domingo, 26 de agosto de 2018

"Hey Jude" faz hoje 50 anos...

É uma das mais conhecidas canções dos Beatles e uma das melhores composições de Paul McCartney. Esta é a sua história e como Lennon admitiu ser a melhor canção de Paul.
"Nahnahnahnahnahnahnahnahnah, hey Jude". Faz este domingo 50 anos que os Beatles lançaram Hey Jude, uma das suas canções mais reconhecíveis e um dos primeiros hinos de estádio da história.
Saída da cabeça de Paul McCartney – nesta altura já eram raras as composições que juntavam os esforços de John Lennon e Paul McCartney desde o início -, a canção serve inúmeros propósitos, desde canções no final de festas académicas, canções escolhidas em karaokes, viagens de carro e para acabar noites em discotecas onde o saudosismo é rei. Ah! E para ouvir apenas e simplesmente porque sim.
Mas olhemos para o carácter inovador de Hey Jude. Milhões de pessoas desde o século XIX conseguem trautear a melodia do quarto movimento da nona sinfonia de Beethoven (comummente apelidado de Hino da Alegria). Mas não serão assim tantos aqueles que sabem as palavras do poema cantado pelo coro de cor. E mesmo temas mais recentes como "We Are The Champions" ou "We Will Rock You" (ambos dos Queen) são mundialmente conhecidos e entoados em eventos que juntam milhares. Mas também não serão todos os que sabem de cor a letra destas canções. Os Beatles aliaram a simples melodia do Hey Jude com um factor diferenciador: os "nananananas". Esta sílaba facilmente pode ser repetida por pessoas do mundo inteiro, o que torna mais fácil entoar o tema dos Fab Four. Mas daí advém uma ironia. Embora seja provavelmente a mais fácil canção dos Beatles de entoar por milhares de fãs em uníssono, nunca foi tocada ao vivo. Composta em 1968, a canção foi editada nesse mesmo ano, já depois dos Beatles se terem retirado dos concertos ao vivo, alegadamente, por não se conseguirem ouvir a eles mesmos devido aos gritos dos fãs.

Composição a três
A canção "surgiu" a McCartney  como aconteceu com tantas outras dezenas. Uma melodia simples, com um tom luminoso. Acordes ao piano e a voz do músico para começar um tema que era dedicado ao filho de John Lennon, Julian Lennon. O pai tinha deixado Cynthia para se juntar a Yoko Ono e McCartney brincava muito com a criança.
Como lembra o jornal The Guardian, o facto de ir a conduzir obrigou McCartney a manter o tema simples, sem complicar demasiado a melodia, que acabaria por ficar, apesar do nome original da canção ter sofrido alterações: de Hey Jules para Hey Jude.
Embora já não compusessem juntos, Lennon e McCartney depositavam ainda um no outro a confiança para mostrar os temas. Se Lennon compunha algo, mostrava a Paul e vice-versa. E curiosidade, quando Hey Jude foi tocada pela primeira vez a Lennon, este terá afirmado de imediato: "É sobre mim!", ao que McCartney terá respondido: "Não, é sobre mim!". Afinal a canção já não era apenas para Julien.
Foi já depois de a canção ter passado pelo crivo de Lennon que foi mostrada aos restantes Beatles e, em vez de uma simples melodia ao piano passara a ser uma longa canção (com mais de sete minutos, um dos temas mais longos da carreira dos Beatles) com um crescendo instrumental e vocal, bateria e instrumentos musicais.
O produtor George Martin – o quinto Beatle por excelência – mostrou preocupações pela duração da canção, argumentando que os radialistas não a iriam passar até ao fim. "Passam se formos nós", respondeu Lennon. E estava certo, como provou a história.
Mas Martin não se iria calar e acabou mesmo por introduzir as suas ideias no tema: contratou uma orquestra e transformou uma canção "simples" num tema onde participaram mais de 40 pessoas (quatro Beatles e 36 membros de orquestra).
Será Hey Jude a melhor canção dos Beatles? É impossível afirmá-lo, numa banda que tem temas tão icónicos como Yesterday, In My Life, Tomorrow Never Knows ou Let it Be.
No Spotify, a canção mais ouvida da banda no dia 26 de Agosto de 2018 era Here Comes the Sun (tema de Harrison). O mesmo acontece no Apple Music. Mas a canção Hey Jude (duas vezes maior do que o tema de Harrison) aparece em quarto e quinto lugar, respectivamente, mostrando que é apreciada muito mais que QB. Já no YouTube, Here Comes the Sun soma mais de 14 milhões de visualizações no vídeo mais visto da gravação feita pela banda – a versão de Nina Simone tem 17 milhões -, enquanto Hey Jude tem mais de 119 milhões de visualizações.
Mas tomando como certa a opinião de um dos melhores compositores populares do século XX – John Lennon -, Hey Jude é a melhor canção de Paul McCartney. E isso não é dizer pouco.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

AC/DC publicam "Back in Black" no dia 25 de julho de 1980.

AC/DC passados mais de 30 anos continuam na linha da frente, esgotam estádios e atingem os tops mundiais. Quantos exemplos de bandas temos como esta que para além de sobreviver á trágica morte do seu vocalista consegue ainda atingir novos patamares?Esse patamar chama-se Back in Black. Depois de Let There Be Rock, Powerage e Highway to Hell nada fazia prever o auge de vendas que este iria obter. Hoje é um dos álbuns mais vendidos de sempre a par de Dark Side of The Moon de Pink Floyd e do famoso Thriller do falecido Rei da Pop- Michael Jackson.Vamos esquecer os números. Back in Black é o ponto de viragem na carreira dos AC/DC. A trágica morte de Bon Scott deu lugar a Brian Johnson e as semelhanças vocais foram bem aceites. A irmandade Young mais uma vez fez o resto.A capa marca o luto, «Hells Bells» toma uma dimensão épica nunca dantes visível na banda. Assim se abrem as hostes dum álbum bem mais maduro que o anterior.Ao som de sinos se abre este incrível tema, ainda hoje celebrado ao vivo com o famoso sino da banda.

«Shoot to Thrill» tira as dúvidas do primeiro tema, não eles não ficaram frouxos dum dia para o outro, o Rock’n’Roll que os distingue e que nos dá vontade de fazer air-guitar ainda continua de pé! Sem piedade no “…Pull the Trigger..” Angus Young dá uso á sua Gibson criando uma mistura de Riffs que não deixa criar saudades dos tempos de T.N.T.! Parabéns, estamos ainda no segundo tema e temos mais dois clássicos!O solo final é simplesmente majestoso!

O que fazem por dinheiro estes rapazes? Por incrível que pareça fazem música de qualidade! É com a rima «What do You Do For Money, Honey?» que se faz o refrão deste mesmo tema.«Givin’ The Dog a Bone» dá continuidade. Isto é AC/DC! Rock’n’Roll no seu estado mais puro.

