark Side of the moon” (1973), editado há 43 anos

Pink Floyd é sinónimo de qualidade, de distinção, de megalomania, de inovação e de originalidade.

Numa palavra eu diria únicos. Será sempre um risco elaborar tabelas qualitativas pois serão eternamente subjectivas, mas se me perguntassem qual a melhor banda de todos os tempos eu responderia o seu nome.

A sua impressionante discografia e invejável carreira ditam isso mesmo. Os números não mentem. Este é simplesmente o 2º álbum mais vendido da história, apenas ultrapassado pelo recordista de vendas, Thriller do rei da pop. 

Mais impressionante (se isso é possível) é o facto de este ter permanecido nos «charts» qualquer coisa como 741 semanas. Desde 1973 a 1988! Resultado? Uns impressionantes 45 000 000 de discos vendidos!

Dos estúdios de Abbey Road, eternamente ligados ao quarteto fantástico de Liverpool, os Beatles, saiu este pico na história dos Pink Floyd de David Guilmor, Roger Waters, Rick Wright e Nick Mason. Posterior ao muito progressivo Meddle, que explorou caminhos ainda hoje algo confusos mas eternamente fascinantes, Roger Waters sentiu que algo devia mudar. As palavras tinham de chegar às pessoas de uma forma mais directa.

«Speak to Me» é uma espécie de introdução ao álbum passando, através de pormenores e efeitos sonoros, por certos pontos do álbum. O toque psicadélico e progressivo é facilmente perceptível logo à primeira audição. O efeito transe é resultado da mestria demonstrada pelo falecido Rick Wright nas teclas e no uso divinal que os Pink Floyd deram aos sintetizadores. Provando que a música não tem barreiras, e que a sua mensagem vai para além do empreendedorismo hippie, atravessando momentos de autêntica Filosofia, este tema, com duas frases apenas anuncia uma epopeia de outro Universo.

«I've been mad for fucking years, absolutely years. I've been over the edge of yonks. Been working me buns off, 'till i went crazy...
I've always been mad, I know I've been mad, like the most of us are. It's very hard to explain why you're mad, even if you're not mad.»

Dá-se o primeiro suspiro e entra-se na nova dimensão. Na dimensão do abstracto mundo dos Pink Floyd. 


O uso da slide guitar envolve-nos de forma a cair num mundo de dormência total... o cérebro é bombardeado por sons e efeitos que estes criam na sua audição. O background psicadélico deu lugar a um sentimento algo budista. Chegamos ao Nirvana! Muito rapidamente esse sentimento muda ao som do compasso apressado de «On the Run». Esquizofrénico no mínimo, é como se pode descrever este tema ,que poderia ser incluído num filme de Stanley Kubrick.

Mais uma vez os efeitos sonoros criam uma envolvência total dentro do álbum. The Dark Side of the Moon é uma novela abstracta que não se escuta mas que se vive, que se sente. Os compassos e os tempos não são habituais, mas nada nestes senhores é simplesmente «habitual» ou comum. Ao longe ouvem-se os ponteiros do relógio...

«Time» apresenta um grande momento de criatividade de David Guilmor na sua famosa Fender. Sem medo atira-se para um dos melhores solos do álbum. A sequência introdutória é simplesmente um golpe de génio. O alarme fora activado: abram os olhos para a vida!

«And then one day you find ten years have got behind you
No one told you when to run, you missed the starting gun»

A mensagem nunca fora tão directa em toda a sua carreira. As palavras de Roger Waters caem na perfeição no mundo apoteótico de sintetizadores e de efeitos nunca antes assimilados pelo público geral.


«The Great Gig in the Sky» é um privilégio à audição. Simplesmente maravilhoso do princípio ao fim. Um dos mais conseguidos da banda em toda a sua incrível carreira.

