quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Jane Birkin et Serge Gainsbourg - Je T'aime...Moi Non Plus...

Esta é uma das canções mais emblemáticas dos anos 60 e representativas de todo o espírito “libertino” e de mudança que versou durante toda década de 60, a mais revolucionária do século 20. E como não poderia deixar de ser, sendo ela uma “filha” do seu tempo, pródigo em convulsões e controvérsias que por norma acompanham a mudança. Esta foi uma canção polémica, das mais polémicas de que há memória (foi banida pelo Vaticano, e das rádios em países como Espanha, Portugal, Suécia, Brasil, Reino Unido, ou Itália. Nos EUA apenas passava em algumas rádios, e mesmo em França, apenas era admitida que passasse na rádio depois das 11h da noite).

Originalmente, a canção foi composta em 1967 por Serge Gainsbourg, em resposta a um pedido da sua namorada de então, a actriz Brigitte Bardot que lhe pedira para escrever a mais bonita canção de amor! Nessa mesma noite de inverno, ele escreveu Je t’aime moi non plus e Bonnie & Clyde (gravaram as duas músicas em dueto, mas apenas lançaram a segunda, porque os empresários de Bardot temeram que o arrojo erótico da música pudesse vir a prejudicar a carreira da actriz, já de si bastante polémica).

O cantor, compositor, poeta, actor e realizador francês Serge Gainsbourg (1928-1991) fica para a história como um dos mais influentes compositores mundiais de música popular nos mais diferentes géneros, do rock ao pop, passando pelo funk, reggae ou jazz, entre outros (ao longo da sua carreira escreveu para diferentes interpretes famosas, Françoise Hardy, France Gall, Catherine Denueve, Isabelle Adjani, Vanessa Paradis, etc). Conhecido por gostar de chocar e gerar polémica, era também um boémio inveterado, “mulherengo” e fumador compulsivo. Tornou-se famoso na 1ª metade da década de 60 com a irrupção das chamadas Ye Ye Girls, passando a compor e a agenciar algumas das mais importantes cantoras do género.

Em 1968 apaixona-se pela actriz inglesa Jane Birkin nos bastidores do filme Slogan, no qual os dois contracenavam. Birkin (que se tornara conhecida por aparecer brevemente desnuda numa cena do mítico filme de Antoninni, Blow-UP/ A história de um Fotógrafo, estriado em 1966) apenas aceitou fazer um dueto de Je t’aime moi non plus com o seu novo amado Serge Gainsbourg, segundo reza a história, por sentir ciúmes da versão que ele gravara com Bardot (que ela até achava ter ficado uma música bastante sexy) e também porque ela não queria que ele acabasse por gravar a música com outra mulher.

A música foi catalogada como Pop adulto contemporâneo, e o single foi lançado em Fevereiro de 1969 (na capa do disco podia-se ler a inscrição: proibido a menores de 21 anos). O single tornou-se um sucesso por toda Europa e chegou ao 1º lugar em diversos países, entre eles o Reino Unido, antes de ser banida pela BBC e as demais rádios. A principal razão para tal facto prendia-se com o final da música, em que a cantora simula o som de um orgasmo (mais versos como: “tu és a onda e eu a ilha nua”, entre outros insinuações sexuais que se podem ouvir ao longo da letra da canção, não foram certamente estranhos a essa decisão).

Em defesa da sua canção Serge Gainsbourg sempre afirmou que esta era uma canção de amor, e não uma canção sexual (que profetizava o tabu em redor do sexo sem amor, como erradamente muitos dos seus detratores a difamavam. Ele chegou mesmo a afirmar que quando muito, esta era uma canção anti F*)!

A crítica considera o impacto desta canção na cultura Pop, na forma como ajudou a derrubar tabus e abrir as mentalidades, paralela ao efeito que teve o filme Emanuelle em 1974 (o New York Times, chamou-lhe um “linguado” poético).