O tema seguinte pede-nos algo desnecessário «Let Me Put My Love Into You» é algo que estes Australianos em 1980 já não precisavam! Um dos compassos mais conhecidos do mundo, par do Riff e da coreografia de Angus (Duck Walk), é sem dúvida o do tema que dá nome ao álbum. Como poderei descrevê-lo? – Como um dos temas mais marcantes da história do Rock! Sem sombra de dúvidas um dos melhores solos da carreira de Angus! Este que por sua vez é por vezes referenciado injustamente como o sr. dos três acordes, esquecendo o guitar hero dentro da farda colegial.

É impressionante como neste álbum os 7 minutos e 45 segundos da 6ª e 7ª música marcam toda uma geração! De «Back in Black» passamos para o grande êxito radiofónico dos anos 80- «You Shook Me All Night Long». Não há nada melhor do que fazer aquelas viagens pelas nacionais deste país, no meio do nada numa manhã de Verão, janela aberta, e AC/DC bem alto!Este é o tema que conquistou muitos corações á banda. Arrisco-me a dizer que era isto que faltava para completar o seu sucesso mediático.Dos metaleiros ás adolescentes com posters de Bon Jovi e Van Halen, AC/DC era uma referência. Hoje é um icon.

«Have a Drink on Me» não destoaria em nenhum bar de motards que se preze. «Shake A Leg» obriga o ouvinte a bater o pé. Sabem que mais? Aqui podemos encontrar diamante em bruto, o facto de temas como este ficarem para trás em concertos das banda só demonstra a fabulosa discografia da banda, é de facto um desperdício!Back in Black provou ser uma fábula, uma daquelas que nos transporta para um mundo de maravilhas. Mas fábula que se preze têm um final feliz seguido duma mensagem pedagógica- «Rock and Roll Ain’t Noise Pollution»- alguém quer melhor do que isto?
Fazendo trocadilho passo a explicar o sucesso de Back in Black :

AC/DC Ain’t Noise Pollution!!

terça-feira, 24 de julho de 2018

Pantera lançam "Cowboys From Hell" a 24 de julho de 1990.

Em 1990 o mundo do Rock estava mais do que abalado. Várias correntes musicais alternativas vinham ao de cima com especial para o movimento de Seattle – o grunge.
Será impossível fazer referência a este género sem passar pela formação de Kurt Cobain, Dave Grohl e Kris Novelic. Alguns anos mais tarde, um grupo de privilegiados podia-se gabar de ter assistido a um momento único no antigo Dramático de Cascais, o único concerto de Nirvana no nosso país. Outro grupo, possivelmente alguns coincidentes, pôde se gabar de ter assistido a outro marco da história do Rock. Nirvana estava para o movimento de rock alternativo como os Pantera estavam para o Metal - foram pioneiros e símbolos de culto, ainda hoje nos dias que correm.

No início da ultima década do Século XX, Phill Anselmo dava ao mundo uma das melhores vozes do heavy metal a par da oferta de riffs incríveis de Dimebag Darrel.
Cowboys From Hell , assim ficarão conhecidos na eternidade, e assim começava a sua caminhada, curta demais.
São casos raros os de bandas que conseguem um álbum de estreia completo ao nível da sua estrutura. Lembro-me de casos como Ten dos Pearl Jam e Appetite for Destrution dos Guns’n’Roses que ainda hoje fazem jus ao seu estatuto.
A minha introdução deixa uma ideia simples no ar, se Nirvana não tivesse existido, Pantera certamente não deixaria espaço em vazio para os adolescentes da altura, sedentos de Rock puro e sentido.
Vulgar Display of Power poderá ser o Nevermind dos Pantera, mas sem Cowboys From Hell nada disto seria possível.

Dimebag arrasa tudo e todos com um incrível riff em «Cowboys From Hell», energético e cheio de garra- “ here we go” avisavam.
Quem passa de Black Sabbath para Lamb of God certamente não encontrará uma ligação directa, pois bem, se temos de apontar o dedo estes serão certamente os culpados da maioria do metal que se faz hoje em dia.
Este tema faz-me recordar, a cada audição que faço, o momento único de Monsters of Rock em Moscovo onde se verifica a garra do conjunto em palco.

«Primal Concrete Sledge» dá um cheirinho de Hardcore á cena, o segredo está nos breaks de bateria, louvado seja o pedal duplo! “Oh Yeah!”- exclama repetidamente Anselmo. O público adere, hoje aos Down, mas Pantera na altura foram mais do que uma lufada de ar fresco! “ It’s time to set my demons free”, esta é uma das frase que descreve todo o sentimento de se ouvir estes temas com o volume alto a par do bass violento - «Phsyco Holiday» dá uma certa progressividade ao trash-metal directo e sem espinhas que os temas anteriores apresentavam. Dimebag não se demonstra nada humilde neste incrível solo, e nós? Nós agradecemos!A estrutura de guitarra de «Heresy» é a planta do hardcore e de algum metal que se pratica hoje, o riff é fantástico na sua simplicidade, Anselmo prova que rapazes como Corey Taylor ainda têm muito a provar ao mundo no que toca a puxar pelos cordõezitos vocais.
Todos sabemos que não é qualquer banda que se atreve a escrever power-balads, muito menos no álbum de estreia, muito menos com a carga emotiva de «Cemetary Gates»…
Certamente a crítica apontará para este tema com um momento incontornável no curriculum da banda, um tema para se cantar até as lágrimas escorrerem e as veias envolventes á traqueia rebentarem. Um dos temas mais «pesados» da banda em termos de letra, facilmente mal interpretado, mas sejamos realistas, neste mundo o que não falta é preconceito, relembro «A Tout le Monde» de Megadeth e «Fade To Black» de Metallica, temas lindíssimos associados a mensagens explicitas e incentivadoras ao suicido (“…pass the cemetary gates…”).Preparados para serem dominados? Até este sexto tema não consigo excluir um único duma compilação ao estilo antologia / Best-of. «Domination» não fica para trás na corrida, é impossível não deixar de fazer referencia a Dimebag a cada compasso! O mundo perdeu um guitarrista ícone, um verdadeiro Metal God (penso que os Judas Priest não se importarão que use a musica deles como caracterização). Do visual pesado, e sem as parolices que outras bandas se sujeitaram, ás guitarras com formatos únicos, e eternamente associados à banda que fazia sonhar a juventude mais alienada.
A primeira metade do álbum será para sempre o maior destaque de Cowboys From Hell, mas temas como «Shattered» não ficam atrás de «Heresy» mas com uma introdução de pedal duplo on-fire para ensurdecer qualquer fan do mundo mais pesado do Rock. Neste tema eu arriscaria em dizer que British Steel ou outros álbuns de Judas Priest andaram a rodar na aparelhagem da banda! As referencias vocais de Rob Halford são evidentes.