Ao som de moedas a cair, de slot-machines tipicamente relacionadas com os casinos e uma referência à sociedade de consumo, «Money» é o abrir de muitas portas no caminho ao mega-sucesso dentro do rock mainstream. A sequência da guitarra ritmo é viciante, o delay e o efeito ressonância é incrível, dando um tom muito mais jazzy e rítmico. O compasso é algo invulgar, uma sequência de 7/4. Numa onda mais Blues e menos psicadélica, este tema é incontornável na escadaria do sucesso dos Pink Floyd.

«Us and Them». O momento mais introspectivo do álbum. É suave e melancólico e prime pela harmonia de sons e de ecos vocais de David Guilmor. «...we're all ordinary man» resume-se nas suas palavras. É o momento mais prolongado do álbum, mantendo uma estrutura estável com picos pelo meio de onde se destacam os back vocals que criam grande parte do ambiente para o qual os Pink Floyd nos tentam enviar.

«Any Colour You Want» é uma das metáforas apresentadas, desta vez sem o contributo de Roger Waters, habitualmente digno dos créditos da banda. Uma contribuição que quase se poderia dizer que seria Guitarra vs Sintetizador, mas a conjugação é perfeita. Repare-se num fade-out a relembrar «Breath»...

«Brain Damage» volta a brincar com os ecos de fundo, num registo mais profundo ao qual parece haver algumas referências ao falecido companheiro Syd Barret, o possível "Lunatic". Este tema que dá nome ao álbum ( " see you on the dark side of the moon") é das primeiras provas da capacidade vocal de Rogers Waters, que mais tarde iria levar a cabo o histórico concerto em Berlim em 90 num pós-queda do muro.

«Eclipse» dá seguimento à composição chegando à recta final. Ao fim da audição de Dark Side of the Moon sente-se que se emoldurassem estes temas, teríamos um Museu Guggenheim na cabeça. The Dark Side of the Moon é um pedaço de arte, de história e de simples magia.

1- Speak to Me
2- Breath
3- On the Run
4- Time
5- The Great Gig in the Sky
6- Money
7- Us and Them
8- Any Colour You Want
9- Brain Damage
10-Eclipse


As origens e o contexto da obra-prima 
O álbum começou numa reunião onde o grupo discutia que precisava de novo material para apresentar ao vivo. Waters teve a ideia de escrever um álbum conceptual que lidasse com o que “fizesse as pessoas se sentirem revoltadas”. Ora em 1972 estamos num ano em que na Inglaterra, a confiança dos jovens se estatelava no chão, com o quebrar dos sonhos de construir um novo mundo, provenientes da cultura hippie, que ia desaparecendo.
No entanto, a cultura dos “ácidos” permanecia viva, a guerra do Vietname continuava sem fim à vista, assim como a Guerra Fria, inflação, desemprego, violência racial, ou seja, um contexto conturbado que influenciou as ideias transparentes neste álbum. 
Para o sucesso desta “masterpiece” contribuiu a produção levada a cabo por Alan Parsons e as linhas melódicas simples, suportadas pelos blues característicos do grupo. Não esquecer o excelente trabalho de design com a capa, concebida pelos Hipgnosis (grupo britânico de design artístico que se especializou em desenhar e criar capas de álbuns para as bandas de rock da altura) percebe-se assim, o porquê de este trabalho ter atraído tantas pessoas. 
Há quem diga que também está ligado a Dark Side Of The Moon um poderoso símbolo, que marca a própria época que se vivia. A sua influência musical no rock é enorme, sendo dos álbuns mais citados como influência por parte de jovens músicos, sendo também visto como presença obrigatória nas prateleiras de audiófilos.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Os R.E.M. nos anos 80

Quase todos conhecemos a carreira dos REM desde Out of Time. Singles como Losing My Religion, Shiny Happy People, Near Wild Heaven ou Radio Song tornaram-se tão populares que praticamente só nos lembramos da banda de Michael Stipe a partir do início dos Anos 90. O sucesso dos álbuns seguintes, em especial Automatic for the People, reforçaria a ideia que os REM eram de facto uma banda dos Anos 90.