Nesse mesmo ano de 69 a canção foi incluída no álbum Jane Birkin/Serge Gainsbourg (que continha outros duetos e canções a solo dos dois cantores), os dois mantiveram uma relação de 13 anos, da qual nasceu uma filha em 1971 (a actriz Charllotte Gainsbourg, premiada pelo seu desempenho no filme de Lars Von Trier , Anticristo-2009). Ao longo dos anos a música teve inúmeros covers por parte dos mais diferentes artistas em todo o mundo (de onde se destaca um feito em 1978 pela diva do Disco, Donna Summer), contudo o original manteve o seu glamour intocável, permanecendo até hoje como uma das mais bonitas e significativas canções de entre todas aquelas que um dia figuraram da lista das canções banidas internacionalmente.

Curiosidades: durante anos circularam rumores de que a versão da canção com Brigitte Bardot, incluía sons reais de sexo entre ela e Serge Gainsbourg! Em 1986 essa versão foi finalmente lançada em disco, contrariando aparentemente todos esses boatos e rumores de outrora. Mas não sem que no antes, a actriz viesse dizer que um dos seus grandes arrependimentos, era não ter lançado a música em 1967…

domingo, 25 de janeiro de 2015

Morreu DEMIS ROUSSOS

No dia em que o mundo olhava para a Grécia e para os gregos com incredulidade, por causa da estrondosa vitória da esquerda radical do Syriza, despedia-se da vida um dos cantores gregos mais míticos do século XX: Demis Roussos.
Discretamente, num hospital de Atenas, o cantor de “Forever and ever” e “Goodbye my love, goodbye”, o grego que nasceu em Alexandria, devido ao facto dos pais serem expatriados, encerra definitivamente uma carreira muito bem-sucedida e que marcou a cena musical europeia e americana nos anos setenta do século passado.
Demis Roussos cantou o amor, duma maneira um tanto ou quanto kitsch, mas que encantou milhões de fãs por toda a europa, que compravam os seus discos e sonhavam histórias românticas ao som da sua música. Roussos vendeu cerca de 60 milhões de discos, lotou o Maracanã como apenas Frank Sinatra o fizera e não se importava com as críticas, que o acusavam de fazer uma música ultrapassada, onde as baladas delicodoces revelavam influência gregas e árabes, que um europeu do norte absorvia mal, mas um latino adorava.
Apesar de ver a sua música criticada e até depreciada, o grego nunca negou a sua matriz musical, mas soube evoluir. 
O baixista e guitarrista dos Idols sabia aproveitar as oportunidades e, quando o vocalista da banda lhe deu uma das raras oportunidades de ser a estrela, Roussos não desperdiçou a dádiva e aplicou toda a imponência e beleza da sua voz de tenor para interpretar “when the man loves a woman”, despertando atenção, entre outros, do seu amigo Vangelis, com quem viria a fazer uma sociedade musical muito profícua para ambos, a partir de 1966. Haveriam de seguir caminhos separados a partir de 1972, mas a fama já estava conquistada e Demis, com as suas longas barbas, o seu peso absurdo e as suas lantejoulas, dava passos decisivos para se afirmar como um dos ícones da música dos anos 70 ao lado dos míticos ABBA. 
Com músicas como “Velvet morning”, “My friend the wind” ou “My reason”, Demis conquistava a América de norte a sul e consagrou um estilo que viria a ser algo ridicularizado nas décadas seguintes. Os anos 80 ainda trouxeram algum sucesso, em parceria com Vangelis, ao associar-se à extraordinária banda sonora de “Momentos de Glória”, mas a ideologia musical dos anos 80 e 90 caminhava noutras direções. Roussos adaptou-se, recriando a sua música e trazendo influências árabes, gregas e balcânicas aos seus temas, mas o êxito não seria nada parecido com o da década de 70. O final do século ditou a sua retirada, para gozar a vida e viver tranquilamente junto ao mar. Fez bem. A vida fora muito generosa com ele e, no dia 25 de Janeiro de 2015, os gregos decidiram despedir-se dele chamando novamente a atenção do mundo.  

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Cheap Trick - At Budokan

A pop habilidosa dos Cheap Trick elevou-se a patamares mais sólidos e eficazes com a edição de um disco ao vivo em 1979. "At Budokan" documentava uma bem sucedida tourné japonesa do conjunto e acrescentava novos argumentos a canções já existentes no formato de estúdio.