Machine Head nunca esconderam ao mundo a sua paixão pelos Pantera, seja feita justiça ao incrível tema de The Blackening «Aesthetics of Hate» dedicado ao falecido Dimebag. «Clash With Reality» poderia muito bem ser um tema dos candidatos ao estatuto de «novos Metallica» ( a par de projectos como Trivium e Mastodon onde muitos põem as esperanças).

«Medicine Man» demonstra um ar menos agressivo mas mais obscuro. É daqueles temas que funciona muito bem em álbum, mas que dificilmente não baixaria de nível ao vivo. O momento mais estável de um álbum cheio de pontos altos deixa o ouvinte repor o fôlego.
«Message in Blood» faz-me lembrar dos autores de Blood Mountain ao nível da guitarra na introdução, no entanto a estrutura musical tem semelhanças com o que hoje se faz no rock mais industrial como é o caso de Nine Inch Nails. Uma palavra descreve este solo- dramático!

Penso que a vontade de entrar num mosh-pit e fazer crowd surf é crescente, mas está na hora de «The Sleep», certamente um esboço da obra-prima que é «Cemetary Gates», este tema está feito para algum air-guitar. A harmonia da guitarra ritmo desta vez é tão ou mais importante na estrutura do tema, encaixam na perfeição. Premindo pelo instrumental acima do vocal, trata-se mais duma despedida da banda aos milhares de fans que rodam ainda hoje este Cowboys From Hell, possivelmente mais em mp3’s do que em CD’s.

Se «The Sleep» concluía o álbum, «The Art of Shredding» é o adeus em formato de encore arrebatador, deixando tudo e todos com vontade de mais! Mais Pantera! Considerados pela crítica como a melhor banda ao vivo, dentro do género obviamente, começam o seu trabalho logo no estúdio criando um seguimento na sua playlist ao que facilmente poderíamos apontar como setlist. 12 temas o compõe, e de forma pessoal aponto pelo menos 7 como temas obrigatórios!Todos temos uma década ao nível cultural em que nos identificamos, a minha será sem dúvida a de 90, e este pedaço de «barulho» é algo do que se fez de melhor nessa altura!É incrível como apenas 4 anos depois de Master of Puppets o Metal tenha mudado desta forma!

quarta-feira, 16 de maio de 2018

"Pet Sounds" dos Beach Boys, lançado a 16 de maio de 1966

Para todos aqueles que pensam que Beach Boys é apenas e só Barbara-Ann, Surfin’ USA e outras músicas a puxar para o teen dos early 60’s aqui fica a prova de que esta banda norte-americana, liderada por Brian Wilson, também teve os seus momentos geniais, e que momentos! Pet Sounds é a melhor resposta do outro lado do Atlântico ao fenómeno Beatles que arrasava os anos 60 de uma maneira inequívoca. Na altura o quarteto de Liverpool tinha lançado "Revolver", mais outro marco na história musical, sendo a partir daí que se dá uma mítica competição entre Brian Wilson e Paul McCartney, que leva ao aparecimento de álbuns como Pet Sounds, Smile (só editado em 2004 por Brian Wilson) por parte dos Beach Boys e Sgt Pepper’s (1967) por parte dos Beatles. Para quem esta época da música ainda é uma névoa, aqui fica o meu conselho: Oiçam tudo o que de melhor há, pois é provavelmente das melhores coisas que ouvirão certamente.
Factos históricos à parte, Pet Sounds é, de facto, delicioso. Aqui vemos os Beach Boys realmente no seu máximo, apenas suplantados pelo fantástico Smile apenas editado em 2004, mas isso é um assunto que fica para depois. Os habituais coros e as vozes bem trabalhadas são misturadas com uma panóplia de instrumentos e arranjos tão diversificados que impossibilitavam que discos como estes fossem tocados ao vivo. Estávamos realmente em tempos diferentes, tudo se fazia pela originalidade, coisa que muitas vezes não se encontra nos dias de hoje.
Há qualquer coisa que nos Beach Boys nos faz sempre sorrir e penso ser essa uma das grandes características e qualidades das suas músicas, “God Only Knows”, “Wouldn’t It Be Nice”, “Sloop John B”, “I’m Waiting For The Day” ou “Here Today” são exemplos disso.
Para quem apenas conhece Beach Boys pelos seus Best Of e não são poucos, realmente aconselho a ouvirem Pet Sounds, um dos melhores álbuns dos anos 60 e um dos melhores de sempre da música Pop/Rock.

domingo, 11 de março de 2018

A 11 de março de 1970, Crosby, Stills, Nash & Young lançam "Déjà Vu"

De três passam a quarto. CSNY, um dos supergrupos mais voláteis da história do rock, assinam a sua obra-prima logo à primeira tentativa.
O final da década de 60 foi pródigo na génese de supergrupos. Um dos que apareceu com mais convicção nasceu da união de David Crosby (ex-Byrds) com Stephen Stills (ex-Buffalo Springfield) e Graham Nash (ex-Hollies). Um trio que sabia extrair (melhor do que ninguém) os ensinamentos da folk de Dylan cruzando as harmonias vocais dos Beach Boys.
Em 1969 gravavam o seu disco de estreia, meses depois davam o seu segundo concerto para quase meio milhão de pessoas no festival Woodstock. A ascensão meteórica do grupo confirmava-os como super estrelas de um novo rock “made in USA” alimentado de canções acústicas em pleno convívio com o psicadelismo hippie da época. No entanto, se o grupo não se sentia satisfeito com o excesso de egos, eis que Stills convida o seu antigo companheiro dos Buffalo Springfield, Neil Young, para dar um ar ainda mais pomposo e rock à coisa (dois guitarras-solo é sempre melhor que um).
Músico versátil e já com dois discos a solo no bolso, Young era a força que o trio inicial precisava para manter “as pernas a andar”. Multi-instrumentista, armado de guitarras elétricas e órgãos meio jazzy, meio psicadélicos, Neil Young veio dar inevitavelmente um empurrão para que Déjà Vu fosse considerado uma obra-prima do rock.
A sua influência em canções como “Helpless” ou a suite “Country Girl” (um medley de três canções contidas numa só) decididamente deram aos CSN&Y um novo som que contemplava ao mesmo tempo várias direcções como a country, o rock ou a folk. Estavam aqui as futuras pistas do soft-rock californiano que anos mais tarde foram exploradas a fundo por grupos como os Eagles, os America ou Flying Burrito Brothers.
Esta influência positiva do seu mais recente membro, inspirou os outros a construírem canções que ainda hoje permanecem como uma das melhores do seu longo catálogo (quer em grupo, quer a solo). Nash trouxe a sua influência british pop ao de cima para misturá-la com alguns requintes country com os hits “Teach Your Children” e “Our House”. Crosby, sempre perseguido pelos seus fantasmas da droga assina aqui um grande tema rock com “Almost Cut My Hair” e Stills faz de “Carry On” uma das melhores canções para se ouvir em plena auto-estrada.
Mas não se pense que esta é uma obra para dar ênfase apenas a talentos individuais. A faixa “Woodstock” (uma versão de Joni Mitchell) é um desses raros momentos porque a palavra super-grupo não devia ser um termo sujo na indústria pop. E honras também para o melhor tema roqueiro do disco – “Everybody I l Love You” – com os seus duelos de guitarra entre Young e Stills.
Déjà Vu acaba por ser assim dos discos mais equilibrados da história do rock. Não só porque dá espaço a toda a gente de tocar como tem um conjunto de canções muito fortes e que ainda resistem passados quase 50 anos. Pena é que este colectivo nunca tenha gravado mais nada com esta magnitude e inspiração. Egos a mais ditaram aquilo que poderia ser uma brilhante carreira em comum. No entanto há sempre este “Déjà Vu” para voltar a recordar a magia de um grupo inato de talentos.

terça-feira, 6 de março de 2018

David Gilmour lança "On an Island", o seu 3º álbum a solo, há 12 anos.