Nada mais errado! Quando se tornaram estrelas à escala mundial levavam já na bagagem onze anos de carreira e seis álbuns editados. Os poucos que conheciam o percurso eighties destes veteranos podem ter sentido que a banda se vendera aos milhões da Warner, por outro lado, os novos fãs pouco conheciam do passado da banda.

É certo que algo mudou desde que deixaram a independente IRS, mas os REM souberam adaptar-se e criar uma sonoridade mais eclética de forma a chegar a uma audiência mais vasta, sem nunca abdicarem no essencial da sonoridade que os caracterizou desde o início.

Apesar do sucesso decrescente nos últimos anos, o reconhecimento do valor e importância da banda nunca foram postos em causa, sendo ainda hoje considerada uma das mais importantes da história do rock e fazendo parte do" Rock and Roll Hall of Fame ", prova de que o culto ainda está vivo. A revista Rolling Stone atribuíra-lhes já o título de " Melhor Banda Rock da América ". Vamos então recuar até ao início dos Anos 80 e ver por onde andavam...

Os REM formaram-se em 1980 na cidade de Athens, Geórgia, berço de outra popular banda americana, os The B-52`s. O quarteto era então composto por Bill Berry (bateria), Peter Buck (guitarra eléctrica), Mike Milss (guitarra-baixo) e Michael Stipe (voz).

O percurso inicial dos REM foi semelhante ao de muitas bandas de garagem: tocavam em pequenos clubes e liceus, sendo especialmente apreciados por estudantes. Editam o primeiro single Radio Free Europe um ano depois, que depressa se tornou num smash hit do circuito alternativo. Ao contrário de muitas bandas indie , os REM queriam ir mais longe sem perderem esse espírito.

Deste modo a sua sonoridade procurava conciliar o moderno com as raízes da música tradicional americana, demarcando-se da violência do punk e do rock mais pesado, mais associados a um espírito contra-corrente. Os REM de certa forma também queriam sê-lo, embora adoptando uma linguagem mais pop.
Depois de Radio Free Europe, veio o EP Chronic Town.

O primeiro álbum Murmur, já na independente IRS, é então editado em 1983 e incluía no alinhamento o single de estreia, bem como Perfect Circle eTalk About the Passion. Aclamado pela crítica, estava dado o mote para uma carreira discreta mas feita de passos seguros até 1987, ano de lançamento de Document.

Pelo meio foram editados três álbuns, Reckoning (84), Fables of the Reconstruction (85) e Lifes Reach Pageant (86), sem beliscar os créditos colhidos no primeiro álbum. Temas como (Don`t Go Back to) Rockville, 7 Chinese Brothers, Pretty Pressuasion, Can`t Get There from Here ou Fall on Me eram de passagem obrigatória nas rádios de escola.

Os REM podiam não ser conhecidos do grande público mas tinham muitos fãs no meio estudantil que garantiam audiência nos seus espectáculos, geralmente realizados em pequenas salas.

Apesar da crítica favorável as vendas não deslumbravam e para uma sociedade conservadora como a norte-americana, o envolvimento de Michael Stipe em questões políticas e ambientais contrárias à administração republicana, um pouco à semelhança de Morrissey contra as instituições inglesas, dificultava a chegada ao palco maior. Rotulados de banda contra-corrente parecia que as luzes da ribalta estavam longe para os REM e o lançamento de Document em 1987 estava destinado a ser uma espécie de evolução na continuidade, puro engano.

Deste álbum sairiam dois singles (The One I Love e It`s the End of the World...) que dariam à banda o impulso que tinha faltado nos álbuns anteriores. Já não eram apenas alternativos ou independentes como começavam a chegar já a um público mais vasto não só nos Estados Unidos como também na Europa.

A popularidade crescente não passou despercebida à Warner e, um ano depois, assinam um contrato milionário com a multinacional. Estava dado o salto que permitiria à banda dispor dos recursos até então fora do seu alcance. Para muitos era o fim do espírito independente mas, ao mesmo tempo, um novo desafio e novas oportunidades.