Uma maior e melhor agressividade interpretativa e instrumental dominava a maioria das 10 canções. "I Want You to Want Me" e "Surrender" entrariam para a história, muito por culpa de refrões contagiantes e pelo poder de guitarras que recuperavam, sem rodeios, o espírito do velho rock n´roll.

Outro ponto a destacar é o casamento da energia do vocalista Robin Zander com o entusiasmo constante do público nipónico. Todos estes factores fizeram de "At Budokan" um dos melhores álbuns ao vivo de que há memória.

David Gilmour, «Dogs» e o porco voador

Contexto: Tema incluído em Animals, álbum editado a 23 de janeiro de 1977. Foi a primeira vez que os Pink Floyd trabalharam no seu estúdio, nessa altura privado, o Britannia Row, em Islington, a norte de Londres, onde também os Joy Division gravariam Closer. Da Islington Green School, ali perto, veio o coro de crianças que cantaria no tema «Another Brick in the Wall – Part 2», três anos depois.
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A letra de «Dogs» é de Roger Waters e a música foi composta por David Gilmour. Embora o guitarrista não se orgulhe especialmente deste trabalho, é o único crédito na composição do álbum que não pertence a Waters. Animals é inspirado por O Triunfo dos Porcos de George Orwell, com Waters a dividir a humanidade em cães, porcos (três diferentes) e carneiros.
O tom geral do disco é agressivo e, em «Dogs», o foco incide nos “corporate climbers”, indivíduos sem escrúpulos que sobem num mundo competitivo, para “serem arrastados por uma pedra”, o peso da importância que atribuem a si mesmos, segundo Waters. A meio da faixa, Waters lê o 23º Salmo através de um Vocoder, tratamento que também é dado aos latidos de cães verdadeiros.
A capa do disco assentou no conceito de colocar um gigantesco porco insuflável a voar entre as torres austeras da Battersea Power Station, o que tornaria o edifício num insólito ponto turístico da capital britânica. Inexplicavelmente, Waters descreveu este suíno como “um símbolo de esperança”, e o enorme balão incorporaria todos os espetáculos posteriores.
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O PORCO VOADOR

A 2 de dezembro de 1976, um grupo de fotógrafos reuniu-se ao amanhecer, na Battersea Power Station, para captar a subida do porco cor-de-rosa. Tinha sido construído na Alemanha pela Ballon Fabrik, a mesma companhia que fizera os Zeppelins. Um atirador estava a postos, com uma espingarda, caso algo corresse mal. No entanto, o hélio não foi suficiente, sendo a sessão adiada para a manhã seguinte. Desta vez, o porco subiu, mas um cabo partiu-se, e o “animal” foi levado pelo vento.
O primeiro a avistá-lo foi o piloto de um jato, que aterrou no Aeroporto de Heathrow e descreveu o que vira. Fizeram-lhe um teste de alcoolémia antes de o levarem a sério. Um helicóptero da polícia seguiu-o até cinco mil pés de altitude, antes de regressar à base. A responsabilidade passou então para as Autoridades da Aviação Civil, sendo emitido o alerta de que um porco com 12 metros de comprimento estava à solta no espaço aéreo da capital.
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Os jornais vespertinos começaram a recolher testemunhos. A Aviação Civil perdeu o porco do radar perto de Kent, quando já voava a uma altitude de 18 mil pés rumo a leste, em direção à Alemanha. “Podemos dizer que o porco regressa a casa”, brincou o responsável da Aviação Civil. Depois de ter causado a consternação dos controladores aéreos de Heathrow, o porco despenhou-se, 30 quilómetros a sudeste de Londres, no condado de Kent.
A imprensa não deixou passar em claro este episódio, pelo que os títulos sucederam-se, “Alerta a bordo: Um porco”, “Se os porcos voassem”, “Cuidado, há um porco a voar por aí!” Mais tarde, um anúncio publicado nos jornais, promovia o álbum com a frase: “Oink, Oink, Woof, Woof, Baaaaa. Novos sons de Animals dos Pink Floyd.” Surgiu uma fotomontagem na imprensa, mostrando um agricultor com um porco debaixo de cada braço. Um pergunta: “Já ouviste o novo dos Floyd?” O outro responde: “Eu sou o novo dos Floyd.”