“Remember that Night…white sails in the Moonlight…”

Já lá vão 24 anos desde o último disco de estúdio dos Pink Floyd – “The Division Bell”!
David Gilmour, ao contrário do que muitos pensaram, decidiu não prolongar por muito mais tempo a carreira do grupo “post- Roger Waters”.
Nos sete anos seguintes, a carreira musical ficou para trás. Montou uma empresa de aviões, casou-se, teve filhos e ajudou as mais diversas causas humanitárias pelo mundo fora. E foi precisamente por essas causas, que Gilmour voltou acidentalmente ao activo.
Estávamos em Julho de 2005. Bob Geldof organizador do “Live 8” consegue convencer os Pink Floyd (Gilmour, Mason e Wright) a juntarem-se a Roger Waters para uma actuação única e histórica em Hyde Park.
O grupo conseguiu não só convencer os mais cépticos (que nunca acreditariam em tal reunião), como também uma geração nova de fãs, ávidos de voltar a ver os Pink Floyd ao vivo. Nos meses seguintes, gerou-se uma enorme expectativa sobre o regresso dos Floyd à ribalta. Contudo, David Gilmour (detentor legal sobre os direitos de utilização do nome do grupo) optou por negar todos os rumores e pôs um ponto final na carreira da banda de Dark Side of the Moon.
"On an Island" foi o terceiro disco a solo de Gilmour, depois de "David Gilmour" (1978) e "About Face" (1984). A acompanhar o guitarrista, está um elenco de luxo: Rick Wright, teclista dos Pink Floyd; Guy Pratt, baixista das últimas digressões dos Pink Floyd; Robert Wyatt, vocalista e baterista dos Soft Machine e Phil Manzanera, guitarrista dos Roxy Music e co-produtor do álbum.
Musicalmente, o álbum é irrepreensível e transporta-nos imediatamente para os ambientes de nostalgia “Floydiana”. Basta escutar o primeiro tema, “Castellorizon” e está lá tudo. Os solos de guitarra imaculados, os teclados ambientais a juntar aos efeitos sonoros tão característicos da história da banda.
A voz de Gilmour continua fresca, no tema “On an Island” encontram-se afinidades com “Echoes” (de Meddle, 1971) e “Fat Old Sun” (de Atom Heart Mother, 1970). Liricamente é o melhor tema do álbum, com as vocalizações de Graham Nash e David Crosby a brilhar por entre os olhares do céu estrelado e viagens perdidas no meio do Oceano.
A nostalgia do tempo que já passou (“Pocket Full of Stones”), as pressões da meia idade (“Take a Breathe”) acabam por afectar a maré de um álbum, onde as letras a atirar para o Phil Collins, são o ponto menos bem aproveitado do disco (escute-se “This Heaven” ou “Smile”).
Polly Samson, jornalista e mulher de Gilmour, não tem certamente a visão “newtoniana” e inspirativa de um Roger Waters ou a alucinação criativa de um Syd Barrett. Não é propriamente um disco dos Pink Floyd, mas não anda longe. 

sábado, 3 de março de 2018

"Master of Puppets" dos Metallica, lançado a 3 de março de 1986.

Depois da evolução visível de Kill’m’All para Ride the Lightning, Metallica eram os Messias do Metal. A energia que Lars Ulrich, Kirk Hammett, Cliff Burton e James Hetfield transmitiam nos seus temas era algo como nunca dantes se tinha visto.
Em 1986 o auge era atingido. Para muitos o ponto máximo do Heavy Metal - Master of Puppets vinha a público.

Até à data álbuns de culto tinham sido lançados como Number of the Beast , Ace of Spades , Paranoid, British Steel, etc… Mas o mundo mesmo assim não estava preparado para a carga pesada do álbum que viria a ser de culto do Trash-Metal. Se Ride the Lightning pregava a partida aos ouvintes com a famosa introdução de «Fight Fire With Fire», «Battery» demonstra que este tipo de estrutura viria a ditar alguns dos temas mais pesados da carreira da banda ( «Blackened» de …And Justice For All por exemplo).Uma introdução pouco comum aos restantes mortais do metal dos anos 80, prova o estatuto de Deuses. Toquem o que tocarem sai sempre bem!Um dos melhores temas da banda ao vivo, “ cannot kill the battery” dita a velocidade de Lars Ulrich, possivelmente no seu melhor. Um tema que relembra os tempos de Kill’m’All mas que revela a experiência ganha com o crescimento mediático da banda.O momento mais do que obrigatório, a par de «Seek And Destroy», é daqueles temas que consegue por em comunhão fans old-school com os curiosos ouvintes do radiofónico Black Album – dando nome ao álbum, «Master of Puppets» é a maior epopeia da história do metal!Um Riff arrebatador logo ao passar dos primeiros segundos impossibilita qualquer ser humano que se preze de se tornar um autentico selvagem! Air guitar, mosh, crowd surf, circle pit, slam dancing, headbanging- meu deus! - dá para tudo!! James Hetfields diz ao publico para obedecermos ao nosso mestre - Assim o faremos! Mais do que viciante, sem dúvida um dos melhores temas da banda de San Francisco! A par do solo inicial de «One», este tema consegue encaixar na perfeição um momento de génio de Kirk Hammond. Se alguém ainda punha em causa a saída de Dave Mustaine, penso que agora Kirk acimentava o seu lugar na banda. É belo, é poético, é sentido. Como é que alguém se dá ao luxo de misturar tamanha delicadeza com tamanha violência?!8 minutos sensivelmente, e penso que ninguém seria capaz de tirar um segundo que fosse. Um final a trezentos á hora. «Creeping Death» ditava algo deste género mas mesmo assim, «Master of Puppets» consegue ainda deixar-me de queixo caído.A par de «Harvester of Sorrow», este tema seguinde prime pela importância dada ao peso e não á velocidade que tanto marca a cena Trash-metal.«The Thing That Should Not Be» é claustrofóbico, é diferente, é único. Da primeira vez que ouvi esta música confesso que fiquei confuso, o sentimento que me transmitiu não era óbvio ao ponto de conseguir formar uma opinião de seguida. A complexidade deste tema é subtil, não aparenta mas é um tema que não está lá para encher chouriços.É a primeira quebra do ritmo alucinante que os primeiros temas deixam como cauda dum meteorito gigantesco.
Carregando no Foward encontraremos um dos momentos mais tocantes da discografia dos Metallica. Para além de ícones do Metal, a banda será para a eternidade lembrada pelas suas baladas de fast pace. Depois de «Fade to Black» e abrindo caminho para «One», «Welcome Home (Sanatarium)» leva-nos para um mundo que ninguém está interessado em conhecer de perto. Um mundo onde “ The time stands still”, um mundo de medos e receios.O sentimento de abandono total.Os primeiros toques do sr. Hetfield nos agudos da sua guitarra marcam um compasso de nostalgia total. A raiva crescente culmina num sentido – “ just leave me alone!”. Mais um clássico da banda, que de forma alguma poderá ser esquecido no tempo. O solo final, o break de bateria – Metallica - está carimbado ! Ainda hoje podemos encontrar esta estrutura característica em temas como «The Day That Never Comes» do recente Death Magnetic.