Ainda nesse ano é lançado Green, sexto álbum de originais que revela uns REM mais ecléticos. Apesar do sucesso dos singles Pop Song 89, Stand e Orange Crush, a crítica classifica o álbum de incoerente. Para tal muito terá contribuído Stand, orelhudo e delicioso para uns, descartável para outros.

A extrema regularidade com que editavam álbuns (de 83 a 88, um por ano) foi quebrada depois de Green. Pela primeira vez os REM estavam sem gravar mais de um ano e a espera durou até 1991, ano do lançamento de Out of Time. Mas a espera revelar-se-ia proveitosa...

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

José Cid, uma lenda viva, fez hoje 74 anos.

Há mais de  quarenta anos a encantar as massas, José Cid é um dos mais acarinhados artistas da música ligeira portuguesa. Ao longo da sua carreira participou em diversas bandas, mas foi como vocalista e teclista do Quarteto 1111, que encontrou a popularidade que o perseguiu no seu trajecto a solo, até aos dias de hoje. 

Corria o ano de 1967 quando o Quarteto 1111 imortalizou D. Sebastião, num tema inovador e arrojado para a época, “A lenda de El-Rei D. Sebastião”. Tal foi o sucesso, que no ano seguinte concorreram ao Festival da Canção com a música “Balada para D. Inês”. Os dados estavam lançados e a edição de um álbum seria o passo seguinte. Porém, em pleno regime ditatorial o disco homónimo foi silenciado pela censura política, uma vez que abordava questões sociais como a emigração e o colonialismo.
Em 1971, José Cid editou o seu primeiro álbum a solo, ao mesmo tempo que se mantinha na estrada com o Quarteto que o conduziu ao estrelato. Mas a criatividade musical era muita, e além dos diversos EP’s que foi lançando, atirou-se a um novo projecto e surgiram os Green Windows, uma banda paralela ao Quarteto 1111, com a mesma formação, mas que apostava em temas mais comerciais.

Com esta banda surgiram os concursos nacionais e internacionais. Eram presença assídua no Festival da Canção, chegando a serem galardoados em 1975 no Festival de Tóquio, com o tema “Ontem, Hoje e Amanhã”. 

Nesse mesmo ano despediu-se no Quarteto 1111, e em 1978 editou um dos melhores discos de rock progressivo de sempre “10.000 Anos Depois entre Vénus e Marte”, obtendo grande reconhecimento a nível internacional, e chegando a estar no top 100 dos melhores álbuns de rock progressivo da revista “Billboard”.
A década de 80 ficou marcada com a obtenção do primeiro lugar no Festival da Canção com o tema “Um Grande Grande Amor”, seguindo-se a gravação de temas que marcaram a música nacional, como “Portuguesa Bonita” ou “Como o Macaco Gosta de Bananas”. Mesmo ao virar da década foi a estrela do programa musical da RTP “Natal com José Cid”.

Nos dez anos seguintes José Cid editou vários álbuns, mas a sua imagem viria a ficar associada a uma foto que surgiu na imprensa, de protesto contra as rádios nacionais. A sua irreverência fê-lo pousar nú para uma revista social, como forma de protesto em relação ao facto das rádios nacionais privilegiarem os intérpretes estrangeiros, em detrimento dos portugueses.

Em 2000 editou um livro de poesia, intitulado “Tantos Anos de Poesia”, e após o lançamento de mais alguns álbuns, em 2006 actuou na mítica e renovada sala de Lisboa, “Cabaret Maxime” em duas noites completamente esgotadas. Foi a rampa de lançamento para actuações ao vivo, participações em programas televisivos e a conquista de uma camada mais jovem de fãs.

No final de 2009 editou um novo registo de originais, “Coisas do Amor e do Mar”, que contou com a colaboração de músicos, entre os quais Luís Represas e André Sardet. Ao cair do pano, foi ainda galardoado com o prémio de consagração de carreira pela Sociedade Portuguesa de Autores, tendo sido o primeiro músico português a ser distinguido com este prémio.