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OS TRÊS SOLOS

O exemplar trabalho de guitarra foi desenvolvido por Gilmour ao longo de dois anos, em atuações ao vivo, quando o tema se chamava «You Gotta Be Crazy». Os primeiros quatro versos são cantados pelo guitarrista, e os restantes três por Waters.
A gravação dos três solos resulta de meses de experiências e não foi fácil devido às dificuldades que os Pink Floyd encontraram ao autoproduzirem o álbum num novo estúdio. A certa altura, Waters apagou acidentalmente uma parte de guitarra de Gilmour, da qual este muito se orgulhava.
Ao contrário do que é seu hábito, o guitarrista usou uma Fender Telecaster, conhecida pelo timbre mais metálico. A nível de efeitos, como sempre, prima a subtileza. Fala-se no uso do flanger e do phaser, mas a questão torna-se secundária face à expressividade demonstrada. (Há certamente reverb, overdrive e um rotating speaker.)
Estes três solos demonstram as qualidades de David Gilmour: O efeito dramático, já que os solos não são incluídos na música de forma aleatória e contrastam entre si. (Já fizera o mesmo em «Money».) O cuidado em tocar o que melhor se adequa à canção, evitando sobressair apenas pelo virtuosismo. Contenção, bom gosto e o cuidado extremo nas notas que não são tocadas – mais importantes do que aquelas que se tocam, segundo uma filosofia do jazz. Outra grande qualidade de Gilmour é o facto de ter uma noção impecável do tempo – 99 por cento das vezes, o timing das notas é, dir-se-ia, perfeito.
Primeiro solo (1:50)
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O solo que cria o ambiente dramático. Utilizando escalas cromáticas, Gilmour estabelece um crescendo e uma dinâmica exemplares, perfeitamente enquadradas na sonoridade quase claustrofóbica de «Dogs».
Solo intermédio (5:34)
Acompanhando o progresso da letra, este solo é claramente uma interpretação das palavras. Mais intimista, Gilmour deixa espaços intencionais entre as frases, como se se tratasse de um discurso falado. O final parece insinuar que se seguirá um terceiro solo.
Solo final (13:27)
Mais rápido, o solo sintetiza e retoma as ideias dos anteriores, culminando numa frase descendente, interpretada em harmonia, com três guitarras em uníssono.
A guitarra usada foi uma Telecaster Custom de 1959, sunburst e com uma característica incomum, um (pickup) humbucker Gibson PAF, fazendo com que soasse e se parecesse com as Deluxe Telecasters do início dos anos 70. Não se sabe se foi o próprio Gilmour a instalá-lo, já que o músico gostava de experimentar este tipo de mudanças nos instrumentos. Também comprava guitarras em segunda mão, pelo que pode ter sido o anterior dono a fazê-lo. Em Janeiro de 2009, Gilmour referiu à Guitar Player que o humbucker foi substituído por um pickup de Stratocaster.
De referir ainda o trabalho de guitarra acústica, afinada um tom abaixo do normal, e o riff de guitarra elétrica que se repete ao longo da canção – também este arquitetado cuidadosamente e executado com três guitarras em harmonia. E muito fica por dizer. Resta ouvir e aprender…

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

CARLY SIMON

Desde há muito tempo que Carly Simon exerce em mim um grande fascínio. Não sei se tal se deve ao facto de ser uma mulher bonita feia ou de revelar uma faceta de espírito livre, que é sempre de salutar nos dias que correm, mas, assina boas canções e com um suave bouquet de confissão pessoal.
Simon é detentora de uma carreira recheada de bons momentos, cujo epicentro mais memorável se situou nos anos 70.  São dessa fase os discos "Carly Simon", "Anticipation" e, principalmente, "No Secrets", de 1972. O casamento com o cantautor James Taylor, na mesma altura, também lhe rendeu um êxito: "Mockingbird". A cantora alta, exótica e frágil sofreria em finais de 1980 um colapso durante um espectáculo. O afastamento dos palcos, ainda assim, não diminuiria o nível das composições.  Dois singles, "Why" com produção dos Chic e "Coming Around Again", seriam os expoentes máximos desse período. Na década seguinte, sucederam-se os álbuns de versões que seriam interrompidos pelo primeiro trabalho de originais em muito tempo: "The Bedroom Tapes", de 2000. Terminando com o mais recente "This Kind of Love".  Em todas as fases da sua carreira, Carly Simon revelou elegância, humor e criatividade.
Deixo-vos com a sua canção mais famosa: "You´re So Vain". A mesma não deixa de revelar uma doce ironia: Quem é o vaidoso ?  Durante muito tempo pensou-se em Mick Jagger, antigo namorado da cantora e voz presente nos coros deste tema. O mistério foi resolvido há pouco tempo... era o actor Warren Beaty.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