«Disposable Heroes» marca uma vertente menos utópica, digna do imaginário do mundo do Metal, e toma contornos políticos. Heróis descartáveis, é assim que os Metallica representam soldados a mando, carne para canhão.Ridicularizam as causas da guerra e não temem a caracterização violenta de tais cenários. Os primeiros segundos deste tema elevam-nos a um caos total. “Are you out there?” pergunta repetidamente James nos concertos antes de abrir caminho a um dos riffs mais elementares de trash. Kirk Hammond e Lars Ulrich tomam as rédeas.” …bodies fill the fields i see…” Assim começa a letra só por si pesada.
Confesso que este tema é dos meus favoritos, tendo só uma vez o privilégio de o assistir uma vez apenas, em 2007 no festival Super Bock Super Rock.
É inevitável fazer mais uma vez o reparo, Lars no topo de forma, quer a nível de velocidade como de criatividade – nem sempre bem aceite.

Quando o momento mais fraco de todo um álbum continua a estar ao nível, é porque estamos na presença de algo único. «Lepper Messiah» diz-nos que é tempo de “kiss your ass good-bye”. Mas primeiro damos graças a algo superior por nos ter ofertado o trabalho de Cliff Burton. «Orion» recorda-nos o potencial do melhor baixista da história do Heavy-Metal.Ainda hoje um momento celebrizado por Rob Trujillo, assim como Jason Newsted o fazia em honra do seu antecessor. Um trabalho de baixo distorcido como só Burton se atrevera a explorar. O instrumental com maior carga emotiva, celebrizado a quando do fatal acidente que vitimara o seu autor.Ao vivo, e os fans mais atentos certamente confirmarão, a banda de San Francisco aproveita para dar uma falsa partida de palco aquando do infernal «Master of Puppets» dando tempo a soltar um dos temas com introdução como anteriormente expliquei… Pois bem, não temam por mais alto na música que se segue. Este tema fez-se para homens de barba rija, é pesado, é rápido, é violento. Não foi feito para parecer harmonioso ou com uma certa complexidade de estrutura. Foi feito para celebrar o caos total.«Damage Inc» tem um dos melhores compassos de bateria que poderão ouvir ao longo da vossa vida! “ Blood will follow blood!” faz temer os pais de todo o jovem adolescente que berra tais palavras no seu quarto como senão houvesse amanhã! E o solo final? Estaria Kirk Hammond em Ecstasy? A velocidade desde solo é fenomenal, que dupla infalível! Lars sempre ao ataque deve dar graças ao facto de não acabar com uma trombose tal é a velocidade das suas batidas! Sem dúvida alguma um dos temas mais pesados dos Metallica que fecham assim o álbum mais respeitado da história do Trash-Metal.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Frank Sinatra faria hoje 102 anos

“The Voice” calou-se a 14 de Maio de 1998

Falar de Frank Sinatra é falar de um dos maiores cantores do século XX. Um verdadeiro ícone, que dividiu a sua actividade entre os palcos e o cinema, sempre com aquela voz inconfundível. Se fosse vivo, Frank Sinatra faria hoje 100 anos, pois nasceu em Hoboken a 12 de Dezembro de 1915, mas faleceu a 14 de Maio de 1998, em West Hollywood (Los Angeles).
Frank Sinatra interpretou uma carreira recheada de êxitos, uma das mais gloriosas da História da Música Popular. Mesmo antes dos Beatles já Frank Sinatra se tinha cruzado com a “histeria” da sua multidão de fãs. Cantor idolatrado, mas também actor em plena época glamourosa de Hollywood, Frank Sinatra coleccionou sucessos discográficos, sobretudo no período do pós-guerra. Uma das suas mais famosas canções “My Way” detém ainda o recorde britânico do single que mais tempo se aguentou nos “charts”: 136 semanas!
A carreira do jovem Sinatra começou em 1935, muito por culpa da sua mãe que convenceu um grupo vocal local, os 3 Flashes,  a aceitá-lo como membro. O grupo iria então tornar-se conhecido por The Hoboken Four. Mas também nesse mesmo ano, aos 19 anos de idade, Frank Sinatra iria ter a sua primeira participação no cinema como actor. Mas este episódio quase que foi apagado da biografia do actor, pois o filme em questão era pornográfico. Frank Sinatra terá recebido 100 dólares para aparecer na fita como um bandido mascarado. Já depois de se ter tornado um artista famoso, Frank Sinatra terá tentado junto de influentes amigos impedir a distribuição e exibição do filme pornográfico, então chamado de “blue movie”. Ao todo, ente 1944 e 1984, “The Voice”, como ficou conhecido Frank Sinatra, participou como vedeta principal em 56 filmes e programas especiais de televisão.
“Entertainer” maior da América, pago a peso de ouro, capaz de arrastar multidões, Frank Sinatra tomou a decisão de não actuar em qualquer casino ou hotel de Las Vegas enquanto estes não aceitassem artistas negros, numa clara manifestação contra o racismo reinante no Estado do Nevada. Contudo, mais tarde, na década de Frank Sinatra60 Frank Sinatra iria estabelecer a sua residência em Las Vegas. A sua figura ultrapassava claramente o mundo do “show business”, com importante influência no mais alto meio político norte-americano. As suas relações com a Máfia, nunca totalmente esclarecidas, fazem também parte da vida ímpar deste ímpar cantor.
Em plena época dominada pelo Rock ‘n’Roll, Frank Sinatra não escondeu a sua aversão a este novo estilo musical, considerando-o “a mais brutal, feia e viciosa forma de expressão que tive o desagrado de ouvir”. Sobre a canção “Light My Fire” dos Doors disse mesmo que “foi o pior disco que ouvi!”. Expressões que mostram bem a forma como Frank Sinatra odiava o novo ritmo que tinha conquistado a juventude. Mas as gerações mais velhas, os seus fãs de sempre, mantiveram-se fiéis ao “crooner” – um dos maiores do século XX. Ao longo da sua carreira, Sinatra vendeu mais de 150 milhões de discos.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

"Hotel California" dos Eagles, lançado a 8 de dezembro de 1976.