Lenda viva, génio criativo, ou artista excêntrico e irreverente. O que é certo, é que José Cid anda há mais de 40 anos a dar cartas no panorama da música nacional. Não deixa ninguém indiferente por onde passa, e seguramente, ainda tem muito para dar e mostrar.

Para recordar fica o vídeo da música vencedora do Festival da Canção de 1980, “Um Grande Grande Amor”:

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Morreu Maurice White, dos Earth, Wind & Fire

O compositor principal da banda faleceu aos 74 anos.

Maurice White, fundador e compositor principal dos Earth, Wind & Fire, morreu hoje aos 74 anos.
O cantor, diagnosticado com Parkinson desde 1992, deixara as digressões devido à agressividade da doença. De acordo com a TMZ, a condição de Maurice White piorou nos últimos meses.
Foi White o responsável pela formação do grupo. Em 1969, pegou em Wade Flemons e Don Whitehead para criar um grupo de compositores chamado Salty Peppers. Foi recrutando músicos, incluindo o irmão, Verdine, e gradualmente foi-se apercebendo que tinha uma banda inteira na mãos. Eis a criação dos Earth, Wind & Fire. Com o álbum homónimo seguido de “The Need Of Love”, o grupo de soul e R&B atingiu sucesso imediato.
Durante o resto dos anos 70, a formação da banda foi alterando, sendo Maurice, o irmão e Wade Flemons, os únicos membros constantes desde a formação original. Foi também nessa década que ganharam o seu primeiro Grammy, na categoria de Best R&B Performance com a música “That’s The Way Of The World”. Entre 1970 e 1980, venderam mais de 90 milhões de álbuns por esse mundo.
No início dos anos 80, ajudaram a construir a cena disco, com singles como  “September”, “In the Stone”, “After the Love Has Gone”, “Boogie Wonderland”, “Let’s Groove”, e “Wanna Be with You”.
A banda entrou em hiato em 1983, mas White manteve-se activo como produtor para artistas como Barbra Streisand, Neil Diamond, e Cher. Em 85, lançou o seu primeiro álbum a solo.
Já os anos 90 mostraram-se fatais para os membros da banda. O saxofonista, Phoenix Horns, foi baleado em Los Angeles, em 1993. Wade Flemons morreu, vítima de cancro, no ano seguinte. Foi nesse mesmo ano que Maurice White decdiu reformar-se devido à sua luta constante com a doença de Parkinson.
Os Earth, Wind & Fire, arrecadaram 20 nomeações para os Grammys, seis das quais venceram, e venderam cerca de 100 milhões de álbuns em todo o mundo
Em 2000, foram condecorados no Rock and Roll Hall of Fame.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Parabéns Michael Hutchense...

Michael Hutchense, que foi vocalista durante 20 anos dos INXS faria hoje 56 anos. Uma data que não poderia deixar de assinalar, já que Hutchense marcou a história da música com o seu carisma e talento. 
Não foi fácil , contudo a chegada ao estrelato no grupo INXS (que se aventurou inicialmente como The Farriss Brothers). 

A música foi ganhando admiradores progressivamente (na fase inicial , sobretudo na Austrália). Com o album Shabooh Shoobaah o grupo deu-se finalmente a conhecer ao mundo,sobretudo com o tema “Don´t change” , que demonstrava uma banda mais amadurecida e confiante (basta comparar o vídeo de “Don´t change” com “Just Keep Walking”). 

Estavam lançadas as bases para o grupo voar mais alto. Com o album The Swing , o estatuto do grupo elevou-se com “Original Sin” . Já com Listen Like Thieves foi “What you need” que endoideceu os adolescentes da época. Estavamos em 85. 

Mas 87 é que foi o ano de ouro para Hutchense com Kick a vender sem parar e o público a delirar. 