INXS : Kick

O caminho para o sucesso dos INXS começou nos pubs da Áustralia. Com a canção "What You Need" rumaram ao Top Five americano, mas seria o álbum "Kick" que lhes traria o reconhecimento global. Através de uma combinação inteligente de rock & roll, pop/funk e bons riffs, construiram um disco sólido e consistente. A essência do trabalho era um híbrido entre rock e música de dança, com classe, e um apreciável sentido cool. A sexualidade felina do vocalista Michael Hutchence dava um colorido especial à envolvente "Devil Inside", de que o mega êxito "Need You Tonight" conferia o seguimento natural. A ultra dançante "New Sensation" empregava as mesmas armas da balada épica "Never Tear Us Apart", ou seja, pausas dramáticas e repentinas, mas sem nunca perder o norte. De uma ponta à outra, "Kick" é um disco onde a palavra verbo de encher está ausente e enquadra-se na categoria dos melhores álbuns pop de todos os tempos.

DURAN DURAN : Rio

A ideia de disco pop perfeito encerra em si muitas variáveis, mas quando uma colecção de canções é definidora de uma época que teima em regressar, podemos incluir sem problemas o trabalho de 1982 dos Duranies. O segredo da longevidade de "Rio" assentou na qualidade da secção rítmica constituída por John e Roger Taylor, nos riffs de Andy Taylor e a combinação da elegância dos teclados de Nick Rhodes com a voz aveludada do cantor Simon Le Bon.
Uma boa execução técnica opera milagres, mas a ausência de grandes temas castra qualquer trabalho e condena-o ao esgotamento artístico. E foi precisamente isso que não aconteceu à banda de Birmingham. Durante uma apresentação no canal VH-1, Nick Rhodes definiu "Hungry Like The Wolf" como uma fixação em Mick Jagger. Inspirações à parte, o tema demonstra coesão e abraça a electrónica com um bom andamento de guitarra. A música que dá nome ao álbum encanta pela frescura e pelo grande solo de saxofone do convidado Andy Hamilton.
Não poderia faltar uma balada ao disco e, se pensarmos que "Save a Prayer" se tornou um clássico absoluto, muito deve ao "clima" quase tropical, baseado num encontro entre duas pessoas que se envolvem e cuja história amorosa termina abruptamente. Termino a minha apreciação, atribuindo uma menção honrosa à sensualidade à flor da pele de "The Chauffeur" e a um "Lonely In Your Nightmare" que merecia e merece mais atenção radiofónica.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