Houve uma época em que os álbuns ganharam muito mais importância em relação aos singles. Se for necessário situar esse tempo mais especificamente, diria que a década de 70 foi a mais prolífera em se tratando de voltar as atenções do público para um trabalho como um todo, ao invés de canções em separado. Discos como Rumours (Fleetwood Mac), IV (Led Zeppelin) Boston (Boston), The Dark Side of the Moon (Pink Floyd) e Bat Out of Hell (Meat Loaf) venderam dezenas de milhões de cópias e ajudaram a solidificar esse status. Mesmo os singles ou músicas de mais sucesso extraídas desses álbuns fugiam de formatos mais convencionais. Não raro eram longas, e mesmo assim eram muitas vezes executadas sem edição nas rádios. Entre esses artistas também estava o grupo norte-americano Eagles, que, em se tratando do seu país de origem, foram os soberanos da década.

Em 1976 a situação dos Eagles não poderia ser melhor. A banda vinha de uma sequência de álbuns de sucesso, sendo que os seus dois últimos lançamentos, One of These Nights (1975) e a recente colectânea "Their Greatest Hits (1971-1975)" (que se tornaria o segundo álbum mais vendido da história nos EUA) haviam ocupado o posto mais elevado da Billboard. Dos seus quatro últimos singles, dois haviam chegado à primeira posição nas tabelas norte-americanas ("Best of My Love" e "One of These Nights"), um alcançara a segunda colocação ("Lyin' Eyes") e outro beliscou o quarto posto ("Take It to the Limit"). Além do gigantesco reconhecimento por parte do público, "Lyin' Eyes" havia conquistado o prémio Grammy como melhor performance pop por uma dupla ou grupo com vocais. Por outro lado, a banda tinha acabado de sofrer a primeira baixa na sua formação; mas até nisso os Eagles não foram azarados, pois para o lugar do vocalista e multi-instrumentista Bernie Leadon entrou um dos mais habilidosos guitarristas da época: Joe Walsh (ex-The James Gang), que também era multi-instrumentista e vocalista.
Mesmo com tudo a seu favor, a banda entrou no estúdio Criteria, em Miami, com a intenção de consolidar ainda mais o seu nome, como a atracção número um dos Estados Unidos. Oito meses foram passados, tanto no Criteria como no Record Plant, em Los Angeles, até que o grupo tivesse encerrado o processo de produção desse álbum que, durante as gravações, se encaminhou para um rumo conceptual. Os Eagles já tinham feito um disco semi-conceptual em 1973 com o excelente Desperado, que mesmo não seguindo uma narrativa linear, versa sobre histórias ambientadas no oeste norte-americano durante o século XIX, expressando as influências musicais que tinham as suas mais profundas raízes fincadas nessa época.

Entretanto, em Hotel California a banda foi mais além. Ao invés de escreverem letras de temática distante da realidade, resolveram olhar para os próprios umbigos e retratar a realidade que rodeava os cinco músicos, que, saídos de diversas regiões do país, acabaram por se unir em busca de fama e fortuna na "terra prometida", a Califórnia. Talvez com a excepção de "Pretty Maids All in a Row" e "Try And Love Again", os Eagles buscaram, através de diversas metáforas focadas no universo californiano de excessos que a banda vivenciava, apresentar as benesses e as agruras, a pujança e a decadência dos Estados Unidos como um todo. Não à toa as mais mirabolantes teorias surgiram a respeito da temática utilizada nas letras do álbum, especialmente tratando-se da faixa-título. O "hotel" em questão já foi tido como um hospital psiquiátrico, uma igreja tomada por satanistas e até mesmo a mansão de Aleister Crowley, entre outras coisas. As letras sugerem referências diversas, e esse é um dos pontos positivos de Hotel California, colocar os ouvintes a reflectirem, ao mesmo tempo sugerindo interpretações diversas. Claro que, mesmo mais de 40 anos após o lançamento do disco, os membros da banda ainda são inquiridos constantemente a respeito do significado das letras, facto que já os irritou por diversas vezes, dada a grande insistência e a quantidade de perguntas já respondidas em diversas oportunidades.
Don Henley

Não foi apenas liricamente que o grupo deu um passo em frente nesse álbum. Musicalmente, os Eagles mostraram-se ainda mais amadurecidos do que no já sofisticado One of These Nights. Rotulado por muitos como apenas um empacotador da fórmula criada anteriormente por grupos como The Byrds e The Flying Burrito Brothers, polindo o seu rock infectado de country até que esse se tornasse mais palatável para o ouvinte médio norte-americano, os Eagles soam mais sólidos do que nunca em Hotel California. A adição de Joe Walsh no lugar de Bernie Leadon (que fez parte do The Flying Burrito Brothers) trouxe um approach mais hard rock à banda, e a performance do baterista e vocalista Don Henley e do baixista e vocalista Randy Meisner é a mais roqueira de toda a discografia do grupo até então. O guitarrista e vocalista Glenn Frey concentrou-se mais nas bases, enquanto Joe Walsh e Don Felder solaram com bom gosto, e brilharam para o grupo.

Outro diferencial importantíssimo foi a ascensão de Don Henley como principal vocalista do grupo, cantando cinco das nove canções do álbum (uma é instrumental). Até então, havia uma distribuição quase igualitária do número de faixas que cada um dos músicos cantaria, dependendo também da autoria das canções, geralmente equilibrada, com excepção do guitarrista Don Felder, que na sua carreira com os Eagles cantou apenas a faixa "Visions", de One of These Nights. Talvez essa tenha sido uma das razões para acirrar a guerra de egos que se reforçaria no grupo dali em diante e resultaria no final da banda em 1980 de maneira nada pacífica, culminando com um concerto que teve lugar em Long Beach, no qual Glenn Frey e Don Felder trocaram ameaças inclusive sobre o palco.

Lançado após meses de trabalho e com o perfeccionismo de Don Henley chegando a raias quase intoleráveis pelos outros integrantes, Hotel California chegou às lojas no dia 8 de dezembro de 1976. Em apenas cinco dias, a 13 do mesmo mês, o álbum chegou a disco de ouro (500 mil cópias comercializadas), e dois dias depois alcançou a platina (1 milhão de cópias). O disco não apenas chegou à primeira posição na Billboard como permaneceu nesse posto durante oito semanas, chegando à impressionante marca de 16 milhões de cópias vendidas apenas nos Estados Unidos. No futuro o álbum seria sempre um dos protagonistas de todo o tipo de lista que se prestou a agregar os melhores e mais importantes discos já lançados na história da música moderna, tanto no rock quanto na música pop em geral.
Beverly Hills Hotel, o "Hotel California"
da capa do álbum
Mas será que o conteúdo do disco é suficiente para justificar todo esse sucesso e reconhecimento conquistado pelos Eagles, uma banda que, apesar de todo o seu êxito comercial e da forte presença na cultura popular do seu país, não incutiu tanta influência musical a nível mundial? É o que pretendo discutir nos próximos parágrafos.