Agora, será que o sucesso lhes fez mal à cabeça? Porque se formos a olhar apenas para os números, parece mesmo que sim... Acho que não foi bem assim. Julgo que o público tornou-se bastante mais exigente . Tudo bem que X desilude um pouco se comparado com o álbum anterior, mas também não representa o fim da banda e do seu talento. 

“Welcome to Wherever you are “ ainda tinha força para brilhar com a ironia de “Baby don´t Cry” , o romantismo de “Not enought time” , a lição de moral com “Beautiful girl” e a sedução em “Strange desire” (e logo nós que já estavamos tão habituados com sucessos como “New Sensation” ou “Devil Inside”... ). 

Full Moon Dirty Years, um album que demonstrava um grande esforço levado a cabo pelo grupo para se integrar no manifesto do Grunge que ia ganhando cada vez mais vida em Seattle (Pear Jeam e Nirvana dava uma ajudinha). Ainda assim , foi ignorado pela crítica , apesar de ter singles suceptiveis de causar impacto como Make your peace, The Gift, I´m Only Looking ou Time. 

O fracasso do Greatest Hits lançado em 94 acabou or funcionar como mote para uma longa paragem. Em 97 a banda regressaria com uma imagem mais carregada , que acabou por prejudicar. Elegantly wasted não desanimou .o público. Mas desta vez o problema era de Michael Hutchense. A depressão que se alastrava devido a problemas pessoais culminou no suicidio, chocando o mundo. 

O que resta agora? Um nome , um legado de 20 anos (contando apenas com o vocalista Michael Hutchense) e os fãs que continuam a ouvir as suas músicas e a prestar as mais diversas homenagens.

domingo, 10 de janeiro de 2016

O MUNDO CHORA PELO CANTOR DAVID BOWIE

David Bowie morreu aos 69 anos. “Blackstar” foi o fabuloso último álbum, após uma luta contra um cancro.
David Bowie sempre teve a característica de surpreender os seus seguidores. Em 2013, 10 anos depois de não lançar nenhum disco, e 7 anos após ter terminado os seus concertos, Bowie lançou The Next Day. Um álbum que tinha sido gravado em total secretismo e que veio preencher um vazio que tinha ficado desde a sua ausência.
Na semana passada, no dia do seu aniversário, Blackstar mostra que David Bowie tinha como surpreender. Irreverente, Blackstar deixava pouco por dizer, mostrando que continuava a ter um papel na música, uma palavra a dizer e que essa palavra continuava mais jovem que nunca. Dois dias após o seu lançamento o mundo é surpreendido com a sua morte.
Nascido em 1947 como David Robert Jones, ficou mais conhecido como o Camaleão da música pop. Com 25 álbuns memoráveis, ele era uma estrela que usou o rock como meio para voos bastante audazes. Variou entre a ficção científica e música eletrónica, atuação e moda e discussões sobre sexualidade e droga.
As suas músicas eram sempre espelho das suas transformações, dos tempos que vivia e Blackstar não foi excepção, com diferentes referências ao seu capítulo final, mas que parecia agora mais distante. Na primeira década do ano 2000, com o seu afastamento, muitas foram as vezes que deram o cantor como morto. O seu ressurgimento em 2013 parecia ser uma reinvenção, a mostrar que tinha ainda muito para oferecer-nos.
É agora difícil imaginar um mundo sem Bowie. Ele teve a capacidade de transformar toda a estranheza que nós sentimos, maior ou menor, em arte. E desta forma marcou a história da música, fez o que poucos conseguiriam fazer, sempre de forma inovadora e irreverente. Mas a hora chegou, e vivemos agora um mundo sem David Bowie, na certeza de que será um mundo menos divertido e colorido. Ficam a carreira, as músicas, os espetáculos e sempre a a esperança. E sigamos o que ele nos ensinou: "Ch-ch-ch-ch-Changes, Turn and face the stranger; Ch-ch-Changes, Just gonna have to be a different man, Time may change me, But I can't trace time".