DEMIS ROUSSOS

Nascido Artemios Ventouris Roussos em 1946, em Alexandria, no Egipto, filho de pais de origem grega, Demis Roussos regressaria à Grécia em 1961, depois de a família ter perdido os seus bens na crise do Canal do Suez. Obrigado a trabalhar para apoiar a família, conjugava os estudos, durante o dia, com as actuações nos clubes jazz de Atenas, onde tocava trompete.
Dois anos depois, tinha a sua primeira banda, os The Idols. Seriam um grupo de versões sem história, excepto num pormenor: foi com eles que se ouviu pela primeira vez a voz de tenor que tanto furor faria na década seguinte. Inicialmente guitarrista e baixista, Roussos aproveitou uma rara oportunidade concedida pelo vocalista dos Idols para interpretar House of the rising sun e When a man loves a woman e ficou certo de que os anos passados no coro da Igreja Ortodoxa Grega de Alexandria não haviam sido em vão.
Em 1966, dá-se o primeiro momento decisivo na sua carreira. É no Verão desse ano que conhece Vangelis Papathanassiou. Em 1968 formam os Aphrodite’s Child com o baterista Lukas Sideras e, sonhando com uma carreira internacional, viajam até Inglaterra. Retidos na fronteira por falta de visto de trabalho, acabam em Paris, no auge do Maio de 68. Rain and tears, o primeiro single, chegou ao topo das tabelas francesas e foi o ponto de partida para uma carreira que fez da banda, com Demis Roussos como baixista e vocalista, um dos nomes pioneiros do rock progressivo. 666, o último registo do trio, álbum conceptual inspirado no Livro das Revelações, fica para a História como um clássico do rock progressivo.
O que se seguiu, a ascensão de Demis Roussos ao estatuto de estrela planetária, fez-se, porém em terrenos musicais substancialmente diferentes. 666 foi editado em 1972, quando a banda já se separara para que Vangelis e Demis Roussos seguissem percursos a solo.
We shall dance, o primeiro single de Roussos, editado em 1971, foi a antecâmara para o sucesso maciço de Forever and ever ou Goodbye my love, goodbye. Nos anos 1970 a sua voz, a sua barba, as túnicas coloridas e as lantejoulas cobrindo o corpo que, em 1980, atingiria os 147 quilos, formaram uma das imagens icónicas da década.
Demis Roussos era o baladeiro kitsch, o músico que aplicava à pop açucarada algo das músicas mediterrânicas com que crescera. Era também o poliglota (falava sete línguas) que gravava os seus singles em inglês, francês, espanhol, alemão ou português do Brasil (Você você e nada mais, de 1977). Afirmava-se, acima de tudo, como grande estrela pop europeia. “Em 1975 tive cinco álbuns no top 10 [no Reino Unido]. Ganhei o prémio de melhor artista masculino, melhor single e melhor álbum. Eu e os ABBA ganhámos tudo”, recordava em 1999 ao Guardian.
Continuando a colaborar esporadicamente com Vangelis (na banda-sonora de Blade Runner – Perigo Iminente ou na versão cantada de Momentos de Glória, editada em 1981 sob o título Race to the End), prosseguiu a carreira a solo com edições regulares e com digressões constantes. À medida que o sucesso das novas edições se ia esbatendo, a sua música foi ganhando novas características, aproximando-se do new age, recorrendo à electrónica e exibindo mais declaradamente influências gregas, balcânicas ou árabes. O amor, naturalmente, continuava a ser o tema principal. Mas outro tipo de amor: “Continuo a cantar canções de amor, mas já não têm as letras simples e directas que cantava nos anos 1970. Abordam o amor de uma forma mais ampla, ao contrário do ‘vou oferecer-te uma flor, és a minha bela senhora”. Ainda assim, nunca se cansava dos velhos êxitos. “Vejo todas as minhas canções como filhos e acho que um pai nunca se cansa dos seus filhos, caso contrário não será um bom pai”, argumentava ao Guardian.
Demis, de 2009, foi o seu último álbum. Nesse mesmo ano, festejou os 40 anos de carreira com um concerto em Atenas, descrito como “gigantesco” no obituário da TF1. O facto de ter sido durante o percurso a solo alvo constante da crítica, que lhe desvalorizava os feitos comerciais e desdenhava dos méritos artísticos, era-lhe indiferente. Sabia que as suas canções tinham chegado a milhões de pessoas e isso era mais que suficiente. “Ninguém pode negar que o meu nome deixou uma marca na música do século [XX]”, afirmava em 1999. “Mesmo que morra amanhã, Demis Roussos deixou uma carta, uma marca, algo que não pode ser esquecido”.
Ao longo da carreira terá vendido cerca de 60 milhões de álbuns. Bem-humorado, comentava da seguinte forma à Paris Match o seu sucesso, no ano da celebração dos 40 anos de carreira: “Já vendi milhões desta porcaria… Não me arrependo de nada. Sempre soube adaptar-me, fazendo com que a tua mãe adore [a música] mesmo quando lhe junto sons rock”. 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