"Hotel California", a música, pertence ao rol de canções que foram executadas até à exaustão, e por isso, já não conseguem ser escutadas da mesma maneira por muita gente, tendo praticamente expirado o seu "prazo de validade". Outros não a apreciam devido aos rótulos com os quais a música foi tachada (brega, auto-indulgente), seguindo a maré. Contudo, é inegável que se trata de uma música antológica, carregada das mais diversas histórias a respeito dos seus mais de seis minutos o quanto é possível. Aliás, o facto de, mesmo com a sua longa duração ter alcançado o topo da tabela de singles, remete à introdução deste texto e à época atípica em que o álbum foi lançado. "Hotel California" não é nada convencional, mesmo para os padrões dos Eagles. Foi Don Felder quem teve a ideia inicial e mostrou o esqueleto da canção para Don Henley e Glenn Frey, quando ela contava com o título provisório de "Mexican Reggae". Henley e Frey ajudaram a arranjar a música, criaram o refrão, e Henley escreveu a letra que suscitaria tantas interpretações posteriores. Não vou citar aqui todas as diversas teorias que foram criadas com o passar dos anos sobre "Hotel California", pois elas são muitas e em grande parte bastante infundadas. Porém, trago uma curiosidade: nos seus versos, apenas como uma brincadeira, Henley incluiu uma referência à dupla Steely Dan, no trecho "they stab it with their steely knives / but they just can't kill the beast". A citação deve-se ao facto de que os Steely Dan também fizeram uma referência à banda na faixa "Everything You Did", do álbum The Royal Scam (1976), no verso "turn up the Eagles, the neighbours are listening", onde é descrita uma briga entre o autor e a sua namorada, com o autor a pedir para que a mulher aumentasse o volume da música que estava a ser ouvida (do Eagles), para que os vizinhos não escutassem a discussão. Supostamente, a namorada de Walter Becker dos Steely Dan, seria uma grande fã da banda, facto que teria inspirado o verso. Contudo, não existem declarações que confirmem esse rumor. O que existe é o facto de que os dois grupos compartilhavam o mesmo empresário (Irving Azoff) e mantinham uma rivalidade amigável nos anos 70.
Glenn Frey

Como está explícito no título provisório da faixa, um andamento próximo do mais famoso dos ritmos jamaicanos conduz a maior parte da canção, bastante swingada, levando ao refrão cheio das harmonias vocais tão características do grupo. A introdução, tocada numa viola de 12 cordas, remete imediatamente, mesmo aos ouvintes mais leigos, a esta música que ficou gravada na mente de milhões de pessoas espalhadas por todo o mundo. A letra, mais do que apenas um amontoado de estrofes que causam tanta discussão até hoje, constitui uma muito inteligente escolha de palavras, contribuindo para a construção das lindas melodias vocais de Don Henley. Mas nada em "Hotel California" é tão marcante quanto a longa sequência de solos que se inicia aos quatro minutos e vinte de música e se encaminha até ao final da faixa. Don Felder e Joe Walsh trocam belíssimos e melodiosos solos com as suas Gibson SG e Fender Telecaster, respectivamente, mas soam especialmente maravilhosos quando executam as suas linhas em dueto, cunhando um dos solos mais memoráveis da história do rock.

Glenn Frey é o vocalista da seguinte, a semi-acústica "New Kid in Town", provavelmente a mais próxima do passado recente do grupo. A música, que também chegou ao primeiro posto da Billboard, é uma perfeita configuração daquilo que passou a ser denominado como "soft rock" na época. Uma balada pop rock com o tempero country precioso para a banda nos seus primórdios, denotando a influência dos pioneiros do género, além de um toque latino, mas com um esmero muito especial em se tratando das harmonias vocais, que inclusive renderiam em 1977 um Grammy na categoria "melhor arranjo para vozes" a essa faixa. Tudo funciona na perfeição nessa música que mostrou a capacidade dos Eagles em transformar uma canção simples, num festival de arranjos, mas sem soarem auto-indulgentes em momento algum.

O então recentemente aflorado lado hard rock dá as caras em "Life in the Fast Lane", com um fantástico riff inicial, cortesia de Joe Walsh, e uma carga de distorção não experimentada anteriormente pelo grupo, casando perfeitamente com a letra, que versa sobre o estilo de vida cheio de excessos de um hipotético casal, mas que certamente se refere às experiências que a fama e o dinheiro trouxeram aos cinco integrantes, incluindo festas, carros, mulheres e drogas, muitas drogas, explícitas no verso "there were lines on the mirror, lines in her face", uma clara alusão à cocaína. É importante destacar nessa faixa a afirmação do baterista Don Henley, também cantor da faixa, e do melódico baixista Randy Meisner como uma cozinha capacitada para explorar com propriedade as plagas mais pesadas do rock.
Don Felder
"Wasted Time" traz Glenn Frey no piano e Joe Walsh no órgão, além de arranjos de cordas, embelezando essa ambiciosa canção que traz Don Henley na excelente interpretação de um lamento sobre tempo perdido, provavelmente na estrada, sina de um músico, sem poder se prender a relacionamentos. Contando com a faixa seguinte, "Wasted Time (Reprise)", uma espécie de "cauda" para a canção, trazendo os arranjos do condutor Jim Ed Norman em evidência, são pouco mais de seis minutos de um épico compacto, contando com uma característica especial na discografia do grupo, a presença mais discreta das harmonias vocais, relegadas a um segundo plano. Ponto para Henley, que cada vez mais tomava as rédeas do grupo e se mostrava um fantástico vocalista.

Canção mais convencional, "Victim of Love" é a única motivação que alguém pode ter para não rotular Hotel California como um álbum perfeito de cabo a rabo. Mesmo assim trata-se de outra óptima canção a explorar a veia hard rock da banda, dessa vez de maneira mais simples, mas sem jamais descuidar os esmerados arranjos, contando com Joe Walsh executando o slide e Don Felder descendo o braço de maneira mais displicente na sua guitarra. É necessário destacar a perfeita timbragem dos instrumentos em todo o álbum, mérito do perfeccionismo do grupo e do produtor Bill Szymczyk.
Joe Walsh

A voz fanhosa de Joe Walsh é a condutora da faixa seguinte, "Pretty Maids All in a Row", numa veia mais melódica do que o seu trabalho anterior, tanto em carreira a solo como nos The James Gang. Além de cantar, Joe toca piano e sintetizador na música, conduzida por estes dois instrumentos e pontuada por belas intervenções guitarrísticas, além de contar com uma discreta, mas perfeita base de violão, baixo e bateria. O Walsh por diversas vezes agressivo do The James Gang revela a sua faceta mais sensível, algo difícil de se imaginar levando em conta o seu comportamento selvagem na estrada, onde era famoso por carregar consigo uma moto-serra, a fim de "abrir portas" quando fosse necessário. Isso sem falar na destruição de banheiros e outros cómodos com o auxílio dos seus companheiros de estrada, em especial o baterista dos The Who, o falecido Keith Moon.