ZZ TOP – Fiéis Às Barbas e aos Blues

A carreira dos ZZ Top divide-se em três etapas: consolidação e reconhecimento (anos 70), sucesso global (anos 80) e institucionalização (dos anos 90 até ao presente).
Nos alvores da década de 70, perto de Houston, no Texas, o guitarrista Billy Gibbons uniu esforços com o baixista Dusty Hill e o baterista Frank Beard. A paixão pelos blues e um sentido de humor muito próprio colheram os seus frutos ao terceiro trabalho: “Tres Hombres”. O factor decisivo para o êxito do disco veio através do tema “La Grange”, com um riff histórico devedor das boas lições de “Boogie Chillen”, do cantor de blues John Lee Hooker.
No entanto, seria o álbum “Eliminator”, de 1983, que faria dos ZZ Top estrelas planetárias. A força de singles orelhudos, "Sharp Dressed Man", "Gimme All Your Lovin´" e "Legs", encontrava a expressão perfeita nos videoclipes sugestivos que os acompanhavam. Sem surpresas, a banda adaptava a sua batida bluesy aos sintetizadores, sem perder o seu estilo texano original. O sucessor, “Afterburner”, de 1985, repetiu a fórmula e o sucesso anterior, de que a balada “Rough Boy” seria o expoente máximo.
A mensagem do grupo começava a reduzir-se progressivamente á iconografia. De que um convite recusado por Gibbons e Hill, para cortar as suas longas barbas, num reclame da Gillette, foi o exemplo paradigmático. Importa dizer que Billy Gibbons é um dos melhores guitarristas americanos de blues, influenciado pela leva britânica primordial de blues rock. Em 1999, comemoraram 30 anos de carreira e constituem-se como o único agrupamento em actividade que conserva os seus membros fundadores.
A escolha videográfica contempla “Gimme All Your Lovin´”. Uma ode aos carros e ás raparigas que definiu as coordenadas dos ZZ Top, nos anos 80.

ROLLING STONES : Exile on Main Street

À partida as condições não eram as melhores. Keith Richards sobrevivia a um desastre de automóvel, Mick Jagger tinha acabado de se casar, problemas com o fisco e antigos managers atormentavam uma banda que vivia “realmente” um exílio no sul de França. Para agravar este estado de coisas, as gravações de “Exile on Main Street”, iniciadas no Verão de 1971, na Villa Nelicotte, propriedade do famoso guitarrista dos Rolling Stones, a electricidade falhava constantemente e a humidade alterava a afinação dos instrumentos.
Com o decorrer dos trabalhos, os atropelos e a desorganização transformavam-se num documento musical uno, sólido e furioso. A explicação para a durabilidade de um dos melhores discos de hard rock de sempre provinha da sua diversidade de estilos: rock & roll, blues, soul e até country. Mas, acima de tudo, pelo acentuar da componente depressiva, iniciada em “Let It Bleed” e “Sticky Fingers”, acrescida de um regresso a uma versão mais dura dos blues, herdados dos seus legítimos antepassados.
Um riff a mid tempo e um grito cavernoso de Jagger apresentavam a relaxante primeira canção: “Rocks Off”. A festa prosseguia com “Rip This Joint” e atingia o seu pináculo com “Tumbling Dice”, no qual o vocalista dos Stones desempenhava o papel de pregador, apoiado por harmonias gospel debitadas pelas vozes corais de Claudie King e Vanetta Fields. A influência de Chuck Berry era patenteada em “Happy”, outro grande tema do álbum, apresentando o cantor Keith Richards e uma estrofe memorável: “I need a love to keep me happy”.
Destaque ainda para o desconsolo gospel da lindíssima “Let It Loose”, a pedalada rock enriquecida pelo saxofone de Bobby Keys, “All Down the Line”, e o encanto espiritual de “Shine a Light”, que deu nome ao filme de Martin Scorcese, sobre os Rolling Stones. Em entrevista concedida á revista Rolling Stone, em 1995, Mick Jagger retirava  valor ao trabalho de 1972: “Exile é um pouco sobrestimado, não tem assim tantas canções memoráveis”. Discordo ! A faceta negra dos Stones é decididamente a mais convincente.