"Try and Love Again" é a filha única do baixista Randy Meisner, que deixaria o grupo após alguns meses de tournée, cansado da vida de estrada, recolhendo-se à sua casa no estado do Nebraska junto com a sua família. Randy, sempre o mais pacífico e amigável membro da banda, seria substituído por Timothy B. Schmitt, ex Poco, grupo original do próprio baixista. Meisner, autor e cantor da faixa, demonstra em "Try and Love Again" toda a sua sensibilidade lírica, unindo uma letra de romantismo explícito, mas não exacerbado, ao perfeito instrumental, contando com uma introdução que traz uma guitarra muito bem timbrada executando uma linda melodia. As suas linhas mais agudas trariam um problema aos Eagles após a sua saída, tanto que as canções originalmente cantadas por Randy seriam pouco tocadas ao vivo em épocas posteriores, com exceção do hit "Take It to the Limit", cantado por Glenn Frey.
Randy Meisner
Se a faixa-título e "Wasted Time" já possuíam tons épicos, é em "The Last Resort" que reside a gravação mais ambiciosa do grupo até então. Escrita em forma de narrativa mais linear, a música conta a história do crescimento da civilização branca norte-americana no oeste do país sob uma óptica crítica e actualizada à época. Narra a destruição dos Estados Unidos pelas mãos daqueles que, ao mesmo tempo em que buscavam um sonho, arruinavam a vida dos nativos e a própria terra na qual habitavam, satisfazendo as suas necessidades e ambições em nome de um suposto Deus que os espera no paraíso, enquanto destruíam o seu paraíso na terra. Musicalmente, a climática faixa leva o ouvinte a uma etérea viagem que merece ser acompanhada pela leitura da belíssima letra, para assim compreender melhor sobre o que Don Henley canta. Sintetizadores tocados por Joe Walsh e Henley dão uma maior sofisticação à canção, que também conta com certeiras intervenções de Don Felder tocando o pedal steel guitar. Devo admitir que, mesmo não sendo a minha favorita, "The Last Resort" talvez seja a maior realização de toda a carreira dos Eagles.

Ao término desta avaliação, não tenho como deixar de dar razão a todos os que apontam Hotel California como um dos mais importantes discos já lançados na história da música popular, retrato de uma época diferente, mostrando uma banda no auge, que apesar de todos os excessos, conseguiu focar todo o seu talento na criação de um documento histórico musical e lírico, de maturidade experimentada raras vezes e de um bom gosto que transcende décadas. Não é por causa da sua extrema popularidade que deve ser rejeitado pelos exploradores das obscuras plagas musicais. Trata-se de um item obrigatório na discoteca de qualquer um interessado em boa música, sem rótulos.

Track list:

1. Hotel California
2. New Kid in Town
3. Life in the Fast Lane
4. Wasted Time
5. Wasted Time (Reprise)
6. Victim of Love
7. Pretty Maids All in a Row
8. Try and Love Again
9. The Last Resort

domingo, 3 de dezembro de 2017

JIM DIAMOND (1951 - 2015)

Chamaram-lhe "a resposta escocesa a Ray Charles" pela forma ritmada de tocar piano e pelo estilo carregado de sentimento, próximo da soul, com que cantava, fosse sobre amores desavindos ou sobre a vida das classes trabalhadoras, a que pertenciam a mãe e o pai, uma costureira carinhosa e um bombeiro conhecido em Glasgow (onde James "Jim" Diamond nasceu a 28 de Setembro de 1951) por se levantar a meio das festas para cantar. A sua primeira influência musical foi ele - e o seu gosto pelas raízes celtas, que viria a marcar a própria ruptura de Jim Diamond com o êxito comercial quando, depois do mega-sucesso de I Should Have Known Better, em vez de gravar a pop que a editora queria, decidiu fazer um álbum de folk. 
Porém, foram os discos de soul que o irmão mais velho levava para casa que definiram o seu estilo. Em 2011, recordou esse tempo à revista Blues and Soul: "Ouvi pela primeira vez Sam Cooke na rádio e foi uma revelação. Também adorava Otis Redding e Ray Charles e lembro-me de pensar que não havia canção mais feliz que Mockingbird, de Inez e Charlie Foxx. Naturalmente, quando decidi ser cantor, escolhi o género que amava." 
Eram os anos 60 e Jim Diamond queria ser como os seus ídolos americanos, mas também como os tipos cool de Glasgow, que tocavam em bares e andavam de um lado para o outro montados em scooters. Aos 14 anos fundou a primeira banda, The Method, e aos 15 tornou-se vocalista dos Jade, que abrilhantavam festas universitárias e pubs. Não satisfeito, respondeu a um anúncio que pedia um cantor para os Gully Foyle, com os quais fez a primeira parte de alguns concertos dos Procol Harum, então estrelas do rock progressivo, e foi aí que Alexis Korner, considerado o fundador do blues britânico, deu por ele e o contratou. 
O blues não era, porém, a cena de Diamond, que em 1976 se virou para o rock com os Bandit (que integravam também Cliff Williams, mais tarde dos AC/DC), mas a banda não singrou por causa da concorrência do punk, então recém-nascido. Ele não se ficou e, no início dos anos 80, resolveu fundir a sua amada soul com a new wave da moda e teve o seu primeiro sucesso, com os Ph.D: I Won't Let You Down. Por azar (ou terá sido sorte?) apanhou hepatite quando a banda estava prestes a embarcar numa digressão mundial e ficou de cama. 
Reapareceu a solo, em 1984, com I Should Have Known Better, êxito estrondoso, como não voltou a ter - mas também não o desejava. Marido e pai extremoso (de Sara e Lawrence, que receberam os nomes dos seus próprios pais, cuja vida difícil lhe incutiu arreigada ideologia política de esquerda), preferiu a partir daí viver longe dos holofotes, dedicando-se a projectos humanitários e a ajudar jovens músicos, tanto no seu estúdio como no programa de rádio que teve e que deixou por causa da "ditadura da publicidade". 
"Todos os que o conheceram sabiam que ele não era um pai normal ou, sequer, uma pessoa normal", escreveu emocionado o filho (teclista dos Citizens!) no Facebook, em reacção à sua morte (enquanto dormia, na sua casa de Londres, aos 62 anos) na madrugada de sábado, 10 de Outubro de 2015.